Bambina mia,
escrevo-te nessa tarde quase noite com nuvens grossas no céu que avançam rapidamente sob o quadrante do meu quintal. Sinto o cheiro de chuva chegando… acabei de ler sua missiva para uma outra pessoa e ainda me impressiona como nossas esquinas se cruzam em instantes iguais em tempos diferentes. Quando você falou sobre sua settimana meu coração reativou as memórias de nossos rituais diários. Posso dizer que viajei com você nas lembranças.
Na segunda, a gente não vendia o leite. Já era combinado que todo leite tirado na segunda iria para os doces, e os queijos. Além de tirar uma parte para a coalhada e a manteiga. Íamos para o galpão e os tachos de cobre entravam em ação.
Terça, cuidávamos da horta. Era o dia de retirar as ervas daninhas, revolver a terra, colher as pimentas, amoras, pimentões, quiabos, jilós, berinjelas e arranjar os canteiros para as novas mudas. Desde a mais velha à mais nova tinham sua função.
Quarta embrenhávamos na floresta e colhíamos desde as ervas medicinais ciceroneadas pela bá aos cogumelos. Também fazíamos pic nic e aprendíamos como sobreviver ali se algum se perdesse. As buchas vegetais cresciam perto do riacho, e os pés de palmito, que a gente conhecia como gueiroba – uma espécie de palmito amargo – além dos coquinhos que tinham as castanhas mais deliciosas do mundo.
A quinta era nosso dia preferido, acho eu. O dia dos quitutes. Logo pela madrugada meu pai colocava o forno de barro para aquecer e mãos na massa para modelar os biscoitos, ralar o milho para a pamonha e bolo para o resto da semana… o fogão a lenha crepitava e saia guloseimas deliciosas. Os pãezinhos e as broinhas, que depois de assados iam para as latas. Nesse dia, também se juntava a nós algumas das vizinhas da região. As histórias surgiam entre um assado e outro.
Na sexta a gente ia para as costuras, os bordados e para as tarefas do curso de bordados e corte e costura. do Instituto Universal Brasileiro. O linho para bordar, os riscos que minha mãe fazia, o dedal e as linhas tingidas por nós mesmo.
O sábado ganhava ares de festa na beira do rio. As minhas irmãs mais velhas lavavam roupas e estendiam sobre as pedras, enquanto os mais novos banhavam na parte rasa do rio. Na casa, era o dia de manter a despensa das carnes cheia. A fritura do toucinho para a banha, a preparação para as carnes de lata ficavam a cargo do meu pai e dos homens que trabalhavam ali. Como a professora da escola rural morava com a gente, ela nos ensinava usando em cada dia da semana, a natureza e sua forma de vida.
Já no domingo, era antes de tudo, o dia da missa, na igrejinha que meu pai construiu ao pé da colina. Depois, todos os vizinhos chegavam para o futebol. Enquanto as mulheres cuidavam do almoço. Lembrar de tudo isso deixou meu coração quentinho. Há ainda algumas coisas que se perderam na memória, entre um dia e outro… mas, de resto, a chuva começou forte aqui… um dia, escrevo sobre os dias de chuva para você.
Grazie por ativar essas memórias.
Amo tu imenso!
Bacio
Mariana Gouveia

Só a foto já desperta o imaginário, e com um texto tão gostoso e perfeito, a viagem é certa. 😂
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Fico feliz por isso! Grata tanto! Abraço
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