Divã

Inquietação pelas borboletas

Sentei de novo na poltrona cinza, voltada para a janela.
Depois dos cumprimentos banais a visão de uma borboleta voando rente a janela me tirou a atenção.
Eu sabia decifrar os sinais. Ri.

Ela percebeu meu olhar distraído e seguiu para onde eu olhava.
– A distração das borboletas – ela disse.
– Ah, não sei por que, onde estou sempre aparece uma – falei.
– É coincidência…
Percebi que ela procurava as palavras certas para dizer. Evitou o assunto borboletas.
– Vamos aos trâmites convencionais – ela continuou.
– Não acredito em ninguém convencional. Essa hipocrisia boba do comum.

Pediu que eu decifrasse o incomum. Qual o objetivo do imaginário.
– Eu disse comum.
– Algumas pessoas gostam de imaginar que tem um lado secreto. Ajuda a enfrentar a realidade.
– Eu gosto de imaginar que tenho um lado real. Me ajuda e enfrentar o meu lado secreto.

a borboleta voltou.
Ela me conta sobre sua infância e sua inquietação pelas borboletas.

Mariana Gouveia – do Divã
*imagem: Mira Nedyalkova

Corredores, Codinome Locura

Efeito borboleta

Ph: Laura Makabresku

 

I

Em gaiolas a boca
rouba a chave e liberta-se para o beijo.

II
A liberdade chama-se a doçura
do beijo dela.

III

E o voo conhece o ninho
no céu
da boca.

Uma vez, me disseram que o mistério do corpo está na boca. Na época, eu questionei e disse sobre ser o coração. Hoje, eu teria motivos para afirmar que é a mais pura verdade. É a boca mesmo o mistério do corpo.

Quando a vi pela primeira vez, ela tentava em vão, na minha frente, a encontrar o cartão transporte dentro da bolsa e travava a roleta. Depois de minutos que pareciam uma eternidade, peguei o meu cartão e disse para ela passar. O que foi um alívio para o motorista e o restante dos passageiros que insistiam em subir no ônibus. Indicou-me o banco ao lado dela que triunfante exibia o cartão encontrado.
– Às vezes, quando você quer algo a bolsa esconde. Parece mágica. – disse rindo – foi quando reparei na boca dela, entre a suavidade e um mistério.
Agradeceu meu gesto e colocou o fone, embalando o corpo ao som de uma música, que confesso desejei saber quem era.
– Amy. Você curte? – disse ela, como se tivesse ouvido meus pensamentos.
Disse que sim com um sinal de cabeça, já maravilhada pelo jeito que ela movimentava o corpo ao ritmo de alguma música qualquer de Amy.
Assustei-me quando ela estendeu a mão dividindo comigo o fone e com isso pude ouvir o refrão de Will you still love me tomorrow.
Ficamos próximas uma da outra e o perfume cítrico dela me inundou. Ela me instigou a seguir o ritmo da música. Fiquei ali como que encantada pela boca dela que repetia as palavras de Amy e quase perdi o ponto de descer.

Não perguntei o nome, nem nada. Fiquei apenas com o refrão da canção e o riso e o perfume dela a povoar minha mente.
|Alguém uma vez me disse que as borboletas causavam efeitos que podiam mudar o mundo|

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

E a última viagem, sempre para lá, das naus a subir…

Sua frase: quando foi que a Solidão se tornou um problema? me tocou em cheio. Lembrei-me das conversas com minha irmã caçula ultimamente. Ela se recupera há um ano de um transplante renal. Antes, à espera da cirurgia, ela fazia hemodiálise dia sim, dia não. Também se queixava da solidão entre ela e a máquina.

Agora, já em franca recuperação, a solidão do dia a dia está mexendo com ela. Os filhos cresceram, casaram, mudaram e o marido trabalha o dia todo e em alguns dias, até o período noturno. Ela mora no interior de Mato Grosso, em uma cidade pequena e por mais que eu indique opções para amenizar esse sentimento, não tive sucesso.

A gente cresceu rodeados de irmãos, primos e quando cada um seguiu sua vida, a solidão pairou em quase todos eles. Eu adoro a minha solidão. Gosto de estar comigo, de vagar no meu quintal, de falar com os pássaros, insetos e plantas. Lido bem com esse espaço de estar só. O moço daqui de casa sai de madrugada e só volta no fim do dia. Claro que tenho a companhia de Yoshi e meu quintal tem passagem para o seu, onde nossas mãos se cruzam em carinho e mensagens.

Não tenho problema em estar só. O artesanato me acompanha nas longas manhãs. A não solidão de Rubem me atordoa, mesmo gostando de algumas companhias de vez em quando, mesmo não estando de mãos dadas as minhas nunca estão vazias. Sempre servem de pouso para a solidão de voos e de outras pessoas.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes

Havia que deixar o corpo descoberto pelas pedras.

Já contei aqui sobre minha escrita e de como alegrava meu pai me ouvir ler as histórias que eu escrevia desde a infância. Mas, o que eu gostava mesmo era de ler Manoel de Barros e me ver dentro daquele imaginário.

O livro dele me chegou sem capa e algumas folhas soltas… quando ele dizia sobre não saber nada tão imenso dentro da poesia eu me sentia pequenininha e gigante ao mesmo tempo. O grilo no quintal, o chiado das pererecas, o musgo na pedra… de tudo que ele falava, eu vivia no dia a dia.

A professora da escola rural me falava sobre a magia das letras e ao mesmo tempo dos números que eu tinha que aprender.  Mas, eu queria aprender sobre o cheiro das árvores que ele dizia. Para mim, quando escrevia sobre fabricar brinquedos com as palavras e que a mãe dele havia ficado feliz, me debrucei em sorrisos na janela a contar para minha mãe.

Fui crescendo pensando naquela frase que ecoava em mim como um mantra. Fabricar brinquedos com as palavras ganhou corpo e letras em meus cadernos e passei a descrever meus sentimentos em forma de prosa e poemas.

A biblioteca do meu lugar era pequena e os livros cabiam em caixas de frutas… a própria professora era quem distribuía o que íamos ler. A maioria chegava até nós por doações e aqueles poucos livros me enchia de alegria. Eu os devorava tão logo chegavam e relia aqueles que eu mais gostava. Aqueles livros me moldaram e vários escritores tiveram parte nisso, mas o que foi essencial em sua forma doce de me mostrar a poesia em todos os sentidos me abraçou anos depois quando o conheci. Hoje, ele é memória viva na continuidade de minha escrita e no meu quintal, onde habitam as pedras, pássaros, insetos e borboletas.

Mariana Gouveia

das coisas breves · Lunna Guedes

Para que você vendeu o seu tempo?

Quando se trata de tempo, logo me vem à memória um poema de Graça Carpes: Tenho o tempo das borboletas… uma semana, é uma vida. Fiquei pensando na vida tão breve das borboletas que tanto amo e o que daria para viver em uma semana. Será que a borboleta branca que passou voando aqui estaria iniciando esse ciclo ou já seria o fim? Seria um tempo branco para ela? E depois disso, teríamos o efeito borboleta causando caos no universo inteiro?

Pensando sobre isso, lembrei-me do atropelamento de uma certa vez… vi quando ela bateu no para brisa do carro em que eu estava e pedi para parar o carro e antes que ela se queimasse no asfalto quente a peguei. Laranja, com listras pretas e uma risca branca nas asas e o tempo contado ali, nas minhas mãos. Ela reviveu e ficou ali, deitada na minha mão – fotos que ilustra o texto – e ao chegar em casa coloquei-a em um dos galhos do quintal. Logo ela voou. No dia seguinte a vi voando, entre uma flor e outra. Senti que ela teve o tempo dela provisoriamente adiado. Não sei se durou uma semana ou uma vida, porque ela seguiu os desvios do meu lugar para o céu afora. Acho que dentro do tempo de vida dela mesmo.

Por falar em tempo, gosto da música de Caetano que fala sobre o tempo ser um dos deuses mais lindos. Meu pai se referia ao tempo – clima – e ao tempo de agora. Ele adorava relógios e seu dia era cronometrado com suas tarefas tantas de homem da roça. Em alguns momentos eu o via dizer para meus irmãos: deixa o tempo correr… Ou vez outra: corra… não temos tempo.

A gente costuma dizer que o tempo está passando rápido demais e não dá tempo de fazer tudo que temos de fazer em um dia. Fica sempre algo para terminar depois. Em alguns dias, o tempo sobrepõe o tempo e aí já é quase dezembro.

De vez em quando, penso que guardo o tempo em potes e coloco no alto da prateleira. Mas também, penso em dias em que não duro um dia inteiro e assim, as encomendas ficam perdidas entre uma cesta de linhas coloridas e agulhas tortas.

Às vezes, me perco no tempo de uma poesia, ou na vida de uma borboleta, mesmo que dure apenas uma semana, ou no milésimo segundo que uma fotografia registra um tempo. Não penso muito no fim do meu tempo, mas gostaria também que ele terminasse em poesia ou pelo menos em uma sonata juntamente com os cantos dos pássaros.

Mariana Gouveia

Afetos · das coisas breves · Lunna Guedes

As palavras se transformam de minuto em minuto.

Depois de ler sua nota eu atravessei uma avenida inteira de pensamentos. Falei com você dias atrás sobre inventários. Os meus, além do que já te contei ultrapassa para além da rua de cima e atravessa meu quintal. A pele que arrepia ao toque das farfallas, o canto do pássaro laranja, o olho miúdo do Yoshi a me acompanhar enquanto cuido dos afazeres, o ninho do azulzinho no me vaso de trevos…

E quando você fala de escrita sinto mesmo a primavera em suas palavras. Uma pilha de palavras impressas costuradas com fitas de cetim me traz você. E essa pilha eu levaria comigo… não faria parte do meu inventário, porque não é algo que se deixa de herança. Deve ser levado para onde eu for, ou pelo menos memorizado para ficar até a eternidade.

Já te falei como nossas coisas se juntam sempre que falamos. O tempo era outro, mas o meu milho lá da infância, esbarra na comida do tuo país. Os cadernos de capa dura, os diários aleatórios de outras pessoas que espreitamos como se fossem nossos.

As trovoadas de maio, a tempestade de qualquer tempo, o barulho do trovão que ecoa enquanto registro e grito seu nome… a poça de água onde seu cão brinca e as fotos de caixa de correios da vizinhança da sua rua… e a lua – você – que se alinha em todas as fases dentro do quadrante do meu quintal enquanto eu suspiro.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

Beda – das singularidades dos dias

viu o luto nas memórias das caixas vazias
escreveu histórias que ninguém leu…
Desenhou mecanismo para a rota das formigas.
Não dormiu

sonhou com viagens além dos rios e pisou descalça na grama
comeu o verdume das folhas. era ainda criança quando ousou voar

Tatuou a liberdade em asas
nas costas

viu a cura ao alcance dos olhos
falhou nos abraços dados
coloriu o jardim nas sementes plantadas

e a vida se renovou em germinação.

a vida, por um instante é cíclica.
Afinal de contas, os séculos se repetem em consonância com os verbos do passado…
O ponto só é final quando se chega ao fim.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Luci,

Não perdi meu dom de criança: tudo que tem asas, ainda repousa em mim.
Luciane Recieri

Luci,

faz tempo que eu te devo uma resposta de sua carta. Mas, sabe, Luci… eu fiquei tempo demais em stand by. Acho que de muita saudade de gente que se foi, adoeci… e como eu não queria que ninguém me visse chorando por dores físicas e da alma, calei-me…

De vez em quando, eu dava apenas uns suspiros aqui e ali e demorou para eu sair desse trieiro que me levava para lugares tristes. Não vou dizer que sai totalmente, mas já deixei uma pequena fresta entrar.

Eu vi sua foto com seu pai nos 88 anos dele, Luci e lembrei-me de quando ele não queria comer e do estuque verde da parede que você descascava. Lembrei-me de tantas coisas que já se passaram e acho que senti a palavra quase declarada em sílabas: nos-tal-gi-a… e assim, de carreirinha, a palavra me dominou… tanto que corri para o seus lugares e fui te lendo para caber dentro dela. Acho que eu coube, Luci…

Hoje, no meu quintal lembrei do seu verso que cantam pousos na mão. Acho que somos iguais… tudo que é bicho que têm asas – e até os que não têm – buscam apoio ou pouso em minhas mãos, Luci… fico espantada, às vezes, como os espaços que nos ladeiam são elos que nos ligam.

Eu ficaria aqui a tarde toda falando de Almodóvar, de flores de orai pro nobis, de chuvas e livros… de cartas e de lembranças que nos ligam… mas, ainda estou em processo de cura e abril já se finda por aqui.

Eu só quis dizer que andar pelos seus lugares me deixa um pouco mais feliz.

Um beijo grande, Luci, com todo meu carinho e afago de mãos que acolhem os bichos que nos procuram.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

O vento se ausentou do quintal.

A lua andou inquieta no seu espaço lunar e a vida ganhou pouso nas mãos. A metamorfose aconteceu diante dos olhos e a asa desdobrou ganhando a palavra liberdade.

O dia provoca lembranças de datas que queria esquecer. O calor não deixa espaço seguro.

Atravessa as horas dentro do limite do tempo. Ainda era ontem outro dia e o dia outra estação.

Releu as cartas escritas, desenhou com linhas o projeto solidário e ajeitou as rosas no jardim. Podou as folhas extras que pendiam para o quintal do vizinho, transportou sementes germinadas para seus lugares definitivos e foi ali, viver a vida.

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Encanto

Se sentiu a moça mais linda do planeta. Vestiu aquela alma que ganhou de presente.
Havia flores em tudo quanto é parte. E aqueles caminhos do país que sempre quis visitar, estava lá.
Foi levada pela mão e no coração. Conheceu cada cantinho… e ela era parte da paisagem como se sempre tivesse morado ali.
A paixão visitava o jardim em delírio de flor.
Havia cartazes de felicidade em todo tempo e os corações sorriam para fora do corpo.
A canção que falava de lua refletia na palavra amor.

E ela não sabia mais onde derramar tanto encanto.

Mariana Gouveia