Corredores, Codinome Locura

Hoje

[Os gritos vem de janelas fechadas]
Há alguns pássaros que não voam…
um, se isola na diferença da cor. Então, o pai fala do respeito ao que é diferente – como se eu fosse criança – fala da história da menina muda que nunca canta mas que tem a música nos olhos.
Por enquanto, para mim ela é só silêncio.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

É preciso esperar a próxima lua

Seu nome derrete em minha boca
e o pássaro chega arrastando a tarde.
A vida, é lá fora – alguém dizia – a vida é.
Rasguei todas as lembranças de outrora. Pintei o muro da cor azul.
Havia tanto céu no seu mar que quase naveguei.
A esperança mora em dias vazios e longos.
A asa atravessa o vento e a mesa das rotinas trazem o horóscopo de ontem.
É preciso esperar a próxima lua.
É justamente nessa fase lunar que as marés favorecem o amor.
Tivesse eu asas, hoje, voaria.

Mariana Gouveia 

Alice - Uma Voz nas Pedras · Das palavras das cartas · Lua de Papel · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Viagem literária

Para Mariana
Eu gosto de dizer que construo para olhares alheios, no caso, o seu – habitar! Gosto de pensar que. de palavra em palavra, eu vou me desfazendo de mim para que uma vez, em estado de abandono, você me encontre! E me leve com você…
Eu poderia lhe dizer: “divirta-se”, mas prefiro dizer: “embriague-se”, porque combina com café… essa realidade tão minha.

Lunna

Bambina mia,

Como se tornou rotina, uso o 6 on 6 para te escrever e como hoje você nos convidou para uma viagem literária, nada mais bonito do que embarcar com você nessa locomotiva que é a sua escrita. A dedicatória acima, que abre o post, já está borrada, amarelada pelo tempo, sinal de uma chuva que tomei e o Lua de Papel em mãos sofreu o dano.

Lua de Papel me arrebatou – você sabe e me vi tantas vezes em Alexandra – e já disse isso em uma outra missiva ou texto. Não me lembro bem agora. Teve momentos que eu quis sacudir Alexandra e tirá-la do lugar comum…Também já tive momentos em que quis pegar Raissa e acolhê-la em um abraço. Mas foi isso que você fez com seus leitores. Nos abraçou nos três livros Lua de Papel em uma história emocionante e instigante.

Já Vermelho por Dentro, foi como um pulsar do cuore entre um trovão e outro. Viajei literalmente pelas ruas de Paris e entrei de vez dentro do casarão e o vermelho que já me habitava intensificou alma adentro. Quem mais conseguiria me levar tão fundo em uma cor tão minha? Anne me levou pelo cenário da fotografia e também veio a vontade do abraço em alguns momentos. A sensação de estar ali, entre os personagens me fez sentir em uma viagem em 3d.

Sabe, bambina, Alice reverbera em minhas memórias tantas. Nas leituras compartilhadas com as meninas que acolho e que passam/passaram por coisas que Alice viveu. Alice é um soco no estômago. Um alerta vivo do tempo que vivemos. Conheço tantas Alices e sou grata porque seu livro me ajudou tanto, em tantos momentos. Já abracei tantas Alices e ao fazer isso, senti que abracei a personagem principal de sua história.

Para mim, o presente é para sempre

Septum é um presente e só dele caberiam tantas fotos. Mais do que o projeto comporta, já que só posso postar seis fotos e com meu protesto, viu? Gosto das histórias que entrelaçam nas minhas. Acompanho sempre o guarda da estação. Fui sua companheira em alguns momentos do livro. Ri na parte em que se sentiu uma personagem francesa. Guardei suas memórias como semente e dentro de todas as estações te abraço.

entre aspas


E por falar em Diário das Quatro Estações eu suspirei muito durante a leitura de Aos Sábados… segui sua receita – sem medida – como de costume, para o melhor lugar onde te acolho sempre: o mio cuore. É nele, que guardei as folhas pra dar-te. Não diria que dentre os seus livros seja meu preferido. É aquele que embalo, como se pudesse com isso fazer parte da sua história passada.

fecha aspas

E chego a última foto, bambina mia, ainda em voltas com os diários. Reticências foi o primeiro, mas foi o último seu que li. Foi a leitura que me levou pela mão, como se eu já soubesse de tudo que estava escrito, de tanto ouvir falar. Tenho as duas versões, o que me dá o privilégio de saborear as duas formas da sua escrita. Mas deixo aqui registrado nessa viagem que ficaram alguns de fora: Catarina voltou a escrever e Meus Naufrágios, além do “não livro” Profissão: escritora, que devia ser lido por todos que escrevem.

Embarquei com você nessa viagem ouvindo Leon, com uma xícara fumegante de café. Te levo comigo sempre. É quando me embriago, como foi dito na primeira dedicatória feita para mim. Dentro de sua realidade e personagens.

Grazie Mille!
Amo tu, tu, tu imenso.
Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes –Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega
Roseli Pedroso – Silvana

das coisas breves

Pediu que eu decifrasse a flor.

Pediu que eu decifrasse a flor.

Pediu que eu decifrasse a flor.
– passiflora – eu falei
e detalhei as cores na leveza do dia.

Não enxergo o movimento das cores…
– ela disse –
Enxerga com a alma as tonalidades da paixão de viver.

Eu peguei as mãos dela e desenhei estrelas.
Guiei-a nas linhas finas lilases, que como tentáculos, saem em círculos em volta da flor e a brancura esconde o perfume que suavemente exala.
Eu, dou riso aqui, pela simplicidade dela entender a paleta que desenho.
Ela, ri lá… por captar a essência que a paixão causa na alma

Mariana Gouveia

das coisas breves · Das palavras das cartas · infinitamente

Dos dias breves

Eudes,

A manhã estava vazia de pássaros e o céu apareceu lindo como no dia em que você partiu. Quantos anos fazem hoje?
Às vezes, parece uma eternidade que não te tenho aqui… Às vezes, parece que foi ontem.
Ainda me lembro de sua gargalhada ganhando as ruas ou seu silêncio dentro das minhas falas.
Penso que em algum momento, você usa a linguagem do céu para conversar comigo e nesse instante, tenho todas as respostas que você deixou sem responder.

Te amo muito, até além.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

dos rituais da lua

Olhava com adoração o céu. Vênus namorava a Lua indo lentamente a Oeste. Respirava dentro dos desejos todos. Declamou mil poemas de amor. Era o astral interferindo no crepúsculo. Descalça, pisou a grama, a terra. Rodopiou dizendo as palavras de fé. Sabia que a magia ia acontecer ao toque. Lembrou-se de cada ensinamento. Aprendeu a conhecer o destino olhando as mãos. Enquanto o muro permitiu ficou ali, apenas repetindo o mantra do agradecer.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Dos rituais do orvalho

Havia acostumado molhar os pés com o orvalho das plantas… capim rasteiro que grudava na pele… relva que curava qualquer dor.
Quando podia, bebia na própria flor… Tinha essa mania de seiva.
Alguns diziam que era para se impregnar de perfume…
Apenas ela sabia que era para se manter viva.

Mariana Gouveia

Das rotinas · Divã

A primeira vez em que o amarelo gerou a noite

O amarelo desbota na tarde quente. A árvore antecipa seu dourado antes do tempo. Cabia dimensões de estrelas na palma da mão. Ela quer falar sobre asas. Repete perguntas do ano passado. Distrai-se olhando pela janela. Eu falo do tempo lá fora.

Reconto as mesmas historias e ela acha graça – não se lembra do que contei – da borboleta e das rotas delas no meu quintal. O crepúsculo é logo ali e me perco no silêncio…

Aprendi a desenhar as fugas e respiro diante da tarde que se vai.
O relógio antecipa a partida e o vento carrega o amarelo para a noite.

Quem sabe, eu volte amanhã.

Mariana Gouveia

Das rotinas

dos rituais da memória

O guarda chuvas não continha o equilíbrio do vento, quebrou na esquina de cima, antes mesmo que a chuva passasse.
A água escorria do céu feito afagos.
A solidão é mesmo feita de horas vazias.

Uma mulher me contou uma história do pai – vi a emoção dentro dos olhos dela –
O pai, sempre deixava para ela e os irmãos, um pouco da comida da marmita. Dava uma colher para cada, só porque eles gostavam.
O olho do pai brilhava vendo a comida ser compartilhada entre os filhos.
Dentro dos olhos dela o céu brilhava de azul e chovia.
A voz embargou na lembrança.
Tão perto, ali, a revelar memórias. Tão longe, ali, a viver dentro delas.

Não foi preciso abraçá-la… o gesto continha o abraço.

Mariana Gouveia
dos Rituais da memória

Das rotinas

Dos rituais da vida

A sorte morreu na esquina, duas quadras abaixo da morada final.
Alguém recebeu um buquê de flores. Ria ilusão nas escolhas feitas.
Espalhou fragrância por onde passou.
Dizia que ritual não precisa de ritos.
Buscou fiador para vender verdades.
Deixou guardada nos classificados a sorte vivida.
Todo colo é sabor de espera.

Mariana Gouveia
dos Rituais da vida