Cuiabá, onde a luz dourada de novembro estende a sua toalha sobre o chão e a alma se farta de livros e afetos,
Bambina mia,
Quando recebi o tema de novembro lembrei-me de tantas coisas da minha infância. Vez ou outra, minha mãe nos levava para além dos campos para um piquenique. Para além do banquete entre pães, doces e frutas, a gente aprendia coisas da natureza. Hoje, para amenizar o calor escaldante, ajeitei a toalha, preparei as frutas e debrucei-me nas letras dos livros ao meu alcance e as lembranaças.
Sabe, bambina, tirando a parte da minha infância, acho que não vi muitos piqueniques por aí. Quando me mudei para Cuiabá, a maioria da população vivia na beira dos rios que cercam a cidade. Mas, eu via muito as pessoas em bancos de praça com seus livros. Hoje, já não vejo mais. No ônibus, me animei dia desses, com algumas estudantes lendo livros. Enquanto absorvo o chá azul e saboreio sua escrita em Catarina Voltou a escrever penso que um dia, quem sabe, poderia convidá-las para um piquenique no meu quintal.
As folhas do ipê começaram a cair e embora seja primavera com todo jeito de verão, o ipê não floresce em novembro. Mas, aqui, meu quintal tem um calendário próprio, avesso ao calendário dos homens e me senti dentro de um poema de Manoel de Barros. Li alguns textos em voz alta, falei com você por mensagem e aspirei o vento que atravessou meu quintal.
A luz dourada do final da tarde parece pedir licença para deitar-se sobre a toalha xadrez. É quando o tempo ganha aquela coloração mansa de sol poente e as folhas secas caem ao redor, espalhando pequenos fragmentos de outra estação pela mesa. O meu livro ganha destaque ao lado da cesta de frutas e de uma caneca cheia de café com leite gelado, para refrescar um pouco. Ler sob essa luz, tateando a textura do papel enquanto o dia se despede devagar, nos lembra de que cada ciclo tem a sua beleza e a sua hora exata de arremate e que desvios existem até nas lembranças da infância.
Pensando no que falamos sobre a toalha xadrez lembrar o piquenique fui pesquisar e achei engraçado que a toalha xadrez se tornou um símbolo visual por patricidade. O tecido era mais barato, fácil de lavar, influência de filmes e programas de tvs, e uso da mídia e publicidade, enfim, a tolaha xadrez se transformou em um ícone cultural. Mas, eu penso apenas que retrata a singeleza do encontro, assim como um pedaço de bolo, uma xícara de café, os livros especiais e as frutas.
Lembro-me dos risos, dos doces e bolos e pães, mas não da toalha xadrez. Lembro-me de uma colcha de retalhos, onde depois de comermos e mergulhamos no rio minha irmã caçula dormia alheia aos outros irmãos que pulavam na água. Lembro-me também da lição de casa que seria escrever sobre tudo que vivemos naquele dia. No fim do dia, voltávamos para casa com as cetas cheias de folhas, ervas, flores e pedrinhas coloridas, além de tantas histórias para contar.
O projeto de hoje me trouxe para a caixa de memórias de um tempo que parece além do que posso lembrar… enquanto escolhia os livros para as fotografias eu ouvi o vento ecoar saudades e revisitei a menina que fui e me transformou na mulher que sou. Grazie por me permitir isso.
Até o próximo amanhecer,
Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais
| Claudia Leonardi – Heloísa Helena Garcia – Lunna Guedes – Obdulio Nuñes Ortega — Silvana Lopes |





