Bambina mia,
Chove torrencialmente depois de um dia de muito calor – minha realidade de sempre – e de uma ventania que espalhou as folhas todas pelo quintal. Senti aquela vontade de tomar banho de chuva, mas recuei diante de um ouvido ainda entupido.
Mais cedo, fui colher folhas de amora no quintal de uma amiga. É com a xícara cheia do chá pousada na mesinha junto ao notbook que te escrevo. Escureceu rápido demais e tão de repente, que pareceu uma passagem de tempo daquelas de filme. Um certo quê de nostalgia apareceu aqui. Estou no meu passado e os relâmpagos ecoam fortes, como se estivessem bem perto. Me fez lembrar de minha mãe que tapava todos os espelhos e vidraças de casa com lençóis brancos em dias de chuva com trovões.
Como você citou Patii Smith o pensamento me levou para uma livraria onde caminhamos juntas em um ontem que me traz saudades… você comprou o Ano do macaco e comentamos sobre a escrita das mulheres e a tentativa bruta de homens nos calarem. Já me disseram que eu uso a temática de Manoel de Barros e que quando fujo disso, falho. Fico repetitiva. O moço que quis corrigir meus escritos repetiu várias vezes as correções em poemas já publicados. Você sabe de quem falo.
Na novela das 18hs, ambientada nos anos 50, uma escritora se veste de homem para a novela que ela escreve ser aceita na rádio novela. Papel magistral vivido pela Nívea Maria. Daí, me pego pensando nas mulheres que você citou que vieram abrindo caminhos para que a gente pudesse hoje escrever sobre e como a gente quiser. E ainda bem, apesar de que ainda tentam nos calar.
O chá acabou, a chuva continua insistente e os trovões ecoam. As luzes da rua acenderam e a nostalgia ainda vaga por aqui. Grazie pela companhia.
Bacio
Mariana Gouveia

A vivid reflection on how sudden changes in weather mirror the rhythms and realities of everyday life.
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