Divã · Scenarium Livros Artesanais

24 – Falar do que é teu, não posso

Ph: Pinterest

O quadro de Kandinsky mudou de parede, em silêncio me pergunto o motivo e como se adivinhasse a moça de branco responde que foi a pedido dela e o queixo aponta para a porta azul e ela se abre.

Falo do pássaro novo que chegou no quintal e de como suas cores combinam com o quadro da ante sala. Ela ri, diz que não trocou de quadro por minha causa. As cortinas lilases de antigamente não existem mais… a veneziana é antissocial – eu acho – penso em voz alta. Ela ri. Acho bom esse sorriso leve. Não posso falar do que é teu, não posso! Foi um combinado nosso na última vez.

Ela pergunta das metamorfoses das borboletas e se o calor atrapalha os casulos de que falei da última vez. Mais uma vez, me lembro de que alguns assuntos são proibidos hoje. Conto que achei algumas asas soltas no quintal. Pensei que elas foram vítimas de algumas das lagartixas que moram no meu lugar. É engraçado ver os olhinhos delas assustadas com os latidos de Yoshi. Ela ri… fica leve.

Eu me calo, a cortina estranha me chama até a janela. Lá embaixo, tudo tão mínimo. Pequeno… parece as miniaturas da minha estante. Mais uma vez, penso alto. Ela ri e me acompanha até a porta. Paramos em frente ao Kandinsky… não falamos de coisas combinadas antes, mas percebemos que não adiantou. Mesmo sem falar, você estava ali, no meio de nós.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

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