Afetos · Lunna Guedes

Havia que deixar o corpo descoberto pelas pedras.

Já contei aqui sobre minha escrita e de como alegrava meu pai me ouvir ler as histórias que eu escrevia desde a infância. Mas, o que eu gostava mesmo era de ler Manoel de Barros e me ver dentro daquele imaginário.

O livro dele me chegou sem capa e algumas folhas soltas… quando ele dizia sobre não saber nada tão imenso dentro da poesia eu me sentia pequenininha e gigante ao mesmo tempo. O grilo no quintal, o chiado das pererecas, o musgo na pedra… de tudo que ele falava, eu vivia no dia a dia.

A professora da escola rural me falava sobre a magia das letras e ao mesmo tempo dos números que eu tinha que aprender.  Mas, eu queria aprender sobre o cheiro das árvores que ele dizia. Para mim, quando escrevia sobre fabricar brinquedos com as palavras e que a mãe dele havia ficado feliz, me debrucei em sorrisos na janela a contar para minha mãe.

Fui crescendo pensando naquela frase que ecoava em mim como um mantra. Fabricar brinquedos com as palavras ganhou corpo e letras em meus cadernos e passei a descrever meus sentimentos em forma de prosa e poemas.

A biblioteca do meu lugar era pequena e os livros cabiam em caixas de frutas… a própria professora era quem distribuía o que íamos ler. A maioria chegava até nós por doações e aqueles poucos livros me enchia de alegria. Eu os devorava tão logo chegavam e relia aqueles que eu mais gostava. Aqueles livros me moldaram e vários escritores tiveram parte nisso, mas o que foi essencial em sua forma doce de me mostrar a poesia em todos os sentidos me abraçou anos depois quando o conheci. Hoje, ele é memória viva na continuidade de minha escrita e no meu quintal, onde habitam as pedras, pássaros, insetos e borboletas.

Mariana Gouveia

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