Por Mariana Gouveia
Minha Clarice,
Ler as suas palavras me fez viver dentro do seu afeto. Como podemos nos dizer vivas nessa redoma doida que nos atinge em cheio? Onde anda minha segurança perante os meus defeitos?
Como a mulher que escreve diferencia da mulher que tem irmã, sentimentos-pensamentos não tão comuns dos normais.
Eu acho os escritores anormais.
Eles vasculham almas além das deles, expõe vontades escondidas no oco do silêncio e no fundo manipula nossas vontades. Por isso, a frase que me escreveu me tocou tanto: Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro…
Você tem noção, irmãzinha, de que essa frase será descrita/escrita/falada/contada/cantada milhões de vezes num futuro que não sabemos?
E como saber qual é o defeito que me atinge? E qual molda minha alma chamada tão sua? E do quão estranho é essa relação comigo mesma? E que tenho uma irmã escritora que me absorve sempre?
Os conselhos me fazem rir… será que você mesma os segue? Sei da intenção por trás das tuas palavras e meu coração se aquece com o seu cuidado. Somos parecidas e isso me compadece na alma.
O desassossego que me invade, deve ser irritante para você e sei que grande parte do escrito cabe tão bem em você, quanto em mim. O fato é que, em você, elas explodem em sentimentos e, talvez, por isso, seja menos avassalador quanto em mim. Em mim, eles explodem! Causam confusões e perco-me de mim diversas vezes.
Fico pensando em como quatro anos te mudou tanto e de como isso poderia ser revertido. Há coisas que nos mudam para sempre. Dizem que o caminho nunca é o mesmo quando passamos por ele… ou seria o rio?…
Tudo muda com o tempo e sabemos que tanto eu quanto você já não seremos mais as mesmas, não importa se rio ou caminho. Eu a vejo corajosa e bebo dessa fonte para enfrentar os meus medos.
A resignação só combina com você
até certo ponto.
Tenho certeza de que dará voltas e será sempre a irmã de que me lembro e admiro. A mulher que tem o poder de dominar o nó vital sem se esgueirar nas estranhezas do outro.
Quando você se refere ao respeito a mim, me faz refletir sobre quando isso deixou de ser importante para mim. A gente rasteja mais do que devia aos outros e quando nos damos conta, viramos uns marionetes…
Mas vou buscar a perfeição
dentro de suas palavras.
Viver para saber a diferença do céu e inferno. Como saberemos, Clarice? Onde é o fim de um e o começo do outro? Vou tentar ser eu e basear meus atos nos seus escritos.
A vida é um sopro para além da alma e sinto que a minha passa com o drama da poesia e a graça da comédia. Deveria dizer-te que sim, que tudo será como diz e que quando retornar a vida seguirá igual ao que era antes… Mas, diga-me se antes você não pensava no agora, como está? As mudanças causam-me medo, de sobremaneira que tento ser igual todo dia. Não é covardia, como dizem os outros… É apenas preguiça do sentimento que esfria as rotinas e as tornam banais. Também gostaria de assisti-la sem que soubesse. Seria minha irmã digna de raiva por algum motivo? Esse pensamento me arranca sorrisos quando a imagino fora de si, por algum motivo, ou a própria personagem que escreve. Mas sei que ainda assim, você seria a minha irmã de sempre e que eu admiro e a personagem, cópia que vez ou outra eu seguiria.
Era para ter te escrito e falar das coisas neutras, e esquecer um pouco a sinceridade que o momento exige, mesmo sabendo que podemos e vamos fazê-lo… falar do sol que amarela as paredes da casa ao lado até quase o fim do dia. Falar do vestido de flores delicadas que comprei e dizem – combina comigo – para me arrepender logo depois e nunca mais usá-lo… Do weekend que se encerra com ares de outono, com as folhas das árvores da rua caindo, espalhando um farfalhar que parece canção rua afora.
O que me resta é desejar-te aqui para o abraço demorado, o riso cúmplice e a alegria compartilhada para quando nos reencontrarmos.
Abraço com saudades,
Sua irmã
Carta publicada no Coletivo Scenarium 8 A Terceira Noite
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