Já não leio as notícias há tempo. Acho que deixei esse hábito desde a pandemia. O medo dos números de vidas perdidas me assustava. Hoje, no máximo leio uma ou outra manchete que traz as notícias de agora.
Os sites do meu lugar passaram cada vez mais a noticiar os feminicídios e pasme… meu estado é onde mais acontece os casos no Brasil. No projeto que ajudo vejo a realidade bruta, nua e crua… e diante de tanta luta e dor a poesia me salva. É o que tento levar até elas. Você falou sobre a redescoberta de Sophia de Mello Breyner Andresen no Brasil. Suspirei. Lembrei-me da carta que escrevi para ela em 2018, em um projeto da Scenarium.
Como não tenho nenhum livro dela aqui, igual a você, fui aos arquivos buscar a missiva escrita e deixo aqui enquanto sorvo um chá de menta fresca:
Sophia,
Aqui, em uma mesa de canto, nesse café da rua do Meio, te escrevo.
Lembro-me da maneira que chegou até a mim e isso me leva para o cheiro da manga madura que fazia com que a biblioteca da escola fizesse quase parte da merenda. A fruta parecia quase tocável da janela, visto que o pé da mangueira anã resolveu dar o ar da graça ao toque de mão.
E por falar em mãos, foi pelas mãos da irmã Matilda que te descobri – ou ganhei – nunca sei ao certo.
Irmã Matilda era a freira boazinha que todo mundo amava e além de nos dar aula de ensino religioso era a responsável pela aula de leitura na biblioteca da escola.
Entre o exemplar de José de Alencar e parte da Bíblia Sagrada lá estava sua poesia camuflada de disfarce. Devo confessar que foi mais amor provocado pelo olho da freira do que propriamente amor de cara pela sua arte poética e lírica.
A maneira como ela me olhava enquanto eu te descobria nas leituras – parecia que havia cometido um pecado – era como se partilhasse de um segredo tão dela e agora também meu.
Falou do quanto você a encantava e de onde era. Desenhou em palavras seu lugar, seu país e me levou em pensamentos para além do oceano até seu Portugal.
Depois disso, você se tornou companhia e eu te lia como oração.
Quantos poemas de amor foram lidos em voz alta nos corredores da escola, ou mesmo em apresentações para a família em dia de festa. Ou só, sob a luz de lamparina com sua cor azulada…
Hoje, te busco nos livros que ainda não li. Te encontro nas prateleiras do sebo ou na casa de uma amiga querida que a ama e cultiva tanto de coisas tuas e tudo traz à tona a poesia tua estampada no olho da irmã Matilda que voltou ao seu país de origem e nunca mais se soube dela.
É hora de ir, o café está esfriando enquanto as lembranças me fazem suspirar. O horizonte tem essas cores mistas entre o laranja e o lilás… Meu silêncio interno confronta – se com a correria de fim de dia, passos apressados em direção ao ponto de ônibus… Quase ouço a maresia quando te leio…
“A nossa vida é como um vestido que não cresceu conosco”
eu, sorvo a delicadeza da poesia no sabor do café. Aceita?
Beijos
Mariana

Entendo perfeitamente. Às vezes, é necessário se afastar das notícias para proteger a saúde mental e encontrar um pouco de paz em meio a tantas informações difíceis.
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Thanks!
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