
Sentei de novo na poltrona cinza, voltada para a janela.
Depois dos cumprimentos banais a visão de uma borboleta voando rente a janela me tirou a atenção.
Eu sabia decifrar os sinais. Ri.
Ela percebeu meu olhar distraído e seguiu para onde eu olhava.
– A distração das borboletas – ela disse.
– Ah, não sei por que, onde estou sempre aparece uma – falei.
– É coincidência…
Percebi que ela procurava as palavras certas para dizer. Evitou o assunto borboletas.
– Vamos aos trâmites convencionais – ela continuou.
– Não acredito em ninguém convencional. Essa hipocrisia boba do comum.
Pediu que eu decifrasse o incomum. Qual o objetivo do imaginário.
– Eu disse comum.
– Algumas pessoas gostam de imaginar que tem um lado secreto. Ajuda a enfrentar a realidade.
– Eu gosto de imaginar que tenho um lado real. Me ajuda e enfrentar o meu lado secreto.
a borboleta voltou.
Ela me conta sobre sua infância e sua inquietação pelas borboletas.
Mariana Gouveia – do Divã
*imagem: Mira Nedyalkova








