Querido Mário…
Eu estive em sua São Paulo e desde quando estava no avião, em pleno céu, me encantei com a imensidão da cidade, cantarolei Caetano e lembrei-me de todas as canções que exaltam a cidade que você tanto amou.
O buongiorno ouvi da minha bambina e claro que a reconheci entre tantas mil, ainda no aeroporto. A boina, o riso e o abraço acolhedor de boas-vindas. Foi ela quem fez o mapa e me guiou pelas ruas e calçadas… indicando o melhor caminho.
Da janela do carro fui exclamando o tamanho das formas e fiquei surpresa ao perceber como fui engolida pela tua cidade. Reconheci prédios — vistos na TV. E quando, de pé, no chão olhei para cima… me senti pequena.
Vi as vaidades dos homens… e os invisíveis que em sua época, talvez, fossem outros. Em alguns momentos, não senti poesia… porque doeu ver os desiguais tão iguais.
Eu vi os diferentes e meu olho vibrou na diversidade das pessoas nas ruas. Fiquei dias pensando na personagem andrógina, branquinha — até os cabelos — a caminhar em minha direção como se tivesse flutuando.
Ali, eu vi a poesia da tua Paulicéia desvairada.
A segui com o olhar como se estivesse em um cortejo até desaparecer entre a multidão apressada. Passei pelo cortejo dos homens de paletós que não me surpreendia, mas os desiguais e a “cidade” feitas nas calçadas com suas lonas pretas — tão sem endereço, são sem lugar, espaço numa cidade tão imensa. Como é possível? Tão desvairada!
Não sei se te contei que estive na biblioteca que tem o seu nome? De repente, eu era a menina da infância que sonhava em publicar livros. E, lá estava eu, com um livro meu, em mãos… na Biblioteca Mário de Andrade.
E não era sonho!
Era realidade… e observei tudo, da enorme estátua ao centro, as pessoas rodeando as mesas e falando comigo. As vozes ecoavam no ar. Parecia sonho, Mário. Mas, ali, eu fazia parte do cortejo dos que escreviam, mesmo que no fim da fila. Queria que soubesse que não vi os homens de São Paulo como macacos. Vi asas em alguns e dei pela falta delas em outros… Medo, desilusão, desesperança, e vi amor. Mas vi sede de fé nas pessoas e acolhimentos em tantos… Apenas dentro dos meus olhos tão ricos de ver, vi apenas os homens.
Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural Desvairada
Scenarium Livros Artesanais

💙
CurtirCurtido por 1 pessoa
❤
CurtirCurtir
Lindo!
CurtirCurtido por 1 pessoa
grata ❤
CurtirCurtido por 1 pessoa
Eis uma narrativa cujo narrador revela com acuidade o espaço da acção -viagem a São Paulo bordado por formas verbais como :encantei numa hipérbole assente no substantivo abstracto “imensidão ” cuja sonoridade nasal acentua o impacto do encontro futuro com “São Paulo”/”cantarolei Caitano ,talvez para desvalorizar a “imensidão”e neste preito de homenagem à “imensidão ” projecta com simplicidade afectiva “todas as canções “….”a cidade …tanto amou ” O segundo parágrafo sabiamente introduzido pelo ” buongiorno” da sua “bambina ” a servir de cicerone ao ponto do narrador se sentir “pequena”creio perante a “imensidão”da cidade São Paulo .
Um final apoteótico pelo encontro com “vaidades humanas”/ausência de poesia” /”os desiguais “tão”desiguais “a multidão apressada”tão desvairada”e repentinamente o narrador bem presentificado nas formas verbais da primeira pessoa altera o rumo da visita marcando a presença da Biblioteca de Mário de Andrade. Um encanto deu uma visão diferente da cidade :,medos,desilusão,,desesperança, sede de fé … Apenas os homens -o artigo definido no plural intensifica a carga negativa imagem da “imensidão “da cidade de São Paulo . Gostei de lê-la Mariana – Bem haja pela partilha. Maria deste lado de um mar longínquo
CurtirCurtido por 1 pessoa
Muito Obrigada, Maria! Abraço carinhoso desde o Brasil ❤
CurtirCurtir
Eu adoro essa sua viagem a minha cidade e a de Mário, que eu não estou certa se é a São Paulo que está por aí. Talvez seja. É a sua Sampa. rs
CurtirCurtido por 1 pessoa
para mim a sua cidade é tão sua quanto do Mario. A conheci sob teu olhar e é assim que a guardo em mim. Grazie!
CurtirCurtir