Olho o tempo e o relógio do nada.
Pedem sangue e a fila vazia de cor.
Não há cura para o diagnóstico da dor. E as rotinas refletem os mesmos rostos que me olham.
As palavras não ganham esperança nas histórias.
A moça de azul nem me olha.
Fito as frases de ajuda nos folhetos pregados na parede. Não ajuda.
Falam de esperanças renovadas e as minhas envelheceram faz tempo.
Lembro-me de nossas conversas e do riso e da promessa que não cumpriu de ficar.
Eu só queria mais uma chance para mudar o fim da história, mas a moça de azul aplica a dose diária e eu me esqueço de esquecer.
Mariana Gouveia
Cadeados Abertos
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso – Suzana Martins e Bob F
Categoria: Cadeados Abertos
Preciso sobreviver ao encanto…

que teus olhos me apresentam em miudezas e rotinas.
Dou-te os sentidos plenos no toque das palavras,
invento recantos onde seu amor me ampara
Para isso, basta sentir-me tua.
Adivinho que você nasceu em algum canto do mundo. E os séculos nos pertencem.
Mariana Gouveia|
In: Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações – Scenarium Plural – Livros Artesanais, p. 93 |
*Imagem: Laura Makabresku
Vermelhou…
A vida acontece em pluralidade na cor vermelha. E por falar em vermelho, a cor aconteceu no meu quintal.
Havia o fruto, a flor, a roupa no varal.
As nuvens que antecipam a chegada do sol vibraram na intensidade da cor.
Até a solidão é vermelha. Passeia pelo interior vestida para festa.
A solidão é dentro da gente. Agita a alma como ventania. A mesma que lá fora anuncia a mudança do clima.
Quando o céu amanhece vermelho, vem frio – meu pai sempre avisava – e parece que lá fora, a flor que insiste em abrir seu botão majestoso se delicia com o afago do vento. É o dia espalhando a cor dentro de mim.
Mariana Gouveia
Cadeados Abertos
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais
Carta a você que me lê…
Querido leitor,
Talvez, a melhor forma de agradecer a você que me lê nesse dia mundial do livro é te escrevendo uma carta. Escrever para mim é desnudar a alma e fazer com que a minha emoção toque a sua.
Claro que desde menina eu sempre quis que minhas palavras atravessassem os campos da fazenda onde nasci e encontrassem amparo em algum olhar, em alguma mão. Uma das maneiras que criei para escrever foram as cartas. Menina ainda, através do rádio, minhas palavras ganhavam cidades, estados e diferentes lugares dentro de envelopes e muitas dessas cartas me trouxeram como respostas amigos do coração.
Nesse meio tempo me tornei artesã, mãe, esposa, radialista e a escritora esperava uma oportunidade que surgiu quando conheci Lunna Guedes. O destino me ligou a ela através de blogs e do selo artesanal criado por Lunna e Marco Antônio: Scenarium Livros Artesanais… o encanto pelo trabalho artesanato que Lunna tão lindamente faz falou mais forte e em 2015 meu primeiro livro de poesias foi costurado em fitas de cetim com o selo artesanal da Scenarium e O Lado de Dentro ganhou forma no papel… já na terceira edição.
O lado de dentro — a poesia de Mariana Gouveia viaja no tempo e espaço, e nos põe sentados a mesa do café, para divagarmos sobre lugares imaginários onde o vento leva arrepio a pele onde os sentimentos todos se amontoam e são como pétalas na primavera, e são como folhas no outono, e são também verão e inverno.
No ano seguinte, veio o convite para que participasse do Projeto Diário das Quatro Estações. Um projeto inspirado em diário e escrevi Cadeados Abertos e não paramos mais.
Cadeados Abertos — é uma espécie de caixa de costuras que toda casa antiga tinha, com carretéis de linhas, agulhas, dedais e retalhos de tecidos… caixas com botões coloridos e uma tesourinha para cortar o fio. Cada item impulsiona uma lembrança — vivências singulares que nos toma pela mão e conduz aos caminhos do coração da autora.
Participei de alguns projetos coletivos da editora como Sete Pecados, Coletivo, Feliz Ano Velho, Sete Luas e outros, além das edições da Revista Plural com textos e em sua maioria, cartas.
Meu primeiro romance Corredores, codinome: Loucura foi lançado em 2018 e decidimos que ele não caberia em um livro só…Dividimos em dois livros e Portas Abertas, codinome: Lucidez foi lançado em 2019.
Corredores, codinome: loucura — é um romance que nos coloca diante da pergunta: é possível duvidar da própria lucidez? Maria é trancada num hospício pela própria mãe, que promete voltar para buscá-la depois que estiver curada. Entregue aos cuidados de Mathilda — uma mulher que não enxerga pessoas, apenas números numa folha mapeados pela condição determinada por ela e, assegurada pelo Estado que só quer se livrar de seus “doentes”.
A jovem Maria percorre os corredores de sua nova-casa em meio a abusos e punições severas, tentando preservar qualquer coisa de lucidez.
Portas Abertas: codinome lucidez — Maria deixou o hospício com a ajuda do Doutor Arthur… mas, quando se deixa a escuridão, é necessário se acostumar a luz. Leva tempo e não é nada fácil identificar o que sobreviveu após tanto tempo vivendo entre loucos e, de repente, ter sua lucidez reconhecida…
E novamente, o projeto Diário das Quatro Estações me envolveu e surge Desvios para atravessar quintais. Lançado em 2020, em plena pandemia, e talvez, por isso, um sopro na alma dentro dos dias ruins.
Desvios para atravessar quintais… O Diário das Quatro Estações é sobre os dias aleatórios que avançam dentro do tempo e é feito da palavra que cabe no papel antes que sufoque o peito; é o retrato dos meses que ficam na memória das horas e no mapa feito dentro dos muros e para atravessar os quintais usei os desvios traçados no mapa que o coração costurava e mesmo quando desenhava asas na areia sentia que o pássaro voava e que possuía o céu inteiro .
Meus livros são artesanais. Costurados um a um, em costura japonesa pelas mãos da Lunna. O livro artesanal só é costurado quando você o encomenda. Portanto, cada exemplar é único em seu preparo. As histórias, as poesias, os poemas e até mesmo as cartas quando te alcançam já nos emocionaram bastante. Desde a escolha do papel, da capa e da maneira que fazemos chegar até você, mesmo que você não tenha o livro – ainda – mas lê em alguma das minhas redes sociais ou da editora algum pedaço de texto, poema, ou citações.
Há mais coisas na caixinha vindo aí… projetos feitos para te tocar e te emocionar. Espero que até lá esse laço se fortaleça ainda mais.
Por isso, te agradeço e te envolvo no meu carinho.
Abraço carinhoso
Mariana Gouveia
Participam dessa blogagem coletiva:
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega Roseli Pedroso
Das maresias

A cidade cumpria seu rito de anos … O sol castigava a todos, como sempre…
Naquele dia, o mar cantava em meu ouvido.
Maresia pura em minha boca.
Peguei minhas mãos – tuas – toquei de leve meu corpo… era pele gozo, vontade.
Naquele dia – como nunca havia sido de ninguém – fui sua,
Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora
*magem: Mira Nedyalkova
Havia um jeito de ave no meu peito.
O voo cego. O pouso em qualquer canto.
A gaiola dentro das entranhas, prendendo a liberdade de respirar.
A falta não respeitando lembranças.
Objetos que são marcas que ela deixou.
O sentido da vida na posição morta.
O mapa sem rotas certas.
Apenas a falta.
Havia um jeito de ave no meu peito.
O voo cego. Sem ninho para pousar.
Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das quatro estações.
Scenarium Plural Editora
b.e.d.a – Dentro
Rebatizei meus silêncios de palavras suas.
Revivi orgias inteiras, plenas, dentro de tua pele.
Era isso que eu chamava de entranhar mesmo quando não estava dentro.
Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

b.e.d.a – Cor de anil

Tinha cor de anil a manhã que te escrevi… tudo azulava como se fosse pintura.
O sabonete, no lugar dele em estado de pouso.
O cheiro a invadir tudo que é canto. Lembrei-me de sua pele que nunca toquei, e das diversas vezes que chorei ao dizer seu nome.
Tudo era esse seu gesto no gostar e suas frases eu escrevi no espelho. Mas lá fora tudo era cor de anil, As trapoerabas se espalhavam ao redor do pé de boldo. Cresceram ali, sem ninguém plantar. Era quase uma infinita coleção de flores espalhadas no quintal.
Fiquei horas ali, a espiar.
Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora
*imagem: Stavros Stamatiou
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

b.e.d.a – a palavra amor

Eu não podia estar melhor dentro da palavra amor. Ela faz com que eu abra a porta com poesia.
Levou-me dentro do paraíso do seu nome. Mostrou-me para sua cidade pelos olhos dela. Foi esse dia em que eu estava sem ter ido.
Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora
*imagem: Nhu Xuan Hua
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

b.e.d.a – saudades…

Engulo sua ausência com café frio. Uma garoa que não existe aqui, cai agora.
Era quase um ciclone a ecoar dentro do peito.
Avisto a saudade no espelho. Bem ali onde o coração alcança.
Repito o nome dela dez vezes. Canto a canção que ela gosta.
Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium Plural Editora
*imagem: Claude B. Tenot
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.





