Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

De que cor é a noite?

Dentro da noite só avistava o vazio das horas… a porcelana suja vigiando os instantes, a figura do elefante cor de ferrugem na estante – nunca reparara na cor – ao lado da bailarina, que parece dançar de verdade.

Nem ela mesma sabia a história daquelas peças, quase estátuas, fazendo companhia para a sua solidão. Lembra – se apenas que elas estiveram ali desde sempre. Uma coruja com olho estranho, um gato que lambia a pata, os três frades que bebiam vinho – todos enfileirados na estante.

Os objetos inanimados pareciam ter vida… por vezes, parecia ser ela, o bibelô no canto da sala, com os olhos fixos na janela a espreitar os movimentos da noite.

As toalhinhas de crochê feitas pela avó a ocupar os lugares na casa… a almofada de fuxico, como se estivesse sempre cansada.

Conhecia o barulho da rua… Os carros e seus movimentos. Vez ou outra, um mais afoito, cantava os pneus, na impaciência de virar a esquina. Um bêbado, e sua cantoria noite afora

Dali, do seu canto fixo em sua janela, conhecia as horas, pela cor do céu que surgia. Os olhos buscavam sempre as sombras… onde havia espaço para sua solidão.

Era dali que tinha a dimensão da noite, quando tudo, ou quase tudo se aquietava dentro da rua e a cidade dormia. Só os insones ficavam a espreitar janelas como ela.

Passava os olhos pelos objetos todos. O porta – retrato, que trazia pessoas conhecidas, mas de quem nem mais se lembrava. Sabia o sobrenome, que era o mesmo seu. Onde foram parar àqueles risos que lembram dezembros? Parecem meros estranhos, ao lado do elefante, cor de ferrugem, a vigiar todas as noites, onde apenas o aroma do café, seguia seguindo um ritual antigo, que o pai ensinara.

Se sentia uma alquimista. Relembrava de cada parte da receita, até ver ali, na xícara fumegante sua própria solidão.

Mariana Gouveia
* Texto escrito para a Revista literária Plural La Barca.
Scenarium Livros Artesanais

Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

Viver roçando as coisas de leve

Mordia o lábio para não revelar o segredo.
Infringiu as regras do bom senso: roubou o perfume dela e viajou na essência cítrica…
Com o nome a ecoar histórias e o coração a acelerar quando pensava… na pele! Pensou que fosse mentira o idioma e a cidade das poesias estampadas na camiseta sobre o amor.

Mariana Gouveia
Revista Plural Inéditos & Dispersos –
Scenarium Plural Editora

Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

Mordia o lábio para não revelar o segredo.

Infringiu as regras do bom senso: roubou o perfume dela e viajou na essência cítrica… Com o nome a ecoar histórias e o coração a acelerar quando pensava… na pele! Pensou que fosse mentira o idioma e a cidade das poesias estampadas na camiseta sobre o amor.

Mariana Gouveia
Revista Plural Inéditos & Dispersos – Scenarium Livros Artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna GuedesObdúlio Nunes Ortega Roseli Pedroso e Suzana Martins e Bob F

Das palavras das cartas · Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

Eu, Mário, os homens e uma desvariada carta

Querido Mário…

Eu estive em sua São Paulo e desde quando estava no avião, em pleno céu, me encantei com a imensidão da cidade, cantarolei Caetano e lembrei-me de todas as canções que exaltam a cidade que você tanto amou.

buongiorno ouvi da minha bambina e claro que a reconheci entre tantas mil, ainda no aeroporto. A boina, o riso e o abraço acolhedor de boas-vindas. Foi ela quem fez o mapa e me guiou pelas ruas e calçadas… indicando o melhor caminho.

Da janela do carro fui exclamando o tamanho das formas e fiquei surpresa ao perceber como fui engolida pela tua cidade. Reconheci prédios — vistos na TV. E quando, de pé, no chão olhei para cima… me senti pequena.

Vi as vaidades dos homens… e os invisíveis que em sua época, talvez, fossem outros. Em alguns momentos, não senti poesia… porque doeu ver os desiguais tão iguais.

Eu vi os diferentes e meu olho vibrou na diversidade das pessoas nas ruas. Fiquei dias pensando na personagem andrógina, branquinha — até os cabelos — a caminhar em minha direção como se tivesse flutuando.

Ali, eu vi a poesia da tua Paulicéia desvairada.

A segui com o olhar como se estivesse em um cortejo até desaparecer entre a multidão apressada. Passei pelo cortejo dos homens de paletós que não me surpreendia, mas os desiguais e a “cidade” feitas nas calçadas com suas lonas pretas — tão sem endereço, são sem lugar, espaço numa cidade tão imensa. Como é possível? Tão desvairada!

Não sei se te contei que estive na biblioteca que tem o seu nome? De repente, eu era a menina da infância que sonhava em publicar livros. E, lá estava eu, com um livro meu, em mãos… na Biblioteca Mário de Andrade.

E não era sonho!

Era realidade… e observei tudo, da enorme estátua ao centro, as pessoas rodeando as mesas e falando comigo. As vozes ecoavam no ar. Parecia sonho, Mário. Mas, ali, eu fazia parte do cortejo dos que escreviam, mesmo que no fim da fila. Queria que soubesse que não vi os homens de São Paulo como macacos. Vi asas em alguns e dei pela falta delas em outros… Medo, desilusão, desesperança, e vi amor. Mas vi sede de fé nas pessoas e acolhimentos em tantos… Apenas dentro dos meus olhos tão ricos de ver, vi apenas os homens.

Mariana Gouveia 
Carta publicada na Revista Plural Desvairada
Scenarium Livros Artesanais

Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

Lembranças

O doce branco do açúcar
a ativar o café torrado…
o bule antigo, com florzinhas
decoradas, cor verde-oliva.
Alguém… na carta disse
que o azul das pétalas lembrava
a cor do céu e que não mudava
o sabor e nem o aroma
do café a espalhar essências
pelos quartos e acordar o dia
na canção.

A mãe teimava que azul era o céu
quando o relógio dava
meio-dia.

Alguém saboreava histórias escritas
mas o livro do sebo não tinha
as dez páginas finais…
E teve de recriar a história
com os irmãos. Depois se descobriu
que a irmã tirou de propósito
as folhas…

O riso do irmão mais novo
era afago… um dia seria palhaço de
circo e viveria a desafiar
o globo da morte.

Não foi…

Mas os filhos acabaram
dentro do globo
da morte-vida

No quarto ao lado,
o baú, na casa antiga
da infância… descobriu
o sentimento que sentia
todas as vezes que alguém
falava de saudade:

Era amor!

Mariana Gouveia
Texto publicado na Revista Plural Inéditos & Dispersos
Scenarium Livros Artesanais

Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

Na rota do blues

A minha memória ainda guarda aquele dia. Eu, menina, a viajar para o interior de outro estado em um lugar fora do mapa a procurar meu pai. A estação tinha ar de filme antigo que eu nunca havia visto, mas que já tinha lido sobre. O ônibus me deixou ali durante a madrugada. Fazia frio e o paletó de flanela xadrez feito por minha mãe antes de adoecer me aquecia.

A estação não era o fim do caminho. Era o meio. E o ônibus só passaria por ali no meio da manhã.

As duas pessoas no local me olhavam com curiosidade, mas não sabiam me dar nenhuma informação. A luz fraca do gerador a óleo parecia querer apagar a qualquer momento. Não se via quase nada. Apenas uma luzinha azulada vinda de uma janela a poucos metros da estação. Dali vinha um cheiro bom de café e algo que imaginei ser bolo – só aí me lembrei que havia comido apenas na tarde anterior – e o som de uma guitarra que tocava suavemente.

Caminhei até a janela para pedir ajuda e vejo ele, de olhos fechados – e foi uma das cenas mais lindas que já vi – a tocar. Eu, que crescia sobre o manto da música sertaneja encantei-me com a suavidade da canção.

Me convidou a entrar e enquanto eu contava um pouco sobre minha história e o porquê estava ali foi colocada diante de mim uma xícara de chá e um pedaço do bolo ainda quente.

Parecia que eu o conhecia desde sempre. Orientou-me a voltar para casa. Falou do perigo de uma menina da minha idade sair assim, sem ninguém acompanhando e que iria me ajudar. Elogiou minha coragem de ter chegado até ali. Mas que agora era com ele.

Falou da vida, do blues – o ritmo que era a vida dele – da filha que criava só desde que a mulher morreu. Eu, declamei poesias que eu mesma havia escrito e prometemos fazer uma música juntos – quem sabe, um dia, nas minhas férias escolares.

Pegou meu endereço e logo que o dia amanheceu pediu para alguém me levar até em casa em sua caminhonete azul.

Não sei se foi pelas mãos dele, mas dois dias depois meu pai apareceu com uma carta escrita para mim, com o convite para nas férias visitá-lo e a vida seguiu.

Nas férias seguinte, meu pai me levou lá e dali, desenvolveu-se uma amizade tanto pela música como pelo homem. E naquele lugar passei a viver dias de sonhos. As férias eram aguardadas como se espera pelo domingo. Enquanto isso, trocávamos cartas onde eu traduzia as canções que ele gostava.

A vida me levou para longe dali. Algumas vezes, foi possível voltar. Em outras, enviava cartas com presentes para retribuir a atenção de um avô postiço.

Ganhei instantes lindos junto com ele. Dançávamos no campo com as cores de um outono dourado.

Recebi a carta dele monitorada de ausência. As letras miúdas como se fossem desenhos. Todo mundo devia ter essa letra – pensei. Devia ser decreto – Na carta falava que lá tudo continuava igual. Parado no tempo. O ônibus passa agora três vezes ao dia, porque as crianças cresceram e formaram famílias e foi a única coisa que mudou. Não. Ele se enganara. Agora havia também ao lado da estação uma antena enorme que levou modernidade para o lugar e graças a essa antena – que ele odiara no início – podia ouvir minha voz através do telefone da filha.

Mas da janela, a estação que ele vê é a mesma. Era outono quando escreveu. Descreveu o campo em tons dourados igualzinho como quando fui lá pela última vez. E igualzinho eu me lembro e tenho em fotos.

Falou que a música ainda alimenta a alma dele é que a vitrola que eu dei a ele funciona como se fosse nova e que foi o melhor presente da vida. Que quando o carteiro entregou o pacote com o LP que faltava do B.B. King ele quase abraçou o moço. Só não o fez porque iriam interná-lo. Mas que ouviu tanto que a filha reclamava da repetição e que não só ela como os vizinhos, até os mais distantes sabiam de cor e salteado todos os acordes.

A carta tinha o perfume de lavanda no papel. Era uma loção pós barba. Foi descrevendo letra após letra a solidão das tardes e de que pensava em mim com emoção.

Por fim, me disse sobre não deixar de ouvir a música nunca. E que eu plantasse flores sempre.

A resposta foi uma carta da minha maneira com um LP encontrado no sebo, mas descobri hoje que ele não pode ouvir nem ler. Havia partido para uma rota que não sabemos qual, mas sei que continuará seu caminho tocando blues e cada vez que eu ouvir I Believe To My Soul ele estará comigo.

Mariana Gouveia
Texto publicado na Revista Plural Blues
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

A minha rotina clandestina

Sabe amor,
essa carta foi escrita antes do século virar. Os dias de ontem para trás foram confundidos um a um com a dor. Os corredores intensos-grandes fizeram as noites maiores. As paredes trazem recordações e fotografias recortadas onde minhas palavras vasculham a segurança do teu sono no quarto ao lado.
Na mesa da cozinha, rabisco as vontades dentro de um poema. Recordo os outros dias dentro desse mês que dizem ser o mesmo dos namorados e amanhã, justo amanhã, o dia principal. Que coisa estranha, amor! Ter um dia especial para celebrar o que é vivido todo dia. A Antônia da esquina me encomendou um poema para dedicar ao namorado e sei que você não compreende como alguém pode fazer um poema de amor para outra pessoa que nem conhece.
Quem escreve exala sentimentos na pele. Daí escrevo uma coisa, logo sai outra coisa e quando mostro para você, percebo que seu olho desvenda minha alma. Por isso, nem preciso dizer, já o sabe, que todo sentimento é igual, a solidão é a maior companhia de quem escreve e que as rotinas minhas vagueiam pelo quintal.
Da janela, vejo a rua inteira e se dobrar o pescoço colho a lua no quintal, com exceção de quando ela fica nova. Podia até pescá-la nessa fase. Vira isca, amor, no quadrante do pé de algodão.
Você sabe onde colho inspiração, ou melhor, em quais horas a rotina me abraça. Como pode uma noite roubar a rotina assim, de quem escreve? As horas avançam enquanto as estrelas se confundem umas com as outras quando choro… e finjo uma cantiga estranha no banheiro para que a desculpa do sabonete no olho não mostre para você que quem escreve o amor, mesmo sendo amada, chora…
Não é tristeza de pessoa, nem de amar… é a solidão que bate nas coisas mais vagas que a mão toca, seja um inseto pequeno na roseira que ganhei da amiga que enfrenta a morte, ou a borboleta – de todo dia – que me toca como se me benzesse.
Eu devia te falar das benzedeiras… as deusas que me ajudam na procura do que acredito. A força é logo ali, ao pé da cachoeira, onde te vejo dominando o lugar. É uma imensidão de coisas vinda de fora e onde me transformo em criança e suspiro em seu olhar.
Talvez eu te conte amanhã o que vivi ontem e depois de amanhã. Outra história onde desenho finais de tardes com você e com isso, vou narrando vivências e me juntando nas rotinas de outros amores porque escrever para mim… é isso: se misturar nas rotinas dos outros dentro das histórias de amor e vida. Pode até ser ficção, romance, tragédia…
E quando em silêncio, o vento sussurra e você me olha… parece quase amanhã. Esse seu jeito é a poesia que você diz não conhecer, mas que me oferece todo dia com abraço, força, fé e amor.
Te amo infinito dentro das histórias de amor que invento!

Mariana Gouveia
Texto publicado na Coluna Plural – Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só porque hoje a borboleta apareceu por aqui de novo

Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

A rota em direção ao meu Norte.

Não tinha endereço na plaqueta da rua nem número em casa nenhuma. A casinha quase a tocar as árvores ao longo da rua, que era estrada… A direção se dava pelos cheiros. As flores do jardim reacendiam na alma a rota do abraço e a lembrança da chaleira sobre o fogão de lenha já alertava meus sentidos para o chá.
Não saberia nomear o sentido das coisas. Algumas, o universo me dá sem ter nome… Outras, me caem como presente divino.
As ervas que vim buscar estavam a secar em um balcão improvisado a espalhar aromas que eu conheço bem.
Ela riu como da última vez que a vi. Eu coube bem dentro do abraço. Depois de levar a bronca por ter faltado ao último São Cosme e São Damião. Fez mil perguntas buscando dentro do meu olhar as respostas reticentes que eu dava. Desconfiava das minhas desculpas…Ria do meu embaraço a falar do tempo. Lia meu olhar como uma carta aberta letra por letra.
Ela conhecia bem meus silêncios e dentro deles muitas vezes foi benção e voz.
A casa tinha seu cheiro de amor em cada retrato de santo na parede e o ramo de arruda na mão a benzer meu olhar. Tomei um banho de chuva. As ervas a envolver minha pele como se dela fizesse parte. A busca pelo meu canto de sempre. O respirar para dentro num ritual que eu já havia vivido e sentido.
Muitas vezes, ali, debaixo do pé de maracujá, eu descobri minha rota de fuga. Mas também descobri o meu norte e mais uma vez busco refúgio dentro do olhar dela. Ela repete gestos em orações e silêncios. A mão toca minha testa como se pudesse com a mão tirar o que me afligia. As horas ali, parecem não pertencer ao mundo dela. O tempo para dentro do tempo.
O rádio de todo dia toca uma canção antiga. Ela se recorda pela milésima vez quando me conheceu e daquele momento em diante eu virei filha – com ar de brava reclama da filha desnaturada que some de vez em quando – e de como derrama seu amor por mim. Eu respiro carinho em cada canto dessa casa que também é meu lar.
O chá fumega espalhando a essência de cura pelo ar. Os biscoitos de nata desmancham na boca e naquele momento eu percebo o quanto sou abençoada e de que preciso repetir mais vezes esses instantes.
Estendo o braço para a simplicidade do toque. Mão leve que toca e pronuncia as palavras certas. Ri de minhas histórias…canta a canção que aprendeu pelo rádio. Pego as ervas depois do abraço carinhoso e vou rumo à cidade.
Ainda posso ouvir a voz dela a ganhar eco na projeção das árvores. As orientações ainda a ecoar na mente e no coração.
Ainda a vejo no portãozinho de madeira a acenar tchaus com gestos de beijos. Ela é toda inspiração de fé e coragem. Ela é a dona dos cabelos brancos mais brancos ainda e jeito gostoso de vó.
Volto energizada, benzida e curada. A vida sempre me dando atalhos com direção certa e eu apenas a dizer sim ao Universo.

Amém!
Amem…
Mariana Gouveia
Agosto é o mês de abraços e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina
*Texto publicado na Revista Plural North and South pela Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Revista Plural · Scenarium & Coletivos · Scenarium Livros Artesanais

BEDA – Carta ao Coletivo

“Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir. 
Sentir tudo de todas as maneiras”. 
Álvaro de Campos

Devo confessar que mudo sempre de lado quando viajo e nem sempre é permitido abrir as janelas. Entre as ruas, enquanto o coletivo se desloca, a paisagem muda completamente. Dos bosques do meu lugar – cada vez mais raros – aos modernos edifícios, as ruas e seus viadutos. As casas antigas e suas vielas.

Lá fora, tudo é barulho. O silêncio acontece internamente. Avisto o cão com seu humano a atravessar a rua. As pombas na praça à espera das migalhas que sobram da barraca de lanches.

É o caminho por onde levo vocês.

Nessa viagem que fiz com vocês, dentro de Coletivo diversificado eu abri cada janela e me deparei na docilidade do Medo de Aden.
 Perdi-me – perco-me sempre com ela – nos Caminhos de Adriana.

Respirei pelos poros de encanto com Pele de Caetano e juntei os Pedaços de Chris. Ingrid me deixou em Silêncio – mesmo – e de um fôlego só, nem suspirei. Cada palavra me abraçou e passou a fazer parte da minha bagagem.

A viagem é essa troca de perceber lugares, se descobrir no olho do outro e foi isso que aconteceu com Gestos de Marcelo. Já Maria Vitória, para mim é aquela pessoa que embarca, e você não para de olhar. Não cansa de olhar. Quer ouvir a voz, saber nome, endereço e seu lugar no mundo. As Memórias dessa menina se uniram às minhas. E quando essa pessoa desce, você quer descer junto e pedir o número do telefone, a cor preferida, e a viagem passa a ser mais sem graça sem ela.

Os lugares do caminho me deixaram sem voz e a minha Boca abre em espanto. A Tristeza de Obdulio me fez refletir sobre o outro que senta ao meu lado e em silêncio carrega sua dor-confusão-guerra interna e revi cada rosto que conheci nesses caminhos.

Virginia me fez movimentar sete vezes em seu Dilúvio de poesias. Quase pequei por desejar eu ter escrito as palavras dela.

Embarcamos em travessias diferentes, estações opostas, mas ligadas entre si e quando todo mundo se encontra o Coletivo ganha de fato, o sentido da palavra embarcar.  A viagem se adere aos detalhes do caminho percorrido, atravessa por atalhos não programados e que acaba sendo a melhor parte da viagem. Passamos a fazer a cidade desperta, insone, comum, original, diferente, como nunca visto e em cada um o gesto novo e com o objetivo é alcançado.

Asfalto e poeira. Poema e poesia. Tempo dos grandes espaços urbanos, das casinhas pequenas nas vilas quase cobertas pelos prédios e pelas suas alturas. O desenho da palavra do lado de fora e dentro, cada um, em seu lugar, caminhantes, tantas vezes de solidão, com suas rotas próprias e o mapa feito da palavra sonhar.

Olho lá para fora e descubro o ponto de chegada – que é o continuar constante de outra viagem – entre o azul intenso do céu e a cidade cinzenta ganhando vida pela janela. A mesma janela que me traz um pequeno raio de sol e agradeço por fazer parte desse Coletivo cuja pretensão é levar até vocês o roteiro. A perceber que o Coletivo é o todo dentro do embarque e que quando chegamos no ponto final já se agigantava dentro da gente uma nova pessoa.

Grata pela companhia de cada um. Que venham as próximas viagens!

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural Trezentos e Sessenta – Scenarium Plural Editora
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Revista Plural

Projeto Fotográfico 6 on 6 — minhas noites!

Eu gosto muito das horas despretensiosas. A beleza mora nelas.
Joakim Antonio
DSCF9899.JPG

Confesso que minhas noites são feitas de silêncios. Ou de monólogos intensos pelo quintal. Quando o sol se prepara para a troca com a lua, minha cidade – que dia 8/04 completa 300 anos – se transforma em silhuetas através das janelas do ônibus. Aspiro ali, o lugar de fé, também o prédio mais alto da cidade e a respiração acalenta nas sombras o que foi o dia.

DSCF5821.JPG

E dependendo da fase, lá vem ela dominar o decanato e ascendente. Cada tempo tem sua necessidade e ela em sua fase de cheia invoca os deuses e faz o cabelo engrossar e mais uma vez, nessas noites eu relembro as lições do pai.

DSCF8899.JPG

No meu quintal, nas minhas noites, às vezes, a lenda acontece na caixa velha de eternit e o eco se renova perto do pé de vento. Era ali que as histórias eram contadas e é ali que minhas noites são feitas de sopros. O calor, quase sempre, é asfixiante e bem embaixo do pé de ipê o cogumelo arrebenta e a frescura toma conta da alma. É onde aconteço dentro de minha história.

DSCF2591.JPG

Há noites em que ela surge em vírgula e me vejo lunar nas minhas noites. Chamo um nome, lembro do uivo, refaço rituais que aprendi quando criança e sou pura fascinação. O céu ganha minha atenção e conto histórias que nuca esqueci.

DSCF9466.JPG

Nas histórias, o que me envolve é a lua – e na ausência dela minhas noites ficam ocas, vazias – e o céu é meu templo. Realinho os mantras e faço orações para o universo em todas as fases de lua e de quebra, ainda ganho estrelas.

DSCF7058.JPG

E para finalizar, sou colo do pássaro de todo dia que em minhas noites é aconchego para além da alma. Ali, no varal, pouco antes de deitar ele vem em oferta de carinho e poesia.

Sou quase extensão de histórias que se aninham entre si e fazem de mim o que sou hoje: uma insone nas noites sem lua. E como diz um dos meus poetas queridos Joaquim Antônio: “Eu gosto muito das horas despretensiosas. A beleza mora nelas”.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019 Participam também desse projeto: Lunna Guedes Obdúlio Ortega Maria Vitória