Corredores, Codinome Locura

Tenho fé imensa em quem acaba de nascer com asa na vida.

Não cabia na palma da mão a audácia do voo e o casulo abriu-se…
o som e a briga constante com o silêncio. A vontade absoluta de nada. Vidros partidos na reza silenciosa de agora.

Os estranhos se misturam à paisagem do dia e perdem o nome à medida que o tempo avança. Enquanto caminho, penso no cachorro perdido que nunca mais vi… Na rota da fuga, uma estrela desavisada. O moço da bicicleta perdeu-se na cidade encantada. Mandou postal da nuvem que desenhei de madrugada.

Vem a coragem lavada na calçada sem flores. A mariposa voa em volta do lume da rua de cima. Busca a própria solidão em asas. O pé de frutas socorre o faminto.

A rua ecoa meus passos. Era quase isso no ano que acabou ontem… escrevi duas cartas na memória. Nota mental de quem sufoca o grito.

Tenho fé imensa em quem acaba de nascer com asa na vida.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Escreve sempre que riscares na tua agenda mais uma morada.

É você essa poesia engasgada na garganta.
Seu nome fazendo eco nas paredes partidas.
A estação escurece dentro do calendário
e o relógio estagnado no sol de meio dia.

A mesa posta
e as xícaras esparramadas.
Tudo ficou perdido na palavra encanto.
O mar é esse azul que ninguém enxerga quando anoitece.

A solidão é essa xícara vazia
e a metamorfose diante da vida.
Serve-se a cura através de asas.

A parede dá colo para o instrumento que toca.
A música ecoa dentro de você.

Mariana Gouveia

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – instantâneo

Porque a vida é esse flash de momentos

Bambina mia,

Usei esse instante para falar com você… Isso, tu que mistura meus verbos e abraços em acolhidas, mesmo tão longe, sempre que preciso grito seu nome e vou de encontro ao abraço. Já reparou que a vida é esse instantâneo de momentos? Uma farfalha e seu bater de asas pode causar o caos no mundo… eu já ouvi teu gargalhar…

Sei que pensamos juntas em como um voo pode proporcionar isso. Pessoas causam o caos no mundo. Com suas ações e reações descabidas e posso dizer que nesse quesito é ok que tu pensa igual a mim? Nããão! Você pode achar que é uma riqueza registrar um voo, um pouso ou mesmo nem registrar, mas ficar com o voo da farfalla a preencher seu momento.

Eu já fui denunciada por fotos de sexo de animais e tu sabe disso… mas, o momento, para mim, é aquele suspirar, de ver a natureza estampada em forma e cores para mim, na forma contundente de ampliar a vida, para além dos humanos. Sabia que hoje é o dia do sexo? Li isso em algumas matérias com dicas, ideias e coisas tolas que bufei a preguiça como você faz. E lá tem de ter dia para isso?

Ops, que eu ia escrever coisas sobre mãos e dedos… mas, afinal, elas servem para o pouso e cabem na delicadeza do instante – esse mágico, em que a palavra nos liga na poesia e magia que se resume no meu quintal.

É como se a gente não acreditasse que dentro de um casulo não existisse um voo externo. E que para além da seda, das asas, bambina, o voo só existisse para além dos muros. Mas, sabe que, para além do invólucro que se abre, as asas se desenham em liberdade.

Mas, a liberdade, bambina mia, é um bem precioso e interfere no espaço do outro para quem não entende. E o instante meu pode ser diferente – e deve ser – do instante do outro e às vezes, uma missiva atinge o cuore de quem lê apenas porque entende que sempre, a intenção do voo é o pouso… e eu, pouso em teu abraço como se fosse um voo de emoções.

Grazie por existir em minha vida e nos meus instantes.
bacio,

Mariana gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6 – instantâneo
Scenarium Livros artesanais
Participam comigo:
Lunna GuedesObdulio Nuñes Ortega – Roseli Pedroso – Suzana Martins

Corredores, Codinome Locura

Tatuagem

Tatuou a vida nas costas, assim que nasceu a primeira vez – a mãe “plantou” o cordão umbilical embaixo dos pés de bananeiras. Era a magia de permanecer na essência de quem acredita em coisas surreais, de geração em geração… Assim que entendeu que o seu lugar era o mundo teceu as asas de borboletas e descobriu que podia voar…

Mariana Gouveia
Das coisas breves

Corredores, Codinome Locura

Para sempre é muito tempo para quem não tem tempo.

Para sempre é muito tempo para quem não tem tempo. No corredor, a cortina foi trocada por persianas por sugestão do vento que veio do sudoeste. A esperança trazia a sorte na mão. As asas tinham a dimensão exata da dor. Os vidros das janelas dos casarões da esquina foram quebradas além do muro. Sentiu saudades da chuva. O céu anda tão estável. A mão é esse abandono de toque. A vida, parada, sem diagnóstico e endoidava com a tarefa simples de viver.

Mariana Gouveia

Projeto Diário das quatro estações

A minha vida é um punhado de começos suspensos

Ph: Laurie Kaplowitz

[Há uma mulher que caminha sobre a areia da praia e voa com as aves marinhas entre risos] que desenha em minha pele histórias nunca vividas e que sonha atravessar o oceano a nado. É feita de vento e alada. Ocupa os espaços todos. Quebra as regras. É essa roupa feita de matizes e quase um fado dentro da melodia da canção. No avesso, é essa explosão de sentimentos. O riso entalhado na arte que a seduz. Dentro de mim, acontece. Detalhada no poema que fabrico – as mãos a tocar as asas aladas do amor – feito metamorfose do efeito leveza que as borboletas fazem. [Há uma mulher que sonha horizontes, que sonha cidades] quisesse saber dela bastava abrir os braços e tocar o vento. A pele, puro arrepio e em meu silêncio é pura fala. Quisesse conhecer a emoção, bastava pronunciar o nome e as matas e jardins aconteceriam no instante de agora. Quisesse saber de pouso e estenderia minhas mãos nas mãos das tuas asas e assim, nasceria de novo e de novo dentro do mais belo amor.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Não se prende quem tem asas

Podia surgir dentro da noite a estação das flores e as sementes colhidas no jardim. E em todos os jardins, o cravo chinês da infância, quando pela primeira vez e por causa do cravo, foi parar na delegacia. Havia arrancado a flor no jardim do moço que se chamava Abdo e a mãe passava roupas para a família dona da loja de brinquedos. O moço a falar em uma língua que não entendia – sabia apenas que estava bravo – e que queria a flor de volta. Como colocar uma flor de volta do pé onde foi arrancado? A flor seria para mostrar para a mãe que no Inverno as flores podiam brotar e fazer ela compreender que em uma estação o gesto entre duas mãos era mais oferta do que encontro. Era como se fosse urgente colher a flor, logo ali, e a mão a estender como uma prece. Falou com voz tímida sobre como a mãe iria gostar de ver a flor a brotar no quintal dela, onde borboletas voavam como se ali, a flor fosse parte do inseto e o inseto, parte da flor. Depois, as mãos, justapostas, em oração, para que a mãe não aparecesse em frente ao delegado e perdesse de vez o emprego na casa do moço que falava estranho. Alguma coisa aconteceu e a flor ficou ali, na mesa da delegacia, enquanto o moço de linguagem estranha se embrenhou noite adentro pela rua. Olho perdido no jardim. E no dia seguinte, haverá borboletas sobre a flor a mostrar a delicadeza do pouso, mesmo quando a vontade será de voar.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

No fim do dia somos só sombra na parede.

Havia feito um tutorial sobre perdas. Seguiu à risca cada etapa, mas na hora h, quando o vento lateral veio com notícias de ida sem volta, esqueceu as regras ditadas por ela mesmo.
Abriu os braços e sentiu a falta. Deixou a dor entrar pelo peito e apagou o rito do nascer.

As asas perderam o sentido de voos e ficou cinza as coisas.

Lembrou de anjo, andou pela sala orquídea e depois chorou. Longe. Para que fosse amenizada a lembrança.

E se eu não for poesia amanhã de manhã? E se a metamorfose não fizer jus ao instante. O momento tão fugaz e ligeiro. E a morte a rasgar a pele e camuflagem de vida fora da casca. Quando amanheceu no outro dia, já eram duas formas de partida.

No fim do dia somos só sombra na parede.

Mariana Gouveia

Divã

Era uma vez, um século

Contaram para mim uma história. Queriam ler a palma da minha mão. Disseram que as manhãs aconteciam em mim como um desfolhar da folhinha com o dia do santo. E que o azul do meu céu era como um carro antigo exposto na vitrine e meu quintal uma tela difusa de instantes.

Me deram as respostas e eu nem havia feito as perguntas. A arte era barroca em meio ao novo. As paredes da igreja matriz sendo mudadas e o restaurador dizia sempre o nome de quem havia doado a maior parte do dinheiro. A tinta modificada via computador e tudo tão diferente aos meus olhos.

A mulher de preto carregava um luto não previsto. Ficou comigo a espreitar o frio e a sacudir as mãos, como se tocasse uma sonata no ar. Calada, segurou minha mão como se fosse pesada a dor.

Começa a ler um diário distinto e enumera o labirinto da flor. E eu descalça, nem sabia nadar… Queriam ler a palma da minha mão… falaram sobre a estrela secundária e era pobre o destino nos dias frios, enquanto nos corredores, o vento cortava a pele.

Seria perfeito essa noite se chovesse e minha mão fosse colo para acolher a vida miúda das coisas. O amor sendo feito nos gestos. O amanhã, a vida de quem a gerou ganha ares seculares… Repito a palavra fácil em todos os instantes da vida, enquanto a veia fraca conta o cabelo que cai. Mas a mão… ah! Essa é colo para acolher a vida miúda das coisas e o amor sendo feito nos gestos.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

no espaço, a vida é ilimitada e sem cercas.

Chegou das andanças com cheiro de aventura no olhar.

Sentiu fome nas esquinas… aprendeu o medo do chão – porque amava as alturas – e se perdia no espaço de voar.

Calculou rotas e fronteiras… no espaço, a vida é ilimitada e sem cercas.

As aventuras que viveu lhe permitia acreditar na sorte de um amor tranquilo.

Um ternura íntima no pouso. O colo na terra a oferecer amparo e a aventura no olhar, depois que chegou das andanças.

Era como se palavra liberdade estivesse além do chão e a alma entendesse que a é na terra que as raízes crescem livremente.

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega