Afetos · Das palavras das cartas · O calendário do novelo

A Cartografia dos Aromas Invisíveis

Cuiabá, onde o cheiro da terra espera os pingos da chuva e a alma recolhe fragrâncias…
Helô,

Enquanto eu criava notas mentais para te escrever, cortei o milho para o angu do almoço. O cheiro do milho verde me levou para os aromas da roça com as espigas em formação da boneca, antes de ficar pronto para a colheita. O aroma do café fresco que teima em escapar pela fresta da porta, o cheiro rústico da terra que antecipa a tempestade e o toque amargo do papel guardado funcionam como bússolas secretas para a escrita. O aroma dos temperos se espalhando cozinha afora me fez pensar no seu questionamento sobre o cheiro da coroa imperial — a flor que brotou aqui, no meu quintal — e fui buscar na essência da alma para onde essa fragrância me leva. Não só essa, mas as outras essências e cheiros do meu lugar.

O girassol que nasce aqui tem cheiro de mel… exala pela manhã cedinho e algumas abelhinhas minúsculas enchem suas perninhas com o pólen e voam para além do muro.

A Datura — uma flor nova e fascinante em seu debulhar de cores entre o branco-marfim e o lilás — desperta com um refrescante toque de orvalho da manhã, raminhos de hortelã e bergamota (que eu chamo de mexerica ou ponkã), como a primeira lufada do ar fresco do amanhecer. Sua característica hipnótica, em forma de trombeta, se desenrola em uma suave névoa, criando um sonho etéreo e aquático que ao mesmo tempo acalma e inquieta. Finalmente, a fragrância se transforma em uma base sólida de cedro, musgo exuberante e âmbar salgado, deixando um traço persistente de almíscar botânico que parece sobrenatural, mas reconfortante. E há perfume extraído da flor. Vê se pode! Vou até pedir esse perfume por desacato à flor.

Algumas flores do meu lugar não possuem cheiro. Atraem o Chiquinho — meu beija-flor — pela beleza e o néctar, como a lanterna chinesa, minha preferida, que ilumina o quintal com a misticidade de suas cores. Dizem que tem o poder de iluminar caminhos e realizar desejos, tal qual as lanternas feitas na China, durante o festival que celebra o ano novo lunar. Tenho sorte de ter essa flor aqui, no meu quintal, o ano todo.

Sabe, Helô, falar sobre a flor que alguns chamam de Coroa Imperial, outros de lírio de fogo ou lírio de sangue, é abrir um pote de lembranças. Parece uma bola de Natal com seu vermelho exuberante. É como se a noite de Natal acontecesse em pleno dia, em um dia-tarde de novembro no meu quintal. Tem um cheiro lírico — quase poético, eu diria — e lembra mesmo a noite natalina com frutas vermelhas, melão, melancia e tangerina. Há algo leve de patchouli e almíscar. Encontrei a fragrância que senti no novo Floratta Blue — olha só! — ao cheirar as bolas vermelhas aqui. Alguns aromas que sinto por aqui talvez fujam dos que as outras pessoas sentem, ou talvez eles os sintam de outra maneira. O cheiro da grama cortada, da erva daninha sendo arrancada, do musgo sendo tocado na parede ao lado do que era o canil dos cães de outrora, e do petricor — que é o cheiro da terra recebendo os pingos da chuva. Eu teria muitos outros aromas para te explicar, mas deixo meu abraço de banho recém-tomado com o cheiro do sabonete de alecrim.

Beijo com carinho,
Mariana Gouveia

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