Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

O branco de uma palavra arranhada na parede.

Confesso que já tentei várias frases curtas ao iniciar um romance, texto, prosa e nunca consegui. Acho que sou das frases longas que contam quase a história toda de uma vez.

A frase do tema me fez lembrar do amor do João e Joana – claro mudei os nomes para não expor ninguém – já que ele é um tatuador conhecido por aqui. Um dia, voltando do trabalho vi o grafite exposto na parede de uma universidade particular, que havia sido fechada ou transferida para outro lugar. A frase me chamou a atenção. Era sucinta e objetiva: porque o “nós” não existe mais.

Quando isso acontece, toda a história se desqualifica e passa a ser passado. Foi isso que ele me disse quando o conheci, por acaso, quando ele fez minhas tatuagens. Joana era Joana mesmo, só que o J tinha a conotação do R, devido ser estrangeira. Não perguntei de onde, porque as palavras correram soltas quando ele falou sobre ela.

Gostava de flores, de borboletas – como eu – e de grafites… ele, gostava dos grafites, do riso dela, da fala dela, mas não gostava das frases soltas, como se sempre estivesse se despedindo. Era andarilha. Não tinha rumo, nem planos. Amanhecia aqui hoje e no fim do dia já a sabia em outro canto, kms de distância, às vezes. Ele ficava perdido, como se sua bússola o tivesse deixado mais desnorteado do que antes dela.

Ele, além dos dreads, sabia seu lugar aqui… no stúdio onde cabia todos os bonecos de sua coleção, o rádio antigo do avó, as casinhas de epóxi que a mãe fizera antes de partir, as pranchas que já usara nas férias em Mangaratiba, onde pensou que havia encontrado o “nós” que não só os do cabelo, mas o nós que transformava dois em um.

Ela o acompanhou na volta para casa e grafitaram juntos todos os muros das avenidas com suas histórias de amor. Mostrou pra ela todas as cachoeiras da região, onde ela havia se encantado com os paredões da Chapada e dito que ali, ela moraria a vida inteira…

Até que um dia, ela pintou o desfolhar do malmequer e a frase mais dura de um adeus. Simbólica, curta e nem sorriu. Colocou a mochila nas costas e seguiu a avenida afora até o ponto de ônibus. Ele ficou ali, tentando tirar as aspas do nós e foi a primeira vez que chorou por amor.

Depois, soube dela por outros lugares que não os seus e a admirou pela liberdade que ela cantava e exercia e a partir daí, viveu de saudades e de grafitar coisas com frases longas, porque frases curtas não caberia em tudo aquilo que ele viveu.

Acho que ainda estou buscando frases curtas depois disso.

Mariana Gouveia

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