Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

as estações se misturam meio dia e meia)

Ph: Pinterest

– O azulejo da cozinha, a cantoneira, a mesa posta para o café. A porcelana esquecida no canto e a noite e seus vazios… e… e… Esqueço-me de que a estação das flores é a primavera e nos dias de quase inverno e outono seco (as estações se misturam meio dia e meia) e o vento invade os aposentos da casa quando o sol doura tudo que é canto.

Meia noite e meia e a luz ainda detalha o canto das cortinas. É preciso coragem para retirar os panos que tapam os porta-retratos. Pessoas conhecidas dentro de mim mesma e

aquele postal do seu lugar. Um estranho postal no meio da parede a murmurar seu nome durante a noite inteira acompanhando o tic tic do relógio e o ponto turístico daquela cidade em que sonhamos conhecer e andar pelas esquinas de mãos dadas enquanto você pronuncia o idioma repetindo os versos da canção. A mão espalhada acolhia o ser que voa e na escuridão a asa perde o poder de direção. As aves, intactas, desabitadas em seu modo de voar. Conversa com os pássaros entalhados, para ensinar que voar não tem segredo, mas ainda assim, perdeu a autonomia dos voos enquanto o pouco céu for a estante como morada.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro Estações
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Outro dia, era a certeza de tudo, hoje, apenas o vazio da solidão aérea das vontades.

– Pensou nas roupas do varal — o lençol branco, de linho, bordado com o monograma dela — quase um voo — era a invenção para ter asas… As mãos a ganhar acaso de bicho e o imaginário a criar sombras entre o chão e o céu. A pele a equilibrar a rotina do medo. As falhas entre as folhas criam desenhos sob a luz da lua. Ela — tão etérea — visitante invasora da vida. A renda a desenhar as asas. Os olhos aumentados em uma lembrança que não vi. O abismo tão imenso diante da miniatura no varal. E já não era mais o lençol da memória. Era esse abuso de cremar o ouro do sol. O voo noturno e o pouso a caber dentro do sonho. A luz, quase vasculhando cada canto do quarto.
Outro dia, era a certeza de tudo, hoje, apenas o vazio da solidão aérea das vontades.

Mariana Gouveia
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Projeto Diário das quatro estações

A minha vida é um punhado de começos suspensos

Ph: Laurie Kaplowitz

[Há uma mulher que caminha sobre a areia da praia e voa com as aves marinhas entre risos] que desenha em minha pele histórias nunca vividas e que sonha atravessar o oceano a nado. É feita de vento e alada. Ocupa os espaços todos. Quebra as regras. É essa roupa feita de matizes e quase um fado dentro da melodia da canção. No avesso, é essa explosão de sentimentos. O riso entalhado na arte que a seduz. Dentro de mim, acontece. Detalhada no poema que fabrico – as mãos a tocar as asas aladas do amor – feito metamorfose do efeito leveza que as borboletas fazem. [Há uma mulher que sonha horizontes, que sonha cidades] quisesse saber dela bastava abrir os braços e tocar o vento. A pele, puro arrepio e em meu silêncio é pura fala. Quisesse conhecer a emoção, bastava pronunciar o nome e as matas e jardins aconteceriam no instante de agora. Quisesse saber de pouso e estenderia minhas mãos nas mãos das tuas asas e assim, nasceria de novo e de novo dentro do mais belo amor.

Mariana Gouveia

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Das casas habitadas de lembranças

Na casa do pai, a renda desenhada no pé de canela. O cheiro lembrando os chás das manhãs de invernos.

O quintal traçado dentro do pequeno pomar e suas frutas servindo de comida aos pássaros.

As histórias ecoando em cada canto. Os móveis empilhados em um quarto. As fotografias antigas dentro da mala e seus álbuns retratando épocas de nós.

A árvore do balanço fora cortada para a limpeza do lugar.

Cômodos vazios de nós, mas com todas as histórias e lembranças dentro delas.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
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Das rotinas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

dos rituais da noite

Laurie Kaplowitz

Conhecia os barulhos da noite e seus silêncios também. Ouvia os pássaros noturnos como presságios de insônia. A noite tão curta dentro das horas. As horas tão longas dentro da noite. Sabia das rotinas do relógio… o tic tac inconstante fora dos minutos. O ocaso dourando o céu como se pintura fosse. A arte expressa no que os meus olhos veem… Conhecia os gestos, o barulho da TV em algum lugar perto. Conhecia o caminho das horas até o amanhecer.

Mariana Gouveia
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Das rotinas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Acontecia dentro das memórias o rito dos dias de espera

Ph: Łucja Stefaniuk

Havia o costume de vasculhar as gavetas, jogar os papéis velhos fora. Refazia nas memórias os dias… Aqueles retratos antigos ganhavam atenção nas lembranças recentes. O anel — por medo de perdê-lo — embrulhado no papel de borboleta, na caixinha que veio, cabe no dedo dentro das vontades… Jogava tudo que era velho fora, para depois recolher um a um os acontecimentos. Deixava por último a reza dá sorte. Encontrava no quintal a sorte lida nas cartas… As anotações do horóscopo e a conjunção estelar. Depois disso, respirava e ia viver a vida.

Mariana Gouveia
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O conto de fadas em papel e palavras

contava nos gestos o corpo partido. Os riscos da mãe, ali no papel… medidas em centímetros a saudade. Era coisa para ser dita a olho nu. O pássaro sem asa, a linha ainda a costurar. A fruta no cesto — e o pomar — além da janela a exalar o cheiro real das coisas. O conto de fadas em papel e palavras. A irmã, ali, a imitar o mesmo gesto das tesouras e linhas. Artesã de alma e coração. O mesmo ritmo a encontrar a paz na arte. A letra da mãe ainda a marcar as cores fazia com que os instantes fossem relembrados entre risos e histórias. Alguém lembrou do sabor do bolo feito com a massa de mandioca e com isso desenrolou casos vividos na época — como se isso puxasse um fio — e mais histórias surgiam na fala delas… e era possível viver a saudade no gesto.

O campo dá a certeza das coisas. O vento aqui traz a leveza da brisa e há cada coração em cada grito. O céu tem asa em tudo quanto é canto e de noite, traz estrela em cada espacinho dele. Dá para ver as nebulosas, o caminho de Santiago… O Cruzeiro do Sul, sendo bússola vagueia no laguinho onde o cão se banha. Os vaga-lumes oscilam perto do lago e ele — o cão — corre atrás de algo que voa… Aqui, tudo voa — ou quase — e quando a asa vira coração, vira folha — e de dia, o azul é deslumbrante! Parece vestido de festa e as folhas ficam rendadas para ficar à altura da beleza. É tudo simples… a beleza da noite se esconde, porque fica tudo mais bonito, assim a olho nu. O campo ao longe, o barulho da floresta e o riacho sempre espera para depois… E depois, se transforma em sonho. E de sonho, em toda leveza de ser, eu sou.

Guardei o dia na memória e desenhei a volta. Ninguém se perde no tempo dentro das lembranças… as lanternas chinesas mostram os caminhos percorridos. [Era ainda ali, ontem e as histórias cantadas nas vozes das irmãs, o riso da sobrinha a entoar cânticos de louvor… era ainda ali, ontem quando a lua fazia seu caminho pelo céu estrelado — tanto, tanto que parecia um lençol bordado de diamantes] Repito as mesmas canções da infância no caminho da volta. Colho as frutas na árvore do lado e a rotina acaba por preencher o espaço das horas. [Era ainda ali, a infância… e desenhada dentro dela a fala da irmã mais velha a contar detalhes que passaram em vão… era ainda ali, a vida, nos riscos da mãe e lembrou-se de tudo que viveu quando era menina] O aroma do bolo a assar no forno — o fogão a lenha a crepitar aquecendo a alma. [Voltei à casa onde chorei mil vezes. E onde

escrevi todos os dias parte da minha história. Na janela, a cortina balança e o vento abriga cheiros que ainda me levam para lá] nas mãos trago os instantes vividos e guardo-os em uma caixinha da memória para outra vez viver dentro da saudade. Sei que continua lá, cada cantinho. Dentro da caixa de papéis que ainda guardam pedaços de mim. Revolvo a terra, arranco as folhas mortas e dou água aos instantes novos que brotam. A lanterna chinesa floresce como se iluminasse uma nova etapa renovada na energia que me banhei de amor.

[Há dias que não deveriam acabar].

Mariana Gouveia
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Da estação da águas

Tinha dias que chovia e fazia sol. Era a magia do tempo acontecendo e refletia dentro das gotas que caiam… O jardim aproveita os bocados da chuva, era nessa hora que a mãe falava da delicadeza da cura pelas plantas e de como eram abençoados esses dias de água. Ela conhecia a aridez dos dias secos e do quanto fazia falta se a chuva não acontecer. A vontade do jardim de florescer fica mais latente nesse tempo… as ervas daninhas faziam oferendas no quintal e a vida acontecia liquida.
Os gestos nos ramos viviam de entrega à água.
Era amor em pequenos atos da natureza e a gente. Quando o tempo dava um espaço para o sol, a flor se abria e seguia seu caminho rumo ao calor.

As janelas se abriam para que entrasse a energia renovadora do sol dentro de casa… o extravio morno na pele.

Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Era assim em todos os séculos que existiu

e em cada século repetido o ritual do amor.

Ph: Pinterest

Havia chegado com cheiro de maresia e trazia nas mãos o beijo do mar. Se transformou em poema contado dentro do livro. Página a página em ritmo de poesia e o coração tal qual as ondas batia. O nome feito labirinto pronunciado ao vento. Era assim em todos os séculos que existiu e em cada século repetido o ritual do amor. Escreveu quatro cartas para endereços diferentes. Falava do passado, presente e futuro. Desenhou estradas que talvez nunca passaria. Retratou a cidade com seus cheiros, suas calçadas floridas pelos ipês de várias cores. Tentou passar o perfume das ruas através das frases. Imaginou o riso e a emoção de cada um ao abrir o envelope colorido. Contou das nuvens e as manhãs de verão. Explicou os sonhos, detalhou a esperança e cumpriu o rito da promessa. Falou da menina que recusou o livro por desconfiança — afinal, o mundo anda estranho — e perdeu a vontade de oferecer de novo. Escrever não precisa de explicações.
Beijou um a um os acontecimentos e fechou o envelope.

Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

E o pássaro abre a asa na intenção de voar

Descobri cartas antigas de minha mãe no baú das memórias. As letras cursivas pareciam ganhar vida agarradinhas umas nas outras. Em uma delas ela me chama pelo diminutivo do segundo nome… Parecia despedida e na época não percebi. Deu-me direção de caminhos. Orientou- me diante da vida e falou das canções que ela mais gostava.
Nas palavras, um poema sobre asas que eu fiz ainda criança… Falava do pássaro de todo dia que vivia ali, nos arredores. E do luto dela na ocasião da morte do meu avô. Tudo era um voo plano no ar:

” Era a asa do pássaro que tinha a posse…O poder do voo… o limite do céu.
Esse mesmo céu da cor do vestido de minha mãe de antes da morte do meu avô. Depois da partida dele ela se veste só de preto. Uma forma de mostrar a cor da alma. Mas de manhã, quando o sol abre a cortina do dia, o riso dela é colorido. E o pássaro abre a asa na intenção de voar”.

Depois daquele escrito lembro que minha mãe foi à porta, olhou o céu e sua dimensão de cor… entrou em seu quarto e saiu com seu vestido azul. Aprendi nesse dia o poder da palavra e do quanto era importante a escrita. Hoje, o canto de um pássaro invade o dia e junto com as palavras ganhou jeito de lembrança e cor.

Mariana Gouveia
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