Minha mãe dizia que a imagem mais bonita que ela tinha na memória foi quando eu aprendi a escrever as palavras. Lembro-me bem da cartilha Caminho Suave – usada para alfabetizar nos idos anos 70 e lá vai pedrada – onde o a e i o u ecoava em minha mente como mágica.
Bastava misturar as cinco letrinhas com as outras tantas consoantes e lá surgia a frase feita. Talvez, para minha mãe, o fato de estarmos em uma fazenda, com todas as dificuldades para uma escola, a memória de saber que a partir dali, o mundo me caberia deve ter despertado nela a beleza da leitura – já que ela era uma apaixonada por ler.
Ela sempre reafirmava que a gente havia aberto um portal… e lá ia eu me sentir tal qual Alice e seu País das Maravilhas. Gostava da palavra voo, ovo, rumo, viagem e lua. As outras, depois, vieram por consequência… mas lua enchia minha imaginação de imagens que iam muito além do satélite no céu.
E com isso, eu escrevia em tudo que pudesse caber palavras e descobria em cada leitura e em cada palavra que eu podia criar mais de mil. O que se mostrava no céu em noite estrelada, além de uma lua em suas fases, era meu olho de menina escrevendo à luz de lamparina, depois, lampião de que o som dos grilos podia ser descrito em palavras e todo aquele sentimento que fazia o coração acelerar também podia caber em um poema.
Depois, bem depois, eu descobri que haviam outras palavras, que podia significar as mesmas coisas que eu escrevia, mas que eram escritas diferentemente do alfabeto que eu conhecia. E que o eu te amo da minha poesia cabia no I Love You em outro idioma em muitos outros que eu só fui descobrir bem mais tarde.
Descobri também que o encanto de minha mãe era muito mais do que saber que a gente saberia se virar em qualquer situação. Era saber que conhecendo as palavras qualquer lugar nos caberia e as palavras nos levaria ao mesmo encantamento que ela sentira lá, quando a gente descobriu o a e i o u.
Mariana Gouveia
