Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Tudo é da cor do silêncio.

Já eu, nas horas de esperar as ervas crescerem no quintal, penso que ele é o meu portal secreto – agora já não é mais – para meus afetos. É por onde ando descalça, sentindo o chão e o cheiro de terra molhada. Há três árvores… um pé de ipê amarelo, um pé de jurubeba e um pé de jabuticaba.

Ainda tenho uma trepadeira que é o orai pro nóbis que se enrolou no pé de ipê e solta seus cachos cheirosos no ar. As outras plantas são de pequeno porte e cabem em vasos. O alecrim, que perfuma a tarde, a erva cidreira e o capim santo, a caninha do brejo e o hortelã pimenta, além de vários pés de pimentas.

Durante minhas manhãs, vagueio por ele e é onde as sombras me dão alívio no calor, durante meu trabalho. Tenho como companhia diversos pássaros e insetos, que amam algumas plantas nativas que cresceram aqui e ali, talvez trazidas pelos pássaros ou vento.

Há uma palmeira também, que produz a guariroba – um palmito amargo, mas delicioso – que expande suas folhas nas tardes mornas dançando com o vento. O meu quintal tem a docilidade de se doar para mim e cabe dentro da minha liberdade.

É onde os desvios acontecem e me leva para qualquer lugar lúdico – o seu quintal, por exemplo – e é a noite que ele me veste… e durante as madrugadas insones conhece a cor do silêncio que me atinge e me abraça.

Mariana Gouveia

4 comentários em “Tudo é da cor do silêncio.

Deixe um comentário