Seu texto me fez lembrar de alguns ontens e mais uma vez me vejo repetitiva aqui quando nossas esquinas se cruzam. Na época em que eu trabalhava no rádio, durante dois anos, fui a responsável para editar coluna de astrologia tanto do rádio quanto do jornal. A astróloga fazia as previsões e eu editava e não se espante… era a maior audiência nas manhãs, em um tempo em que o mercúrio retrógrado não era tão falado, pelo menos não nas previsões dela.
Tarô, runas e até baralho cigano era com ela. Um dia, tive de ir até sua casa pegar as previsões e como toda aura de misticidade me encantava entrei na tenda. Mesmo sem ler nenhuma carta ou qualquer outra coisa, ela me disse que eu teria sete filhos. A previsão não se confirmou. Tive três filhos, dos quais dois faleceram no parto. E as outras coisas que ela reafirmou várias vezes ser um aviso nunca se concretizou. Eu seria mãe de sete filhas. Os meus eram meninos.
As pessoas a adoravam e a rádio recebia várias cartas endereçadas à ela. Mas, o rádio sofreu mudanças, e o programa acabou, assim como as edições para o jornal… Nunca mais havia visto ou ouvido falar dela, até que, na última ida ao centro da cidade para comprar materiais a vi… de princípio, não a conheci e acredito que ela também não se lembrou de mim, porque fez um psiu… e estendeu a mão para mim.
Vestida com roupas coloridas e saia longa parecia uma cigana. Lembrei-me das que eu conheci na minha infância… Recusei apressadamente. Foi quando nossos olhos se cruzaram. Houve um resquício de conhecimento, mas ela fingiu que não e eu não me atrevi a relembrar.
Segui rumo a rua do meio, para a loja dos aviamentos e senti o olhar dela algumas vezes. O futuro que ela viu para mim tornou-se obsoleto na memória… Prefiro meu presente com uma chuva deliciosa que cai nesse fim de tarde. O amanhã? Vamos aguardar.
Mariana Gouveia
