Colcha de Retalhos · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Colcha de Retalhos

A primeira vez que vi os olhos dela… foi através da cortina da casa de Kaori. Um vento balançou a renda lilás e o vulto surgiu através da janela basculante. Eram da cor de avelã… ingrediente mais usado nas suas receitas. Reparei que acontecia um pedido de socorro dentro deles. E senti que ao socorrê-la… me afogaria…

Mariana Gouveia
Colcha de Retalhos – Scenarium Livros Artesanais
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das coisas breves

Onde fica o lugar onde seu coração se esconde?

Havia um tempo em que o moço da reciclagem cantava nas madrugadas serenas enquanto a lua acompanhava a roda da carrocinha.
As aves ficavam mudas diante do canto que falava de amor e as borboletas apenas faziam acontecer o ritmo enquanto beijavam as flores.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Dos meninos

O menino da rua de cima quis conhecer a ave de todo dia.
Falou do passarinho como se fala de Deus. Nos olhos dele havia a fé.
Não pude falar do dia triste de ontem, nem da incerteza de hoje… Fiquei ali, a beber a fé no olho do menino que nas tardes serenas empina pipa na minha rua. Já o espiei várias vezes pelo canto do muro, em algumas tardes… O olho fixado no céu, a mão a dominar a linha contra o vento… Ele nem sabe disso, mas foi ali que descobri que Deus brinca de passarinho no meu quintal.

Mariana Gouveia

das coisas breves

 irrepetível música que ressoa

Um menino disse que as vitrolas cantam canções de amor… Tipo disco de vinil, fotos analógicas… Frases sem lógica… Enquanto ali, no canto do quintal, as borboletas ganham seu prazo final…

E o menino vira riso e acha que o paraíso é onde ele marca um gol… No sonho que sonhou…

Mariana Gouveia

das coisas breves · Das palavras das cartas

Meus dedos verdes…

Luci,

eu era essa pessoa do dedo verde, mas tive alguém muito melhor que eu nesse quesito de plantar e tudo brotar… O meu irmão que voou há um mês e meio. Ele era tão quieto, mas tão quieto que o silencio fazia mais barulho que ele e ao mesmo tempo tão barulhento que o vento ecoava sopros por ele.

Enquanto a gente falava de partida definitiva, ele falava de vida, de flores, de brotas, de rebento – fosse de capim, de flores, de samambaias ou de gente – rebento é rebento – ele dizia. É vida!

Ele parecia um duende, um dos smurfs – só não era azul – era colorido. Ele não nasceu pra semente, porque era semente, Luci. A magia dele parecia que surgia da brisa, que se elevava em vento e de repente, ele era temporal… daqueles temporais que você queria estar dentro, Luci e em alguns momentos era chuva miúda… tipo garoa, que traz calma e você se aconchega na janela e pensa em uma xícara de chocolate ou chá.

Luci, já contei que ele era meu guardião? Um guardião que tinha medo de bruxa, da minha bá, de palavras que podiam ter diferentes significados, mas ele era tão valente, que enfrentou a morte… porque ele tinha o dedo verde para tudo que é coisa.

sabe o Midas, Luci que tudo que tocava virava ouro? Pois bem, meu Manoel em tudo que tocava ficava verde. A samambaia, as flores simples do quintal, a lantana e o pé de jurubeba… esse, floriu tanto no dia que ele morreu, que fiz conserva e tudo.

O meu irmão, Luci, era igual seu avô. Bobinho em situações inusitadas e muito sábio em outras. Das sementes dele que ficaram tem a Ju e o Felipe. Uma lindeza de família, de cães e uma amada que rega cada planta do quintal que ele limpava as ervas daninhas.

Hoje, meus dedos verdes, que se esbarram na flor que nasceu da semente que ele me deu tem a delicadeza do amor e do encanto. Essas vidinhas simples que me trazem ele todos os dias, nas mudas das flores que ele plantou no quintal da casa dele.

Talvez a mágica estivesse na vida dele, Luci, que é vida e para além de todas as ervas daninhas que o levaram, ainda deixou sementes aqui que vão brotar sempre, e mantê-lo vivo.

Grata por isso!
Beijo meu,

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

O amor, é esse estágio branco escondido nas asas

Era oblíqua a lua, em seu estado vagaroso, seu olhar transversal em um céu nublado, sem nuvens, e atravessa a janela lateral da rua de cima. O búzio que me traz o sol na escuridão da noite. O vulto que vagueia nas sombras desenhadas pelas mãos. A previsão dentro das rotinas de vento e o intempestivo jeito de amar dos bichos. A gente fala das palavras de solidão e a canção busca na memória o revival dos contos lindos da infância. As coisas miúdas estampadas na parede… O segredo, um ovo feito no estuque para guardar bilhetes.
A ladainha da velha da esquina a repetir o mantra. Quase era tudo, um nada no telhado e a ave gigante lembrava uma história que alguém contou e eu não vivi. A saudade ladeira abaixo empunhando os gritos. Os caminhos que levam para outros cômodos. A porta dava para além dos quintais e muros que, logo ali, davam de encontro ao riacho. A vida é esse ciclo de memórias e vivências. O amor, é esse estágio branco escondido nas asas atrás da porta e que bebe água do rio, que sempre deságua no mar.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

das impressões do dia seguinte

Visitava a sala depois de olhar cada canto, aposento abandonado pela saudade… precisava aspirar ela no quintal. Olhou céu, o dia coloria as flores… dentro dela germinava asas… pariu borboleta em um idioma que não era o seu. De noite, a situação era de sonho. o céu gemia dentro dela e as estrelas agitava seu interior. Calma aparente de quem ama. Depois que amanhece, asa feita, retrato na parede e ali, todo dia, quando ainda era madrugada fazia reza para ela Ave, borboleta!

Mariana Gouveia

das coisas breves

fechei a palavra chave que havia aberto o mural do jardim através do silêncio.

Ph; Tumblr

Entre as nuvens e as estrelas… Clareia a pele com o efeito da dor. Os cabelos ralos, diante do espelho cria ondas em reflexos onde não me reconheço. Sou como a mulher da noite – que vagueia – de janela em janela, o riso molhado na loucura exposta – e a pele – a declamar ausência. Na penumbra a ecoar o silêncio que só as flores lilases conhecem.
Alguém disse um dia que a loucura é lilás e desbota na lucidez da dor.
As mãos a desenhar presença nas sombras da parede – monstros – que me atacam e acionam a alavanca do medo. O último pássaro a ecoar dentro da noite e o universo parecia definir cantata para a solidão. E ainda tenho a caneta lilás com a qual desenho as flores e a língua muda que não consigo traduzir enquanto fechei a palavra chave que havia aberto o mural do jardim através do silêncio. 

Mariana Gouveia

das coisas breves

Todo dia é um instante de loucura dentro da lucidez.

Ph; Pinterest

Mudou a rotina dos dias… abraçou a menina que pedia colo na madrugada. Alguém perdeu a alegria logo ali, entre a esquina de baixo e a caixa d’água. A estrela gigante se ampliou no riso dela e o afago apenas foi automático. Cantou as canções que lembrava da infância. Simulou esperança nas folhas e captou a ternura no olho de amor. As coisas miúdas criam fases de encantamentos. Buscou histórias infinitas vividas nos dias. Desenhou nas mãos a minuta do sonho. Às vezes, a vida tem coisas estranhas que escapam do normal
Todo dia é um instante de loucura dentro da lucidez.

Mariana Gouveia

Das rotinas

dos tempos das sementes

A semente era preparada meses antes do começo das chuvas… o cheiro ainda permanece nas lembranças… O café coado enquanto se prepara o arroz para plantar, o rádio ligado no programa favorito, a marcação do primeiro lote… tudo gerava a gestação do que nasceria tempos depois… Elas eram escolhidas a dedo pelo pai, que sabia exatamente qual lote seria usado no ano seguinte e assim por diante. O campo do capim dourado a aguardar as novas sementes e o capim colonião que logo iria virar pasto para o gado durante o período de seca e cama para os insetos que inevitavelmente viriam para ali. A grama verde a escoar gotas e abrir caminho durante a madrugada – que era a hora exata de sair para o campo para a plantação – e logo depois e depois os brotinhos iriam começar a aparecer e dali, do alto do morro, ver a natureza cumprindo seu destino de vida.

Mariana Gouveia