das coisas breves

Onde fica o lugar onde seu coração se esconde?

Havia um tempo em que o moço da reciclagem cantava nas madrugadas serenas enquanto a lua acompanhava a roda da carrocinha.
As aves ficavam mudas diante do canto que falava de amor e as borboletas apenas faziam acontecer o ritmo enquanto beijavam as flores.

Mariana Gouveia

das coisas breves

 irrepetível música que ressoa

Um menino disse que as vitrolas cantam canções de amor… Tipo disco de vinil, fotos analógicas… Frases sem lógica… Enquanto ali, no canto do quintal, as borboletas ganham seu prazo final…

E o menino vira riso e acha que o paraíso é onde ele marca um gol… No sonho que sonhou…

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

das impressões do dia seguinte

Visitava a sala depois de olhar cada canto, aposento abandonado pela saudade… precisava aspirar ela no quintal. Olhou céu, o dia coloria as flores… dentro dela germinava asas… pariu borboleta em um idioma que não era o seu. De noite, a situação era de sonho. o céu gemia dentro dela e as estrelas agitava seu interior. Calma aparente de quem ama. Depois que amanhece, asa feita, retrato na parede e ali, todo dia, quando ainda era madrugada fazia reza para ela Ave, borboleta!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

das cartas que não enviei

Rasguei mais uma das cartas que escrevi. Eu queria muito te contar que o quintal hoje, parecia o borboletário que fomos juntas. Contei sete espécies delas aqui. As de costume e uma que atravessou o muro em seu desvio para outros quintais. O sol abriu nesse janeiro ligeiro – já reparou como os dias estão voando? – depois da chuva de ontem. A dalechampia criou suas folhas em formato de coração e eu ri da farfalla brincando de balanço. É assim que meu coração balança quando penso em seu nome. Era isso que eu queria te falar, mas rasguei a carta mais uma vez.

Mariana Gouveia

das coisas breves

é inequívoca a data da saudade

Busquei o roteiro nas pequenas coisas e quando percebi o caminho já estava traçado. De um lado, para além dos muros os cães ladram.
Por outro, para além da paredes sem reboco a vida espreita na fragilidade do dia.
Soube histórias que ninguém me contou. Apenas ouvi, quase invasiva a fala de quem chora de saudade.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

30 – meu kairós em transcendência vida e morte…

Luci,

hoje, nas primeiras horas do amanhecer, depois de raios e trovões ecoar no céu, uma lua quase – ou ainda – cheia se apresentou em sua rota quase clandestina perante aos passantes apressados em sua rotina. Acho que só eu vi. Cheguei até a murmurar: Yeppuda! – que é bonita em coreano – língua que estou aprendendo – e todos olharam para onde meu dedo apontava. Mas, logo se voltaram para o celular na mão.

Sabe, Luci, acho que estava ainda encantada com o nascimento da borboleta da couve que nasceu no meu quintal, que fui quase saltitando para o trabalho como se fosse criança e vendo nascimento em todas as coisas. Quase vi ela saindo do casulo lembrei-me da frase que encerra esse novembro sobre kairós e sua transcendência. Pensei na vida e morte das coisas e no momento certo para o qual a frase me leva.

Qual seria o momento certo para você diante da vida? Pensei em Tetê e Celestine e pensei nas asas da borboleta que ainda sangrava. Depois, Luci, pensei no nascimento das estrelas e das protoestrelas que nasceram e alguém fotografou.

Uma anciã da aldeia me disse hoje que a beleza da vida está em morrer e fiquei pensando nas vidas recentes que vi aqui, entre as vidas de gente, de bichos e de estrelas… afinal, de contas, o tempo é esse nascer constante entre vida e morte.

beijo meu,
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

26 – Alguém falava da vida, de sopro

Quando o grande amor da nossa vida e o grande
 falhanço dela foram ou são experiências
coincidentes, indestrinçaveis —- uma mesma
 e única coisa: bonito serviço —- o menos que
 pode dizer-se é da hecatombe, entre mortos
e feridos, só nós é que não havemos de escapar 
Rui Caieiro

Querida Renata,

Estava cuidando dos casulos no meu quintal e quando uma borboleta pousou em minha mão me lembrei de te escrever. Ultimamente, tem sido difícil, dentro do nosso tempo, conversarmos… te escrever, seria mais fácil, na docilidade dos dias.

Quando eu te vi – me apaixonei – com esse olhão que desnuda a alma – e atravessei tempos para tentar descobrir onde nos encontramos antes. Podia ser em outro século, em outras eras… podia ser apenas na cumplicidade da dor. Mas, antes das perdas em comum, nos abraçamos e sentimos essa ligação.

Eu conheci o tempo da ternura… do urgente urgentíssimo com você. Da mãe e mulher bravia – medrosa, ás vezes – que vê a bondade e gentileza nos outros. A que se mostra e se esconde.

Renata, eu queria te falar segurando suas mãos, ouvindo suas desculpas esfarrapadas quando erra. O olho grandão com medo da minha bronca. De você eu recebi o silêncio, igual ao farfalhar das asas da borboleta que pousa em meu dedo, como se quisesse a aprovação de que mesmo errando, fez a coisa certa… mas, eu sou daquelas que não acredita que os fins justificam os meios, e mesmo em seu jeito desastroso de olhar e querer me puxar pelas mãos, nesses dias, eu fui apenas monossilábica com você.

Você é a ternura que eu falo… a voz, que mesmo que não ecoe, entendeu minha dor. O abraço que mesmo não dado, foi caloroso. Você foi a cidade, a aldeia, o grito, o silêncio, o refúgio, o mapa que me encontrou e foi puro aconchego mesmo sem dizer nada.

Só queria dizer que a geografia não vai nos separar… eu, quando ver um filtro de barro, vou me lembrar de você e quando ouvir a palavra urgente, vou te buscar nas mensagens e na memória o urgentíssimo com seu sotaque e riso… e eu, que me comovo por tudo, vou lembrar, que em nossas dores, descobrimos que a vida é um sopro e que esse olhão reinventou a palavra amor dentro de mim.

Grata por isso!

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Divã · Scenarium Livros Artesanais

24 – Falar do que é teu, não posso

Ph: Pinterest

O quadro de Kandinsky mudou de parede, em silêncio me pergunto o motivo e como se adivinhasse a moça de branco responde que foi a pedido dela e o queixo aponta para a porta azul e ela se abre.

Falo do pássaro novo que chegou no quintal e de como suas cores combinam com o quadro da ante sala. Ela ri, diz que não trocou de quadro por minha causa. As cortinas lilases de antigamente não existem mais… a veneziana é antissocial – eu acho – penso em voz alta. Ela ri. Acho bom esse sorriso leve. Não posso falar do que é teu, não posso! Foi um combinado nosso na última vez.

Ela pergunta das metamorfoses das borboletas e se o calor atrapalha os casulos de que falei da última vez. Mais uma vez, me lembro de que alguns assuntos são proibidos hoje. Conto que achei algumas asas soltas no quintal. Pensei que elas foram vítimas de algumas das lagartixas que moram no meu lugar. É engraçado ver os olhinhos delas assustadas com os latidos de Yoshi. Ela ri… fica leve.

Eu me calo, a cortina estranha me chama até a janela. Lá embaixo, tudo tão mínimo. Pequeno… parece as miniaturas da minha estante. Mais uma vez, penso alto. Ela ri e me acompanha até a porta. Paramos em frente ao Kandinsky… não falamos de coisas combinadas antes, mas percebemos que não adiantou. Mesmo sem falar, você estava ali, no meio de nós.

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

09 – sombras dançarinas ondulavam pelas paredes

Minha menina nuvem,

eu queria tanto estar aí, mesmo que em silêncio, no cantinho dos cães para calar meu desconforto nesses dias. Acho que seria meu refúgio – daqueles que a gente tem na infância – que me acalmaria ou me deixaria nessa luxúria da solidão.

Ontem, quando cheguei, havia um casulo no batente da porta, Su! Já imaginou isso? Deixei a porta sem fechar e me enchi de coragem para atravessar a noite e vigiar para Yoshi não passar por ali. Você, talvez diria: não, Mari, tu não fez isso! E eu diria, que sim! E devo confessar, Su, que as sombras dançarinas pela manhã, marcavam a parede com as asas de quem se libertou.

Como você, eu também gosto dos detalhes e mesmo já estando acostumada ver borboletas parir em meu quintal, eu vibrei vendo a madrugada se desenhando no céu…

Sou canceriana, Su – tu sabes – mas fujo do convencional de choros, de lamentos, inerente ao signo… mas, o destino ou sei lá o que foi bateu duro e em alguns momentos é preciso suspirar e encarar o que não pode ser mudado.

Como se muda o nascer e morrer de alguém? Quem entende a natureza das coisas? Como eu acredito em tudo que é força do universo, Su, apenas acato aquilo que é natural, mesmo não sendo ao meu coração.

Antes de encerrar essa carta em que te abraço e agradeço e te mostro o quanto a vida me é generosa, a parede se desenha em asas e com ela te sopro ventos de amor e alguma nuvem dissipará qualquer sombra em teu caminhar.

Mesmo porque, Su, a vida continua nascendo em meu quintal e as nuvens também e meu pai diria: a vida continua e os nascimentos não podem parar porque o mundo pararia.

Beijo,

Mariana Gouveia
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Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

PS: Ah, esqueci de colocar a nuvem da minha noite quando chamei seu nome no quintal.

Corredores, Codinome Locura

Mas esse quase é um quase que eu adoro

Desse amor, a pele
quase cítrica – agridoce
A gota da chuva – quase sede
o trovão ecoando seu nome -quase grito

e esse nó no peito – quase morro
no seu crepúsculo – quase ardo
em sua história contada – quase vivo

sou real em tua pele – quase poro
em teu voo sou asa – quase pássaro
Do mar que te rodeia – quase rio

das ruas das tuas estradas – quase atalho
das palavras do poeta – quase roubo
o poema que te chamo – todo amor

e do abraço terno – quase encontro
da mão que oferece colo – puro pouso.

Mariana Gouveia