Não consegui desfazer nada daquelas lembranças, onde a madrugada era o pano de fundo para as loucuras de amor. Do outro lado, as lembranças desfiadas uma a uma como contas jogadas ao mar. Virei marítima dela. O mar esvaziando pela boca. Os poros abertos em ondas e a verdade ecoando no eu te amo. O céu, azulando em asa de voo, dentro da solidão. A lua, atrevida com desafio as marés – é primavera aqui no meu quintal – e o outono desfolha a tua árvore de ave. Fui migratória dentro de suas palavras e invadi seu estado de pensar. Do mar, na boca eu bebo a lucidez de uma estação junto do peito.
É tempo de lavar as memórias no meu rio enquanto o homem da esquina invade o mar do meu quintal. O jardim canta a sinfonia das conchas e dos búzios que leem minha sorte aqui… isso me leva para junto dela. Tenho a sensação de que o mar é esse estado de primavera onde eu sou mais de lá do que daqui. A vida é esse estado de graça diante do desejo das coisas que não aconteceram. Quem sabe, na estação seguinte…naquele instante fico coberta de flor e começo a fundir-me com a alma dela
Mariana Gouveia

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