Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Tem noite que parece criada dentro de um livro de história.

Contei a história para menina de agora. O bordado desenhou uma noite de estrelas. O céu tinha uma nuvem laranja. Alguém falou do fogo a invadir o cerrado. A meteorologia não teve previsão de chuvas… falou de meteoros.
Um avião quase atravessou a lua.
O céu, em infinitas vezes faz seu show de imagens… uma ave, o voo e a nuvem formando desenhos que me lembram a infância…
A mulher de coragem enfrentou a dor. Inventou risos entre palavras e escolheu o substantivo feminino: força quando bebeu água com os comprimidos. Esperou a noite cair mansamente. Tem noite que parece criada dentro de um livro de história. Mas não é para qualquer um… apenas para quem é guerreira e tatua na pele o desejo de despertar.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

 O hoje é um tempo entre aspas

Anoto em uma carta as frases que diria: as sombras na parede espantam a solidão enquanto o sol aquece os corredores vazios. O jardim envernizado com flores de plástico esconde a parede oca para o futuro do nada.
Descobri casas abandonadas na minha rua… cada uma grita um nome quando a noite cai. Hoje é dia de vermelhecer em algum canto do mundo. Os intervalos entre o vento e o muro é o calor.
Alguém canta na redondeza.
Contam histórias de horóscopos e tarôs.
Vejo as constelações todas num céu sem nuvem… o rumor da pele desenhando tatuagens. Misturo os assuntos e rasgo a carta.
As frases ficam soltas em uma estrada diferente da outra. O mar afasta a possibilidade de escolha.
Em algum lugar, a estrela fica fora do céu. O vermelho ao meu redor é apenas a vontade de estar onde não estou.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Livros Artesanais

Projeto Diário das quatro estações

Decreto

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Crio um decreto como forma de ditar regras. Riem dela porque adora ler os manuais. Coloca estrelas nos meus olhos nas primeiras horas da manhã. No poder encantatório das palavras ilumina meu canto poente da sala. Procura o nome que dei à ela nas pétalas do meu dedo que cheira a maresia.

Decreto
Decreto que todas as coisas fiquem lindas por causa do amor e que o amor embeleze todas as coisas.

in, Diário das Quatro Estações – Mariana Gouveia

*imagem: Anna O.

 

 

 

 

Desvios para atravessar os quintais · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

 dos acontecimentos inéditos

A noite se recolhe gesto… acolhe a geometria das horas e o signo ascendente. Desenho histórias vividas através dos acontecimentos inéditos. Era lua de se perder, em algum lugar. Ninguém sabia os caminhos das rotas e os retornos nos devolviam sempre para o mesmo lugar no mapa onde atalhos não são traços possíveis. E são o melhor da viagem, que começa do lado de dentro. Descubro que o meu nome se repete em outras pessoas, com sonoridade nova. Sou duas e ao mesmo tempo: uma… dentro da minha solidão. E em meio a perguntas que ficam no ar, brinco de roda com o dia porque se existe a lua de se perder na aldeia, existe também a de plantar, cortar o cabelo, de pescar e catar ervas.

Qual delas eu sou enquanto escrevo?

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais.
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · das coisas breves · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Outono

Inaugurava em mim o outono e a voracidade dos dias. Mora dentro de mim as tuas digitais e os caminhos que percorro em tua pele. A folha que cai enquanto o corpo treme. É preciso sobre(viver) dentro das estações.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Scenarium Livros Artesanais

O tempo de ser das coisas.

Acontecia o dia na hora das coisas e havia o tempo de o jardim mudar a cor. Os lírios criaram delírios no quintal. A manhã atmosfera de espera, enquanto do céu chovia uma garoa fina. O vento derrubava as folhas secas a pedido da estação. A palavra espera ganhou conforto no abraço. A solidão é esse estado desajeitado de ser dois.

da geografia das coisas
Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Livros Artesanais
Ph: Marta Bevacqua

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É só chamar (11)99241-5985

Alice - Uma Voz nas Pedras · Das palavras das cartas · Lua de Papel · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Viagem literária

Para Mariana
Eu gosto de dizer que construo para olhares alheios, no caso, o seu – habitar! Gosto de pensar que. de palavra em palavra, eu vou me desfazendo de mim para que uma vez, em estado de abandono, você me encontre! E me leve com você…
Eu poderia lhe dizer: “divirta-se”, mas prefiro dizer: “embriague-se”, porque combina com café… essa realidade tão minha.

Lunna

Bambina mia,

Como se tornou rotina, uso o 6 on 6 para te escrever e como hoje você nos convidou para uma viagem literária, nada mais bonito do que embarcar com você nessa locomotiva que é a sua escrita. A dedicatória acima, que abre o post, já está borrada, amarelada pelo tempo, sinal de uma chuva que tomei e o Lua de Papel em mãos sofreu o dano.

Lua de Papel me arrebatou – você sabe e me vi tantas vezes em Alexandra – e já disse isso em uma outra missiva ou texto. Não me lembro bem agora. Teve momentos que eu quis sacudir Alexandra e tirá-la do lugar comum…Também já tive momentos em que quis pegar Raissa e acolhê-la em um abraço. Mas foi isso que você fez com seus leitores. Nos abraçou nos três livros Lua de Papel em uma história emocionante e instigante.

Já Vermelho por Dentro, foi como um pulsar do cuore entre um trovão e outro. Viajei literalmente pelas ruas de Paris e entrei de vez dentro do casarão e o vermelho que já me habitava intensificou alma adentro. Quem mais conseguiria me levar tão fundo em uma cor tão minha? Anne me levou pelo cenário da fotografia e também veio a vontade do abraço em alguns momentos. A sensação de estar ali, entre os personagens me fez sentir em uma viagem em 3d.

Sabe, bambina, Alice reverbera em minhas memórias tantas. Nas leituras compartilhadas com as meninas que acolho e que passam/passaram por coisas que Alice viveu. Alice é um soco no estômago. Um alerta vivo do tempo que vivemos. Conheço tantas Alices e sou grata porque seu livro me ajudou tanto, em tantos momentos. Já abracei tantas Alices e ao fazer isso, senti que abracei a personagem principal de sua história.

Para mim, o presente é para sempre

Septum é um presente e só dele caberiam tantas fotos. Mais do que o projeto comporta, já que só posso postar seis fotos e com meu protesto, viu? Gosto das histórias que entrelaçam nas minhas. Acompanho sempre o guarda da estação. Fui sua companheira em alguns momentos do livro. Ri na parte em que se sentiu uma personagem francesa. Guardei suas memórias como semente e dentro de todas as estações te abraço.

entre aspas


E por falar em Diário das Quatro Estações eu suspirei muito durante a leitura de Aos Sábados… segui sua receita – sem medida – como de costume, para o melhor lugar onde te acolho sempre: o mio cuore. É nele, que guardei as folhas pra dar-te. Não diria que dentre os seus livros seja meu preferido. É aquele que embalo, como se pudesse com isso fazer parte da sua história passada.

fecha aspas

E chego a última foto, bambina mia, ainda em voltas com os diários. Reticências foi o primeiro, mas foi o último seu que li. Foi a leitura que me levou pela mão, como se eu já soubesse de tudo que estava escrito, de tanto ouvir falar. Tenho as duas versões, o que me dá o privilégio de saborear as duas formas da sua escrita. Mas deixo aqui registrado nessa viagem que ficaram alguns de fora: Catarina voltou a escrever e Meus Naufrágios, além do “não livro” Profissão: escritora, que devia ser lido por todos que escrevem.

Embarquei com você nessa viagem ouvindo Leon, com uma xícara fumegante de café. Te levo comigo sempre. É quando me embriago, como foi dito na primeira dedicatória feita para mim. Dentro de sua realidade e personagens.

Grazie Mille!
Amo tu, tu, tu imenso.
Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes –Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega
Roseli Pedroso – Silvana

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Alguém aí tem café?

Acordei com o cheiro de pão invadindo tudo. Não havia fome de outro dia. Nem padaria aberta vendendo sonhos. A manhã anunciava decisões vendidas em caixa.

Mando entregar em qualquer canto do universo. Frete grátis.

E cheiro a invadir as manhãs e o cão da vizinha a latir. Sono perdido onde não se teve. Sem a opção do pão comi poesias do paraíso. Desceu matando fome de dor. Era quase um grito. Duas colherezinhas de mel para a garganta que ecoa seu nome sem parar. É outra vez, dia na imensidão do nada. Água fervendo. Esqueci a receita da moça de azul para o chá. Alguém aí tem café?

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Plural Editora

Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Algumas esperas são angustiantes.

Olho o tempo e o relógio do nada.
Pedem sangue e a fila vazia de cor.
Não há cura para o diagnóstico da dor. E as rotinas refletem os mesmos rostos que me olham.
As palavras não ganham esperança nas histórias.
A moça de azul nem me olha.
Fito as frases de ajuda nos folhetos pregados na parede. Não ajuda.
Falam de esperanças renovadas e as minhas envelheceram faz tempo.
Lembro-me de nossas conversas e do riso e da promessa que não cumpriu de ficar.
Eu só queria mais uma chance para mudar o fim da história, mas a moça de azul aplica a dose diária e eu me esqueço de esquecer.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna GuedesObdúlio Nunes Ortega Roseli Pedroso Suzana Martins e Bob F

Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

A vida é para acontecer no instante do agora.

Todos os dias eu a via por ali. Como se medisse passos, como se medisse a vida.
Como se dissesse:
– A vida não é para quem tem pressa, moça.
A vida é para acontecer no instante do agora.
E assim, os dias seguiam seu destino de ser dia.
O diário das rotinas. A fala improvisada no programa de rádio.
A canção que ela mais gostava e seu lugar. Era ali que a vida podia ser medida vagarosamente para viver.
Era só respirar e viver e esperar o momento da transformação.
Para amanhã, asas.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna Guedes Obdúlio Nunes Ortega Roseli Pedroso e Suzana MartinsDarlene Regina