Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Eu amei as tuas calçadas.

Fotografia: Lunna Guedes

Bambina mia,

Coloquei sua música para tocar no aplicativo para falar com você. Ainda há pouco, ouvi trovões e gritei seu nome… como de costume. O barulho vindo do céu me faz lembrar você, assim como a chuva e tantas outras coisas… calçadas também.

Fico repetitiva quando falo de calçadas e de você e de como caminhar ao seu lado me fez sentir tanta ternura. A proteção que você ganhou do moço que guiava seus passos, ganhei ao seu lado.

As calçadas do meu lugar em sua maioria foram quebradas por algum órgão público ou privado para o “conserto” de alguma coisa que foi malfeita. Nenhuma novidade. Prefiro me ater ao seu caminhar com o cão, com as sombras, com algum transeunte aleatório que cruza seus passos.

Quando li sua missiva as cenas foram passando em minha frente como se fosse um filme… Lembro-me da primeira missiva que li sobre o tuo menino e ali, o destino nos uniu – ou reuniu. Conheci a gentileza dele detalhada nos menores gestos e no riso solto. E lembro-me bem das calçadas em que ele nos guiou em noites de lançamentos.

Enquanto te escrevo cantarolo com Simply Red e a memória resgata o cheiro do café, a risada cativante e a dança feliz no pequeno corredor entre o quarto e a sala. Dividi com vocês instantes únicos que ficaram em meu cuore.

Sei que as caminhadas recentes ultrapassam a presença física onde o concreto é mais abstrato que pensamos e sentimos. Não precisa de nome e nem de definição. A gente sente e pronto.

Chove bastante e a água trouxe aquele cheiro que a gente ama. Isso me leva para a varanda do seu antigo prédio, enquanto chovia em São Paulo em um ontem que me enche de saudades. Pudesse voltar no tempo, eu voltaria e daria mais um abraço, ou pediria mais uma xícara de café ou conversaria mais.

É assim que nos ligamos via esse mundo afora. Nas temperanças das poesias que você me dá, nas suas suculentas que aceitam água, no momento fofo do cão debaixo do edredom… nossas saudades se juntam de maneiras diferentes e de tonalidades variadas. É como se eu atravessasse seu quintal e você usasse um desvio para chegar ao meu. Sei cada cantinho até chegar ao escadote que ele preparou… sei das pedras que te guiam entre as samambaias.

Sei de você e ao mesmo tempo traz a incógnita da pessoa incerta e vasta… e como ainda trovoa aqui, grito seu nome e dou uma risada quando o bem-te-vi responde lá da árvore no quintal. Percebo o quanto de você existe aqui no meu lugar, nas minhas calçadas onde andei conversando com você sobre a poesia errada que alguém mandou, sobre a lua que atravessou um céu inteiro nublado e nem eu ou você vimos. Sobre como o calor te incomoda mais do que a mim e sobre como tudo que vivemos vira essa lembrança doce quando penso em você.

Grazie por isso!
Bacio
Mariana Gouveia

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