Aorendi com Lunna a encontrar personagens. Na padaria, a senhora que empacota os pães tem o olho qualquer de tristeza. O sorriso sai pálido quando me dirige um bom dia. No ponto de ônibus, o senhor que sempre espera a chegada do ônibus debaixo de uma árvore na canteiro central atiça minha curiosidade. Há também o Fernando – esse, se aprensentou, beija o dorso de minha mão com delicadeza, faz perguntas sobre tudo e começa a contar suas aventuras na escola para crianças atípicas. Trabalha a noite em um trailer que vende cachorro quente. Já descobri que o trailer é de sua tia e que atende bem as mesas. Há algumas peculiaridades no Fernando. Ele é especial, o pai é garçom-cantor e a mãe costureira. O irmão Daniel é mais velho e é especial também. Anda com uma espada feita de garrafa pet e quer salvar o mundo. Eu os encontro duas vezes por semana, no ponto de ônibus e em dez-quinze minutos sei o que se passou nos dias dos dois.
Daniel esquece meu nome todas as vezes e me faz lembrar de personagem de um filme feita por Drew Barrymore. Então, repito meu nome como se fosse a primeira vez que nos vemos e ele repete: o prazer, é meu, meu nome é Daniel... Beija o dorso de minha mão e faz reverências. Acho que aprendi a demorar meu olhar sobre o mundo. E aprendi também que escrever nunca foi um rito de isolamento; é, antes de tudo, o exercício de esbarrar no desconhecido e permitir que as personagens encontrem abrigo no avesso das nossas próprias linhas. Cada fisionomia que cruza o nosso caminho, cada horizonte distante que vislumbramos na pressa dos dias, traz consigo um molde invisível. A loucura e a beleza da literatura residem justamente aí: na paciência de nos debruçarmos sobre esses moldes, adequando primeiro o corpo e, só depois, a alma-memória na margem limpa da página.
Conhecer de verdade o humano que caminha ao nosso lado — ou o personagem que nasce na urgência da tinta — exige um despir-se de certezas. Muitas vezes partilhamos anos de vivências com estranhos de quem nada sabemos, simplesmente porque nem sempre estamos disponíveis para o silêncio que a escuta requer. Criar exige esse recuo: esquecer-se de si em algum canto para reaprender os passos, os gestos e a fala a partir de novos mapas geográficos e afetivos. É um rito de quase renascimento, onde o que é do outro se entranha em nossos músculos e nervos, enquanto o que é nosso permanece intacto, preservado na raiz da costura. Fernando pergunta sobre minha escrita. Daniel repete meu nome e o senhor que não sei o nome espera o ônibus debaixo da árvore no canteiro central, é uma coisa que já se transformou em ritual. Daniel, o mais velho, tem a pureza de uma criança. Fernando tem a malícia de um adolescente, se bem que na idade cronológica já ultrapassaram a barreira dos trinta.
Vejo nos dois irmãos algumas coisas que detalho em notas mentais. Um adora música e tem fones de ouvido que mudam de cor de acordo com a roupa do dia. Penso que ele deve ter uma coleção inteira deles ou uma paleta que define a cor da roupa do dia. Já o outro, tem uma espada diferente aa cada dia, mas sempre de garrafa pet. Vejo neles um tempo que avança, histórias que devem ser contadas, mas sabendo que as melhores são aquelas que, primeiro, estranham-se na alma para, depois, fazerem morada definitiva em nós.
Mariana Gouveia
