a madrugada acontece serena e limpa. Dá para ver o azul escuro para além do quadrante dos muros. Caminho pelo quintal aspirando o chá de menta na xícara. Busco entre o escuro os pirilampos tão frequentes aqui, mas não tive sorte dessa vez.
Ouço algum pássaro noturno que não reconheço pelo canto. Uma brisa leve balança as folhas do coqueiro e o chá alivia um pouco a tosse e a febre. A noite foi longa e gosto de ver a madrugada chegando lentamente… a moça do tempo ontem alertou para um calor mais abrasante do que o normal e fico desejando que essa brisa dure a manhã toda.
Sinto no ar o perfume das flores da Orai pro nóbis e é certo que quando clarear o dia ela exibirá seus cachos cheios de flores cheias de pólen para as abelhas e borboletas. Um cão ladra e molho levemente algumas plantas e isso me faz lembrar de um poema de Casemiro de Abreu:
Levantei-me de madrugada. Reguei a buganvília.
O mundo já não é o que era
Volto à cozinha para mais uma xícara de chá enquanto ouço no quarto o ressonar do moço daqui. Logo o relógio despertará para o primeiro dia dele no trabalho depois das férias e já temos cinco dias vividos de janeiro, bambina. Os dias correm um após o outro e os meses virão… a cidade acorda, o cheiro de café e pão da casa da vizinha atiça uma fome que esteve ausente esses dias.
A manhã clareia e a vida pede urgência nos afazeres… sirvo mais uma xícara de chá. Aceita?
Bacio,
Mariana Gouveia
