Retomei a pouco tempo minhas andanças pelo bairro e faço isso em grande parte no fim do dia. Pego a guia – que Yoshi já antecipa para colocar a coleirinha – e seguimos para a rua de cima. Em alguns dias vamos pela manhã, o que me agrada mais ver o bairro acordando e o cheiro de café exalando das casas. O pão exala a fragrância em algumas casas, ou um bolo, ora de laranja, ora de fubá. Consigo sentir o cheiro do leite sendo fervido. Isso me leva para a infância.
Também gosto dos dias de chuvas e ver as gotas se transformando em diamantes nas flores, mas não posso negar a predominância do sol no meu lugar. O bairro tem a singeleza de todo mundo se conhecer e em minha caminhada quase sempre paro para uma conversa com as senhorinhas do projeto de leitura de anos atrás. Algumas pedem para retomar enquanto justifico a correria do dia a dia para adiar mais um tempo.
D. Albina sempre troca comigo as ervas e mudas de plantas. Temos uma paixão que nos liga de alguma forma pelo por do sol nos dias comuns. Sempre fotografamos juntas o sol se escondendo céu afora. Falamos do tempo, do crochê que ensinei a ela e nos despedimos no portão. São só alguns minutos, mas sei que faz grande diferença no dia dela e confesso que no meu também.
Nas ruas de meu bairro perdi pessoas e ganhei pessoinhas, vi pessoas irem e chegarem e vi um oceano de possibilidades sem ter um mar, guiados apenas por um rio logo abaixo das ruas tirar vidas, mas dar vidas também. Gerar sonhos e vitórias. Os barcos que levam os ribeirinhos ganham forças de navios na força bruta das mulheres que vencem e vivem ali.
Mariana Gouveia
