Crônicas · Das palavras das cartas · Ensaios Intimistas · Literatura · Outubro Literário

O caís do meu quintal

Bambina mia,

Peguei o mapa que sinaliza a minha cidade e as lembranças me trouxeram uma menina de tranças que sempre foram feitas pela minha bá e pela mãe. A bússola que meu pai sempre carregava no bolso fazia com que ele não perdesse o caminho – ele sempre repetia essa frase, como se com isso reafirmasse um compromisso feito em algum momento e alguns diários da infância sempre me mostram a menina que fui e se transformou na mulher que sou agora.

Arrancar a folha de setembro do calendário é sempre um rito tardio por aqui também. O moço daqui precisa de um tempo para realinhar os dias marcados para a contagem das horas extras e o dia da troca do gás. O tempo teima em se acumular nas paredes antes que tenhamos a coragem de lhe dar um novo nome. Mas agora é outubro. Um outubro-outro, como você bem disse, que chega trazendo Borges pela mão e nos sentando à mesa.

Enquanto você caminha desorientada pelas ruas de concreto de São Paulo, tentando em vão explodir o pensamento, eu me sento aqui no quintal. O café esfria no ritmo em que o dia se organiza. Olho para o horizonte que você espiava da janela com sua luneta de menina e me pergunto: onde vão parar os navios que cruzam o horizonte do nosso caderno vermelho?

A sua agulha imantada aponta para Borges; a minha, inevitavelmente, aponta para o reflexo que a sua escrita deixa no meu cais. No conto “O Outro”, as duas versões do escritor se encontram em latitudes distantes — uma em Boston, outra em Genebra —, separadas por anos de memórias e esquecimentos. Nós duas nos encontramos hoje entre a sua pressa urbana e o meu silêncio de quintal. O mar da sua infância, com o cheiro salgado e o arrulho das gaivotas, chega até aqui como um eco manso. Quase chega até mim o cheiro de maresia. Lembrei-me de que o curso do oceano nunca chega ao rio. É sempre o contrário e quando vi o mar pela primeira vez todas as coisas que você me disse sobre ele vieram como ondas em meu coração.

Você diz que falhou na missão de aprender a não-pensar. Que bom. Se o pensamento parasse, o que seria da nossa alquimia? São Paulo pode ser esse seu ponto vermelho de experimentos, mas a literatura é o mapa inteiro. É o território invisível onde a menina do telhado e a mulher que escreve hoje dividem o mesmo banco de praça. Aqui, as tranças deram lugar ao cabelo curto – embranqueceu – e quem as fazia voam em algum ponto além do que se pode ver. Mas confesso que sinto.

Que outubro seja manso, sim. Repito com você três vezes, feito desejo cigano. Mas se o desejo falhar e o mundo continuar barulhento aí fora, saiba que o lado de cá continua sendo porto. A agulha mudou de direção, o mês virou, mas a nossa linha de memória permanece intacta. Entremos, pois, no labirinto. Te dou a mão. Vem comigo?

Bacio,

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Literatura · Lunna Guedes

Os Envelopes de Setembro e o Sorriso Aquarelável

Setembro se despede na folha do calendário deixando na boca o gosto bom das colheitas maduras. Olhar para as trinta páginas escritas ao longo deste mês é compreender que o tempo não corre em vão quando escolhemos deixar as palavras soltas para além dos envelopes coloridos. Ouço o balanço final sobre os dias que ganharam corda rápido demais, sobre o carinho que cruzou o oceano e sobre o modo como convertemos os nossos diálogos em envelopes de afetos, e imediatamente sinto o coração pulsar na mesma frequência mansa de quem sabe que ganhou um abraço, mesmo que de longe.

Nossa literatura partilhou da mesma mesa durante estas quatro semanas de Primavera Literária. A estação e seu equinócio transformaram as palavras em brotos de flores por aí, abrindo caminhos de claridade enquanto estendíamos pontes que atravessaram estados e fusos horários. Dividir o sal com os mestres, resgatar o erotismo esquecido de Gilka ou inventar missivas fictícias para as personagens que nos habitam a derme foram rituais que reavivaram os meus próprios ontens e me devolveram à verdade do meu chão. Abri um sorriso aqui ao imaginar o seu sorriso aquarelável. Uma brisa suave soprou pelo quintal.

Quando os pássaros organizam os seus últimos sobrevoos deste mês e o relógio da sala dita o compasso calmo das horas, fecho este ciclo com a certeza mansa de quem soube ser árvore. Grazie, bambina, por partilhar o mar nada calmo da sua escrita com o meu quintal. O mês termina, os ponteiros se acertam, mas os laços que costuramos com o fio do afeto continuam intactos, pulsando no centro de cada linha que ainda vamos inventar. É logo ali. Outubro já é amanhã.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

As Margens Compartilhadas e as Marés da Escrita

Mergulhar nas águas de uma ficção para habitar outras paisagens é o único refúgio possível para quem traz o peito cheio de ausências e nostalgias. Compreendo perfeitamente essa infância de portas fechadas e cantos silenciosos, onde o objeto livro se apresentava como o único território seguro diante do barulho do mundo lá fora. Quando você relata esse modo visceral de se apoderar das páginas pelo tato, rascunhando impressões nas margens e brigando com as personagens, vejo o espelho exato de um rito que também me fundou como leitora antes de me converter em escritora.

Nossa literatura é feita desse mar literário nada calmo, mas a beleza do nosso percurso está justamente no encontro dessas correntes. Passamos anos devorando os volumes alheios, misturando tudo o que provamos, até que a urgência de colocar a nossa própria carne no papel nos fez lançar os nossos próprios barcos. É bonito perceber que, ao compartilharmos essas travessias diárias aqui, atravessando quintais, criamos um cais compartilhado. Ler os seus abismos e responder a eles com os meus pedaços de terra não é apenas um exercício de estilo; é cultivar uma comunidade de afetos onde as solidões se reconhecem e se acolhem mansas.

Os livros que se acumulam nas nossas prateleiras guardam histórias que vão muito além dos enredos impressos. Alguns são velhos companheiros que trazem as marcas dos nossos ontens; outros, recém-chegados, esperam o instante exato em que os nossos dedos vão decifrar o seu mistério. Quando abrimos esse lugar de diálogo, permitimos que outras pessoas também naveguem conosco, transformando o ato solitário de ler em uma ponte estendida sobre a distância de estados e fusos horários.

O meu passado aterrissa no seu futuro e, enquanto coloco a água para ferver para um chá e acompanho o movimento sutil da paisagem que se recolhe, celebro a caligrafia que nos uniu na mesma margem. Sigo firme no meu quadrante, segurando a minha linha de afeto e grata por partilhar esse oceano de palavras com você.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

A Engrenagem da Memória e as Heranças do Chão

Bambina mia,

Aconteceu um silêncio insano nessa manhã de setembro aqui, e o tique-taque do relógio da sala me fez pensar no carrilhão do tuo nonno e naquele setembro que desfez a casa. Imediatamente me pego espiando as heranças intangíveis que os meus próprios mais velhos deixaram plantadas na minha derme. Existe uma contagem de tempo que não obedece ao zunido dos relógios dos homens ou ao calendário oficial das estações. Nosso compasso mais verdadeiro é aquele que ressoa no lado de dentro, ativado pelo perfume de um cômodo antigo, pelo calor de um prato de caldo no inverno da alma ou pela silhueta de quem um dia nos ensinou a esticar os braços em direção ao invisível.

Quando você compartilha comigo a canção que está ouvindo, traz a trilha sonora para o meu quintal. Quase sempre ela me atinge na mesma emoção que a tua. E quando falamos de chás, do nonno, da nonna, da lua, é como se eu estivesse lá… Olhos vidrados nas suas histórias e momentos. As tuas memórias reavivam as minhas. Lembro-me dos rituais da fazenda, das vozes que cantavam versos prediletos na soleira e das trocas silenciosas de folhas secas que hoje repousam esquecidas no fundo dos meus volumes prediletos de poesia. Nossos livros favoritos guardam esses encontros interrompidos, essas conversas sobre autores que não houve tempo de concluir, mas que permanecem vibrando em cada página que folheamos.

Não me perco das datas de vida e morte porque sei que a literatura é o território sagrado onde os ontens colecionáveis se recusam a apagar. Uma porção de nós se despede a cada porta que se fecha e a cada plataforma de estação que se esvazia, mas a palavra escrita opera a sua própria alquimia de ressurreição. Toda vez que a saudade acena na caligrafia sutil dos dias, o cenário se reinventa com cores conhecidas, provando que nunca estamos sós enquanto houver herança de afeto para segurar o horizonte.

Nesta manhã de silêncio que só é rompido pelo tique-taque do relógio da sala e pelo chamado do bem-te-vi que pede a comida de todo dia, enquanto preparo o chá e observo a paisagem se acomodar, acolho o eco de tudo o que foi bom e permaneceu. Me junto às suas lembranças e ao seu renascimento cada vez que a palavra nonno te abraça.

Bacio
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

A Urgência das Flores e a Saudade nos Dias.

Rose,

Eu vi sua mensagem e fiquei dias pensando sobre essas coisas do tempo e a correria do dia a dia. É verdade: há uma pressa mansa nas coisas da terra que nenhuma engrenagem dos homens consegue imitar. As plantas não olham o relógio para saber a hora de romper o botão; elas simplesmente respondem a um chamado antigo, uma urgência oculta que transforma o galho seco em manifesto de cor em um piscar de olhos. Ouço os ensaios sobre a efemeridade do tempo e a necessidade de desabrochar antes que o vento da primavera mude o rumo das coisas, e imediatamente compreendo que a nossa vida é esse eterno ensaio de urgências guardadas.

O domingo passa por aqui desenhando sombras compridas nas paredes e lembrando que as horas são feitas de fumaça. Se o mundo corre para acumular certezas, a maturidade me ensina a saborear os minutos como quem bebe um café morno, sem a obrigação de dar respostas aos ruídos lá fora. A efemeridade não me assusta; ela me encanta. Saber que a beleza de uma pétala de ipê reside justamente no fato de que ela vai cair e virar tapete na terra é o que dá dignidade ao ciclo. O tempo passa rápido, sim, mas deixa os nossos ontens assentados com firmeza na memória.

A nossa caligrafia também carrega essa urgência bonita de florescer. Escrever é o jeito que encontramos de prender o instante fugaz na página impressa, transformando o sopro do vento em narrativa viva. O sabiá aqui amanheceu cantando. Costumo dizer que ele pede chuva com seu canto dolente. É quase poesia, Rose, e ela acontece no recolhimento manso, na curva de uma consoante que soube reter o impacto de um afeto ou no chilreio do pássaro que anuncia que o dia cumpriu o seu compromisso com a harmonia.

Fui contar os dias que a gente não se vê e desisti no meio do calendário. A gente não precisa deles. Foi como eu disse para você: mesmo que a gente demore para se ver, quando isso acontecer de novo, será sempre como se tivéssemos nos visto há pouco. O que eu sei é que, mesmo de longe, te acalento no meu coração e sei que há momentos em que é hora de acolher o silêncio que se instala na casa. Mas, quando penso em você, é a sua risada que vem na minha memória primeiro. Venha logo, já estou pronta para o abraço.

Mariana Gouveia

Literatura · Lunna Guedes

A Arte de Conjugar o Verbo Envelhecer

De repente, percebi que os dias passaram a correr mais rapidamente e, ao olhar no espelho, vi tantas de mim por trás dos cabelos brancos. Sempre quis envelhecer e caber na sabedoria que fui aprendendo com pessoas que me ensinavam o caminho. Na minha infância e em grande parte da adolescência, eu me encantava com os fios brancos dos mais velhos. A minha Bá tinha os cabelos que pareciam flocos de algodão ou a paina com que enchíamos os travesseiros. Conjugar o verbo envelhecer com a altivez de quem coleciona primaveras e não lamentos é uma arte que os tempos de agora parecem ter esquecido. Há uma corrida ruidosa para frear a idade do corpo, um esmero vão para riscar as linhas da pele, como se a maturidade fosse um espaço de desconforto e não o território sagrado onde a nossa história finalmente ganha nitidez. Sorrio ao perceber que o compasso lento da natureza sempre foi o meu melhor mestre sobre a passagem das estações.

A vida me ensina que o tempo não destrói; ele assenta. O ipê que perde as suas flores amarelas e adormece até o próximo ciclo não está morrendo; está ganhando idade com a dignidade de quem sabe que cada ruga na madeira é o registro de um vento que foi suportado. Não nascemos para manter o viço estático das plantas artificiais; nascemos para ver a semente virar fruto, aceitando que a gravidade que puxa as folhas para o chão é a mesma que nos finca as raízes com firmeza na terra. Acho bonita a altivez das mulheres que, feito a faceira senhora dos cabelos brancos, decidem viver com as horas inteiras, sem pedir licença aos julgamentos alheios. Acho que me pareço com ela nessa questão.

Logo que deixei de pintar os cabelos, recebi muitas críticas, e o que me chocou é que grande parte delas veio de mulheres que ligavam meus cabelos brancos a um desleixo. Segui em frente e hoje meus cabelos estão quase totalmente brancos. Penso neles como um texto sendo maturado para caber num papel. A nossa literatura também exige essa maturação mansa. O desabrochar de um novo texto não acontece na pressa das frases prontas; ele depende dos nossos ontens acumulados, do silêncio que digere as leituras antigas e da coragem de colocar a nossa própria carne nas consoantes e vogais. O tempo que cabe nas minhas palavras sabe que envelhecer no papel é purificar a caligrafia, cortando os excessos para que permaneça apenas a essência daquilo que rasga e permanece.

Celebro os anos que se acumulam na minha própria árvore. Não tenho medo do tempo dos homens e de suas medidas exatas. Prefiro a certeza mansa de quem sabe que ganhar idade, afinal, é o nosso jeito mais bonito de espalhar pólen pelo mundo, garantindo que a nossa voz continue viva na memória do chão que nos acolhe.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

A Colecionadora de Ontens e o voo de despedida

Mãe,

Mãe,

Hoje completam-se quarenta e quatro anos desde o dia em que você decidiu virar passarinho e migrar para além do horizonte. Setembro sempre me devolve a essa contagem mansa de tempo, uma matemática de ausência que aprendi a domesticar através da caligrafia do afeto. Ouço os relatos sobre as pessoas que acumulam casas por cinquenta anos e empilham objetos em gavetas, e imediatamente olho para as minhas próprias mãos: não herdei a capacidade de acumular moedas ou selos, mas guardo um sem-fim de palavras e um baú repleto de ontens que divido com o silêncio do meu lugar.

Ao caminhar pelas ruas, às vezes me pego repetindo aquele velho costume de conferir se as silhuetas antigas continuam onde deveriam estar. Dá uma angústia perceber que passei com você em diversas ruas e até o hospital onde você buscava a cura também foi o último lugar onde seu passo alçou voo. Mas quando fecho os olhos, as paredes do nosso território na fazenda reaparecem inteiras. Lembro-me da alquimia do tacho de cobre e da fumaça mansa que subia do fogão a lenha. Você não deixou heranças de alvenaria ou caixas pesadas para os herdeiros limparem; deixou em mim essa mania bonita de conversar com as coisas do mato e de buscar a poesia que nos salva das dores do mundo.

Há quem colecione fracassos ou amores impossíveis, suspendendo lamentos pelas esquinas dos dias. Eu escolhi colecionar a sua permanência em tudo o que escrevo. O seu voo, mãe, não me deixou vazia; converteu o meu próprio corpo em casa de memória. Cada ciclo que se renova no quintal, cada flor que desabrocha e cumpre o seu compromisso com a terra, traz um sopro da sua energia. Sigo sem me importar com o tempo dos homens e com as suas medidas exatas. Prefiro a maior precisão dos crepúsculos, quando la luz muda de tom e me avisa que nunca estamos sós enquanto houver escrita para vigiar o horizonte.

Preparo o meu chá neste amanhecer lento, enquanto os pássaros organizam os seus primeiros cantos e o sol ensaia rasgar a poeira do dia. Minha escrita atravessa a distância de mais um ano para te dizer que o chão onde finquei os meus pés continua lavado de céu. Corto o excesso das frases, limpo as frestas invisíveis da saudade e permaneço aqui, de pés descalços, honrando a árvore da qual sou galho. Que o seu voo continue alto, mãe, e que o seu rastro de luz permaneça alimentando as minhas consoantes e vogais.

Com o amor de sempre,
Mariana Gouveia

Literatura · Scenarium Livros Artesanais

Os Versos que Ninguém Cala

Ouço o eco do rugido de Gilka Machado, resgatado entre goles de café e fitas de cetim, e imediatamente sinto um arrepio na pele ao reconhecer a mesma urgência que move as escritoras que recusam o rótulo da passividade. Chamar de “tolos sentimentos” aquilo que incendeia o pensamento de uma mulher é a velha artimanha dos homens que sempre temeram a soberania de uma estrofe que não pede licença para existir. A mulher proibida desde sempre ainda existe escondida em tantas de nós.

A história literária tentou empacotar a liberdade erótica de Gilka sob o manto do esquecimento, mas a escrita territorial nos ensina a resgatar os nossos próprios manifestos. Não nascemos para rabiscar rimas precárias em cadernos para ficarem guardados em baús ou fundos de gavetas; nascemos para rasgar os verbos mais ousados e mostrar as nossas verdades através do tempo. Quando uma mulher decide publicar os seus abismos, ela quebra uma barreira invisível, permitindo que a caligrafia sutil das suas estações rompa o chão com a força de uma correnteza ancestral.

Acho lamentável a mesquinharia de uma sociedade contemporânea que caminha na contramão do progresso, demonstrando horror diante da nudez das palavras que Gilka já versava no século passado. As gavetas da história estão cheias de diários-secretos que sangraram em silêncio. Por isso, costurar cadernos e endereçar cartas às nossas antepassadas é mais do que um ritual afetivo; é um ato de resistência poética, um jeito de garantir que os sussurros de ontem continuem sendo o murmúrio potente que desequilibra o presente.

Com a xícara de café na mão, celebro as atrevidas que nos abriram as portas. Não precisamos da validação de ninguém para saber que a nossa escrita guarda a dignidade da semente. Que a poesia de Gilka continue alimentando as nossas palavras e que o verso inédito, imprevisto, permaneça sendo o nosso esconderijo mais sagrado contra a dureza dos dias.

Mariana Gouveia

Afetos · Desvios para atravessar os quintais · Literatura · Lunna Guedes

É preciso respirar fundo para ser flor dentro do dia seguinte.

A caligrafia do encerramento: quando a última linha encontra repouso entre as sementes do chão.

Quando fecho o livro depois da última página, a palavra fim ecoa em mim por um tempo. Em alguns, eu quero continuar a história e a pergunta insiste: e agora, serão felizes para sempre? O que será que acontece depois que a página é fechada? Enfrentar a última linha de uma narrativa exige uma coragem que nem sempre os dicionários sabem explicar. Há quem feche o volume e o leva imediatamente à prateleira, buscando o próximo enredo como quem muda de calçada sem olhar para trás. Mas a escrita, quando nos habita de verdade, recusa a pressa contemporânea; ela exige esse tempo de pouso, esse exercício de saborear e digerir as alegrias e decepções das personagens que acabaram de partilhar a nossa mesa. O fim nunca é um vazio completo; é o território exato onde o rascunho-promessa desabrocha e começa a existir por conta própria.

Aqui no meu lugar, acontece também quando as flores se fecham depois de cumprirem o rito de desabrocharem. Assim como compreendo o peso dos silêncios que ficam guardados no lado de dentro das portas que escolhemos fechar, no jardim, recolher as flores murchas também incomoda. É um adeus para além do que se vê. Cada ciclo que se encerra nos dias funciona como uma semente que se rompe na terra, tão logo uma morre. É nesse espaço suspenso, logo após o ponto final, que uma nova voz desperta dentro de nós — mais inteira, lavada de céu e ciente de que a literatura é esse salto sem paraquedas onde aceitamos os nossos próprios abismos. E a terra espera o novo broto, a nova flor.

É profundo o eco de um livro que permanece vibrando na derme muito depois de sua leitura concluída. Nossos volumes prediletos são espelhos das tramas que escolhemos desbravar e, quando eles se colam às paredes da nossa memória, a nossa caligrafia também ganha novas dobras. Não precisamos fugir do caminho ou recomeçar o texto para evitar o desfecho; o compasso lento do mato nos ensina que a queda das pétalas é o que permite ao fruto nascer no tempo certo de cada ciclo.

Quando a claridade mansa doura os cantos do quintal e o relógio da sala dita o compasso calmo das horas, acolho o silêncio que se instala após a última palavra escrita. O homem passa e falha, as plantas nascem e morrem, mas a escrita territorial permanece, rompendo o chão do tempo. Vamos até o fim, aceitando os abalos do peito, os arrepios na pele, porque sabemos que depois da última linha há sempre um quintal inteiro esperando para florescer.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

O Sopro do Equinócio e as Duas Faces do Chão

Há um instante secreto no coração de setembro em que o universo decide suspender os pratos da balança. O dia e a noite se olham de frente, com o mesmo peso e a mesma exatidão de minutos, lembrando-nos de que a vida é feita dessa eterna vizinhança entre a luz e o recolhimento. Ouço o ensaio sobre os ventos ancestrais que separam o céu e a terra para que o mundo possa respirar, e imediatamente percebo que a nossa escrita também é filha desse movimento — um rodopio manso entre a memória do que já foi semente e a urgência do que precisa virar fruto. Nesse momento, só consigo me lembrar da canção que se chama Sol de Primavera.

Aqui no meu lugar, o equinócio se anuncia na própria textura do ar. O calorão do dia, que estica o tempo dos homens além do suportável, cede espaço para a brisa que chega sem pedir licença quando o sol mergulha atrás do telhado vizinho. As duas faces da existência se ajeitam na madeira da mesa. Se para alguns setembro traz a melancolia das chuvas antigas, a escritora que sou prefere a mística do recomeço que os cadernos novos da infância prometiam. Abrir uma página branca nesta nova estação é resgatar aquele ritual sagrado das papelarias, onde a caixa de lápis de cor continha todas as respostas para os nossos inventos. Devo pintar um jardim nessa estação?

Acho bonita a fidelidade da terra, que nunca se esquece do compromisso de acertar os seus próprios ponteiros, à revelia das nossas eufóricas correrias urbanas. Estico os braços no quintal e percebo como o corpo acompanha a mudança das horas-cheias. A literatura, afinal, é o nosso próprio sopro de vento: aquilo que nos ergue para que possamos enxergar o horizonte e, ao mesmo tempo, nos finca as raízes no chão que nos acolhe.

Ao cair da tarde, enquanto os pássaros saboreiam o néctar das flores e o silêncio ganha o mesmo tamanho da claridade, preparo o meu chá e deixo que os versos ganhem vida. Uma nova estação pede passagem na caligrafia sutil dos dias. Que a dança do pólen cumpra o seu destino enquanto, no meu canto, sigo costurando as metades da vida com o fio do afeto.

Mariana Gouveia