Das palavras das cartas · Meus Livros · Scenarium 8 · Scenarium Livros Artesanais

Uma carta…

Por Mariana Gouveia

Ph: Pinterest

Minha Clarice,


Ler as suas palavras me fez viver dentro do seu afeto. Como podemos nos dizer vivas nessa redoma doida que nos atinge em cheio? Onde anda minha segurança perante os meus defeitos?

Como a mulher que escreve diferencia da mulher que tem irmã, sentimentos-pensamentos não tão comuns dos normais.

Eu acho os escritores anormais.

Eles vasculham almas além das deles, expõe vontades escondidas no oco do silêncio e no fundo manipula nossas vontades. Por isso, a frase que me escreveu me tocou tanto: Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro…

Você tem noção, irmãzinha, de que essa frase será descrita/escrita/falada/contada/cantada milhões de vezes num futuro que não sabemos?

E como saber qual é o defeito que me atinge? E qual molda minha alma chamada tão sua? E do quão estranho é essa relação comigo mesma? E que tenho uma irmã escritora que me absorve sempre?

Os conselhos me fazem rir… será que você mesma os segue? Sei da intenção por trás das tuas palavras e meu coração se aquece com o seu cuidado. Somos parecidas e isso me compadece na alma.

O desassossego que me invade, deve ser irritante para você e sei que grande parte do escrito cabe tão bem em você, quanto em mim. O fato é que, em você, elas explodem em sentimentos e, talvez, por isso, seja menos avassalador quanto em mim. Em mim, eles explodem! Causam confusões e perco-me de mim diversas vezes.

Fico pensando em como quatro anos te mudou tanto e de como isso poderia ser revertido. Há coisas que nos mudam para sempre. Dizem que o caminho nunca é o mesmo quando passamos por ele… ou seria o rio?…

Tudo muda com o tempo e sabemos que tanto eu quanto você já não seremos mais as mesmas, não importa se rio ou caminho. Eu a vejo corajosa e bebo dessa fonte para enfrentar os meus medos.

A resignação só combina com você
até certo ponto.

Tenho certeza de que dará voltas e será sempre a irmã de que me lembro e admiro. A mulher que tem o poder de dominar o nó vital sem se esgueirar nas estranhezas do outro.

Quando você se refere ao respeito a mim, me faz refletir sobre quando isso deixou de ser importante para mim. A gente rasteja mais do que devia aos outros e quando nos damos conta, viramos uns marionetes…

Mas vou buscar a perfeição
dentro de suas palavras.

Viver para saber a diferença do céu e inferno. Como saberemos, Clarice? Onde é o fim de um e o começo do outro? Vou tentar ser eu e basear meus atos nos seus escritos.

A vida é um sopro para além da alma e sinto que a minha passa com o drama da poesia e a graça da comédia. Deveria dizer-te que sim, que tudo será como diz e que quando retornar a vida seguirá igual ao que era antes… Mas, diga-me se antes você não pensava no agora, como está? As mudanças causam-me medo, de sobremaneira que tento ser igual todo dia. Não é covardia, como dizem os outros… É apenas preguiça do sentimento que esfria as rotinas e as tornam banais. Também gostaria de assisti-la sem que soubesse. Seria minha irmã digna de raiva por algum motivo? Esse pensamento me arranca sorrisos quando a imagino fora de si, por algum motivo, ou a própria personagem que escreve. Mas sei que ainda assim, você seria a minha irmã de sempre e que eu admiro e a personagem, cópia que vez ou outra eu seguiria.

Era para ter te escrito e falar das coisas neutras, e esquecer um pouco a sinceridade que o momento exige, mesmo sabendo que podemos e vamos fazê-lo… falar do sol que amarela as paredes da casa ao lado até quase o fim do dia. Falar do vestido de flores delicadas que comprei e dizem – combina comigo – para me arrepender logo depois e nunca mais usá-lo… Do weekend que se encerra com ares de outono, com as folhas das árvores da rua caindo, espalhando um farfalhar que parece canção rua afora.

O que me resta é desejar-te aqui para o abraço demorado, o riso cúmplice e a alegria compartilhada para quando nos reencontrarmos.

Abraço com saudades,
Sua irmã

Carta publicada no Coletivo Scenarium 8 A Terceira Noite
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

Era assim a vida na docilidade das coisas.

Havia jeito de asa para o lado do Sul
a maré previu a fase da lua
e a maresia invadiu meu quintal
eu era só teu olho diante da janela
a tarde tinha a brisa
tinha gesto
Guardei o meu amor em palavras
escrevi seu endereço no voo do pássaro
e seu nome foi jogado no céu antes que as estrelas acordassem.
Havia gestos de flores no quintal. O cão latia para o riso das crianças.
Era assim a vida na docilidade das coisas.

Mariana Gouveia.

das coisas breves

dos dias em que o cão de alguém se vai

fico me perguntando se o céu dos cachorros tem sol – às vezes.

Pensou na trovoada de ontem. Fez a oração para o cão que partiu. A menina da esquina passará a ver com os olhos do coração. No horóscopo do dia o imprevisto pode mudar a rotina. Janeiro ecoa nos calendários das mesas. O silêncio hoje é opção de escolha. Logo ali, mora dentro do sol a esperança.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Carta ao Futuro

Ph: Pinterest

Querido Futuro,

Te escrever é como rabiscar a parede para deixar algo registrado. Lembra que já fiz isso? Hoje, faz parte do passado — ou seria das minhas lembranças? Escrevi para você atrás da porta da azul do meu quarto. Grande parte das palavras direcionadas a você se cumpriram.
Se bem que acho que não foi arte sua… Ouvindo Leon nessa tarde atípica, sem o calor dos dias quentes que quase queimaram a pele, quero estar com você nos próximos dias-meses-anos, outros tempos. Quero ver o ipê se desfolhar por inteiro no meu quintal. Ele ainda é uma árvore-bebê. Apesar de ter dourado os dias, quero vê-lo derramando a suavidade das pétalas sob os meus pés.

Quero ver o pé de jabuticaba dando frutos para que eu possa colher risos nas bocas das crianças da minha vida e quero você ali, a espreitar os muros, fazendo florescer esse desejo através do tempo.

E quando a palavra saudade abocanhar meu coração, quero sentir a nostalgia desse momento.

A música que toca será outra? Ou ainda será a voz da mesma artista a ecoar por aqui. Encantos mudam, você sabe. E para além das coisas que ainda nem sei se vou viver… haverá despedidas daqueles que amo e dos que não amo tanto. Saberei compreender que faz parte da vida… da rota que seguimos, sem sabermos a direção.

Você, que está no tempo que ainda virá, deve e divertir com as minhas insanidades. Ouço sua voz jovial me chamando de boba, sabendo que errei tudo. Quem sabe, não serei eu que terei partido, sendo apenas poema nessa dimensão de estrelas.

Sei que você e o Presente nunca se reunirão… é quase o enigma que minha mãe dizia: o que é sem nunca ter sido? E os irmãos em uníssono diziam: futuroooo!

Tudo é um eterno ciclo: o que é hoje, amanhã não mais será. E quando chegar o amanhã, passará a ser hoje. Você é complexo, menino!

Não fosse tempos de incógnitas, diria que vou te esperar para uma conversa ao pé de ouvido, com uma xícara de chá ou um copo de cerveja. Algumas conversas devem ser movidas por qualquer coisa de êxtase. E quando isso acontecer, acho que terei outras cartas guardadas nos meus cadernos tendo você como destinatário.

Até lá!
Mariana Gouveia
Carta publicada no livro Feliz Ano Velho
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · infinitamente

Carta para falar de saudades

Eudes,

vim te trazer flores e falar de saudades. Antes mesmo de levantar refiz os rituais que eu fazia nesse dia, antes de ir ao seu encontro. Ouvi mis uma vez Kiss The Rain e outras canções que você gostava.

Na minha imaginação, eu fui até seu encontro e te falei da saudade que você deixou aqui. Já conversei com você infinitas vezes durante o dia e resolvi te escrever mais uma vez como nos outros anos no seu aniversário.

No fim da tarde choveu lá pelos lados de onde você morava. Lembrei-me das chuvas que tomamos juntas e do quanto rimos com as tintas do cabelo escorrendo. Já te contei que nunca mais consegui atravessar a ponte? Sempre invento uma desculpa quando por algum motivo me chamam para ir até sua cidade.

Sei que um dia isso irá acontecer, mas por enquanto, dentro desses três anos de sua partida, acredito ainda na leveza de nossa amizade e do nosso carinho. O amor ultrapassa esses limites que nós humanos traçamos e ainda reverbera sua voz aqui: o amor é essa forma de você vir me ver todos os sábados – você dizia… para mim, era apenas as delícias dos momentos que vivemos juntas.

Não sei se aí onde está se comemora aniversários, mas para mim, esse será sempre seu dia e como você sempre me cobrava o presente, te trago a flor do nira que desabrochou aqui e perfuma meu quintal.

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia

Desvios para atravessar os quintais · Scenarium Livros Artesanais

O tempo de ser das coisas.

Acontecia o dia na hora das coisas e havia o tempo de o jardim mudar a cor. Os lírios criaram delírios no quintal. A manhã atmosfera de espera, enquanto do céu chovia uma garoa fina. O vento derrubava as folhas secas a pedido da estação. A palavra espera ganhou conforto no abraço. A solidão é esse estado desajeitado de ser dois.

da geografia das coisas
Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Livros Artesanais
Ph: Marta Bevacqua

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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

das cartas que não enviei

Rasguei mais uma das cartas que escrevi. Eu queria muito te contar que o quintal hoje, parecia o borboletário que fomos juntas. Contei sete espécies delas aqui. As de costume e uma que atravessou o muro em seu desvio para outros quintais. O sol abriu nesse janeiro ligeiro – já reparou como os dias estão voando? – depois da chuva de ontem. A dalechampia criou suas folhas em formato de coração e eu ri da farfalla brincando de balanço. É assim que meu coração balança quando penso em seu nome. Era isso que eu queria te falar, mas rasguei a carta mais uma vez.

Mariana Gouveia

das coisas breves

é inequívoca a data da saudade

Busquei o roteiro nas pequenas coisas e quando percebi o caminho já estava traçado. De um lado, para além dos muros os cães ladram.
Por outro, para além da paredes sem reboco a vida espreita na fragilidade do dia.
Soube histórias que ninguém me contou. Apenas ouvi, quase invasiva a fala de quem chora de saudade.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Migratória

Não consegui desfazer nada daquelas lembranças, onde a madrugada era o pano de fundo para as loucuras de amor. Do outro lado, as lembranças desfiadas uma a uma como contas jogadas ao mar. Virei marítima dela. O mar esvaziando pela boca. Os poros abertos em ondas e a verdade ecoando no eu te amo. O céu, azulando em asa de voo, dentro da solidão. A lua, atrevida com desafio as marés – é primavera aqui no meu quintal – e o outono desfolha a tua árvore de ave. Fui migratória dentro de suas palavras e invadi seu estado de pensar. Do mar, na boca eu bebo a lucidez de uma estação junto do peito.
É tempo de lavar as memórias no meu rio enquanto o homem da esquina invade o mar do meu quintal. O jardim canta a sinfonia das conchas e dos búzios que leem minha sorte aqui… isso me leva para junto dela. Tenho a sensação de que o mar é esse estado de primavera onde eu sou mais de lá do que daqui. A vida é esse estado de graça diante do desejo das coisas que não aconteceram. Quem sabe, na estação seguinte…naquele instante fico coberta de flor e começo a fundir-me com a alma dela

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

De volta ao aconchego

Costurava a certeza das coisas dentro da memória. O cheiro invadindo o espaço e a natureza com seus mistérios exalando lembranças da infância. Era como se uma janela se abrisse e fosse me mostrando cada espaço dos anos vividos. O cão a farejar no mato o bicho estranho. O banho no rio quase passa dentro do quintal. O riso manso a festejar estripulias e a certeza de que os momentos ficam para sempre, como se uma gavetinha ficasse ali, os guardando para quando a saudade bater – ou a viagem me trazer de volta ao aconchego da alma – a gente abrisse e dela saíssem esses momentos que me fez forte até aqui.

Mariana Gouveia