Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Encanto

Se sentiu a moça mais linda do planeta. Vestiu aquela alma que ganhou de presente.
Havia flores em tudo quanto é parte. E aqueles caminhos do país que sempre quis visitar, estava lá.
Foi levada pela mão e no coração. Conheceu cada cantinho… e ela era parte da paisagem como se sempre tivesse morado ali.
A paixão visitava o jardim em delírio de flor.
Havia cartazes de felicidade em todo tempo e os corações sorriam para fora do corpo.
A canção que falava de lua refletia na palavra amor.

E ela não sabia mais onde derramar tanto encanto.

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Cotidiano

O cotidiano aquece o lilás das flores. Converso com o silêncio da casa. O quadro na parede, o retrato do filho. Ria e vem-me a memória a promessa do sorvete pelo riso dado.

O cheiro de hortelã do chá da tarde invade a cozinha e no jardim, a borboleta voa entre as flores. Limita seu espaço entre uma pequena aranha que se retrai e foge da invasora.

Mergulho as mãos na maciez das horas. E na leveza do dia, eu planejo caminhos entre as ervas daninhas que atrai os insetos.

Gosto da flor que balança ao beijo, do voo rasante de um pássaro que nem consegui ver qual era. Crianças gritam na rua, entre um correr e ficar e o cachorro late.

A vida acontece diante dos meus olhos. O cotidiano aquece o lilás das flores e abro a janela enfeitada com as cortinas feitas de retalhos coloridos.

Aleluia! O sábado feito para momentos bons se esvai. O sol se põe e o dourado do dia tinge meu quintal. Entrou em casa para ser poema dela. Amanhã é outro dia no cotidiano que aquece as flores.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

Conheci uma mulher que cantava músicas de amor.

Ph: Laura Makabresku

Cabia em sua voz todas as notas do mundo. Me pediu para contar uma história. Falei de nossa história. De como eu te esperava nas manhãs de sábado vasculhando meu quintal e de como as borboletas amarelas cabiam em nosso romance e de como sua mão encostava na minha mesmo tão longe.

Ela ouviu o vento que desenhei nas tardes de solidão e quis musicar meu amor… A melodia ecoa hoje nas asas da borboleta que vagueia por aqui e às vezes, só às vezes dá de ouvir dentro do silêncio.

Mariana Gouveia

das coisas breves

Aconteceu abril no meu quintal.

Aconteceu abril no meu quintal, embora o mês já viveu por aqui 13 dias dentro das rotinas… mas hoje, abril desenhou asas na tarde amena e o aroma das folhas secas ainda esperando ser recolhidas trouxe o outono e suas nuances aqui.

Trovejou também relembrando que a estação passada ainda deixou sua marca no ar. O pé de algodão se rendeu às flores e o encanto despontou no amarelo que abraçava o verde de puro amor…

A borboleta que nasceu ontem voltou. Veio junto da delicadeza da chuva buscar abrigo no meu toque e o sentido de viver fez sentido no afago de amor. Minha mão serviu de pouso enquanto a chuva passava e logo que o sol apareceu ela voou pela liberdade conseguida. Alguns afagos ficam na alma para sempre.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

Onde foi que meu olhar achou o teu?

foi na esquina da tua rua
entre a espera e o namoro.
Tu brincavas com minha liberdade poética
e eu com meu exagero exageradamente conhecido.

os meus olhos ao cruzarem com os teus
perceberam que um sentimento envolvia
e certeza tem a ver com as palavras
que o momento por certo me dizia

você falava da paixão pelo ar,
pela música, eu, pelo rádio
 falava da paixão de falar, de histórias que  eu ia musicar…


eu nunca te toquei mas te sentia
pela brisa que a esquina me trazia
pelos olhares do olhar que mais profundo
e através do teu olhar, eu via o mundo
 

Mariana Gouveia
Ph: Tumblr

Scenarium Livros Artesanais

Prazer, estranha

Na autonomia do dia as cores parecem estranhas. Miudezas agigantam no quintal. Recebo a visita do toque. A rotina não é a mesma da espera. Ontem o tempo mudou. A imunidade caiu. A moça de azul pediu cuidados. Desenhei seu nome mil vezes. Pintei corações no muro. Dizem que é o delírio da febre. A voz não sai mesmo na tentativa da canção.
O meu silêncio dedico ao toque. Faço mímicas. Ninguém compreende os sinais de saudades. É falta em tudo que é canto. Vontade de pouso em tua mão. O chá amargo avalia o dia. A estranha sou eu.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

Depois da flor

Criou vínculos com o jardim por causa da flor. Nem era a estação predileta e nem sabia regar as plantas. Carregava dentro dela palavras que eram furacões. O vento interno derrubava verdades impostas há anos.

Depois da flor, encontrou repouso no quintal. Descobriu a metodologia das plantas, conheceu a rota migratória das aves. Decifrou enigmas nas asas das borboletas. Aprendeu a voar. Conheceu os caminhos das miudezas do chão e descobriu vestígios de se encontrar no céu.

Depois da flor, a vida dela era entre a vivência de uma manhã primaveril no seu quintal não importasse qual fosse a estação vigente e o farfalhar de efeito borboleta no seu íntimo.

Depois da flor, ela aprendeu a amar.

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

delicadeza das coisas.

Alguém me contou a história pelo avesso e vi a sorte no riso de um menino comum. O sábio tinha jeito de louco e o porta retrato trazia apenas asas quebradas. Na folhinha, a magia do dia retratava o dia em que voei. Você acreditaria se eu dissesse que esqueci a cor dos meus olhos e quase disse azul quando me perguntaram?

Deve ser isso que se chama de delicadeza das coisas. Alguém hoje enterrou seu bem mais precioso e de novo estava lá as asas… lembrei dessa mania de voo que me pertence. Para minha lógica comum, sou esse centro onde as ocas rodeiam. Isso de ser de céu é quase um alento aonde tudo é pouso.

Mariana Gouveia

Afetos

Nosso amor de livro

Eu não troco a essência
E a paciência
Dedicação de amor
É isso

Eu vou contar história
De glória
Vou escrever a nossa história de amor
Num livro

Eu vou dançar na rua
Com a lua
Vou rabiscar seu nome
Nos muros

Eu vou cantar canções ao vento
Vou viajar no pensamento

Pro futuro

Quem sabe a nossa história
Ganha um final
Vira manchete de jornal
E vídeo com um poema para rimar
O amor da gente.

Mariana Gouveia

das coisas breves

* há muito que a tua falta é somente a minha falta  iluminada pela tua

Na falta de água bebe das lembranças de outrora. Lembra do dragão que comia na palma da mão dela e da menina que descobriu as asas assim que lhe deram outro coração.
Pensou na noite passada e da ventania que veio do sudoeste.
Riu das lembranças se apagando e desejou que os espinhos do cacto seja a maior dor depois que ela se foi… Em algumas noites, o efeito é alucinógeno para quem tem sede e não tem água para beber.

Mariana Gouveia
*título retirado do poema de Rui Nunes lá no Primeiramente