Das palavras das cartas · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #7 – Casulo: O tempo que mora nos livros

Ler seu texto foi como abrir, eu também, um baú de silêncios guardados. Enquanto a moça do tempo prevê o retorno do frio para os seus lados, por aqui o vento de agosto continua a levantar a poeira seca do quintal quando varro as folhas, exigindo essa paciência mansa que só a lentidão das estações nos ensina a ter. Há dias em que os pés se recusam a caminhar pelo mundo lá fora porque o verdadeiro movimento está acontecendo do lado de dentro, no avesso das horas.

Comovi-me com a sua lembrança de Ana Luísa Amaral. Você tem toda razão: poetas não morrem, eles apenas mudam de ilha. Deixam as páginas amarelecidas como portos seguros para os nossos próprios barcos de papel. Esse desencontro cronológico de que você fala — estar sempre adiantada ou atrasada para os compromissos — é, na verdade, a prova de que a sua escrita habita o tempo da delicadeza, e não o tique-taque rígido dos relógios comuns.

O Universo – ah, o universo – sabe o que faz ao cruzar os mapas dos iguais, dos que se acolhem-escolhem. Receber um livro sem dedicatórias, preenchido apenas com a música pura dos versos, é o excesso mais perfeito da generosidade. É o texto bastando a si mesmo. Também tenho os meus “ontens” guardados em páginas que folheio devagar, sentindo o peso do que foi e o eco do que permanece. É preciso recuar, fechar as frestas e silenciar para conseguir segurar um cuore nas mãos sem que ele se quebre. Mas devo confessar que as dedicatórias nos Lua de Papel, com sua caligrafia ainda me emociona.

Que a sua Lua de Papel continue a iluminar as noites deste inverno esquisito. Beba o seu café sem pressa. Eu sigo daqui, no meu canto, tateando minhas próprias sementes e sabendo que, na poesia, nunca estamos realmente sós ou atrasadas. Sempre nos encontramos no meio do caminho ou numa esquina qualquer.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6

BEDA #6 | Projeto Fotográfico 6 on 6: Ponto de Vista – Pequenos nós impossíveis de desatar.

Bambina mia,

Olhar para o tema que você propôs para este Agosto me fez desacelerar o passo no meio do jardim. Há pequenos nós impossíveis de desatar que não nascem para ser amarras ou prisões, mas casulos onde a vida se enrola antes de ganhar asas. Olhar para essa curva perfeita do caule é ver o tempo se concentrando em si mesmo, esperando o momento exato em que até a delicadeza de uma borboleta decide pousar e testemunhar o que parece não ter fim. Há pontos de vista que já nasce poesia.

Sabe, bambina, sei que existem dias em que os nós não apenas barram o nosso caminho; eles nos envolvem e nos moldam por inteiro. Há qualquer coisa de muito visceral em perceber como ficamos, às vezes, encurraladas nas dobras que o tempo dá. Olhar para essa pequena joaninha guardada dentro da curva exata da gavinha é tatear o ponto de vista de quem aprendeu a habitar os próprios apertos, tentando decifrar se o laço nos protege ou nos aprisiona.

Nesses momentos de impasse, a engenharia da natureza nos desafia com sua gravidade e vertigem. Viver e escrever também é isso: ver a vida se enroscar de forma tão compacta quanto uma mola verde, nos deixando de ponta-cabeça diante do mundo. Resta-nos segurar firme na última curva e, feito esse pequeno besouro, encarar o abismo refletindo a luz com o nosso melhor brilho dourado.

Felizmente, há nós que, em vez de nos prender ao chão, nos suspendem contra o azul infinito. Quando tiramos os nossos impasses da sombra dos pensamentos e os deixamos dourar ao sol, a atmosfera muda de figura. O horizonte ao fundo se revela limpo, amplo e sem barreiras, mostrando que estar atada a uma linha não nos impede de encarar a imensidão do dia com as asas prontas para o voo.

No fim das contas, descobrimos que os nós mais difíceis de desatar são aqueles que escolhem o formato exato de um coração para habitar. São os nós que nascem do afeto, do cuidado e das nossas memórias. Eles seguram o peso do mundo em forma de uma gota transparente — uma lágrima suspensa no meio do jardim —, mas não paralisam; eles apenas abraçam e protegem o que está prestes a florescer.

Por isso, bambina, acho que os nós impossíveis são os ganchos exatos onde a nossa escrita e a nossa amizade se ancoram. Veja como esse aperto verde encontrou o seu espelho perfeito em duas asas que se abrem juntas, em uma simetria linda de cumplicidade. Que a gente continue assim, dividindo o mesmo pouso e os mesmos temas complexos, ocupando os espaços fechados sem pressa de desatar, transformando cada laço no nosso horizonte mais bonito.

Bacio,
Mariana.

Participam comigo nesse projeto:
Claudia Leonardi – Lunna Guedes – Obdulio Nunes Ortega – Silvana Lopes

Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #5 – Casulo: Onde deságuam as palavras

O céu amanhece estranho. As nuvens se aglomeram como se fosse chover, mas a moça do tempo me tirou a esperança. O tempo seco predomina em meu lugar. Fiquei pensando em como você entende e veste a poesia. Eu, uma escrevinhadora de linhas – como você mesma disse – não sei dizer como um verso surge. Mesmo porque o verso não nasce de uma fórmula; ele é o próprio desassossego que escorre pela ponta dos dedos quando a realidade lá fora se torna quente e seca demais para ser suportada em silêncio. Tecemos nossas próprias paredes com o que nos sobra dos dias: um fiapo de luz na cozinha, o cochilo do Yoshi, o eco de um trovão que passou sem chover e a teia que a aranha tecelã coseu na grama do quintal.

Como você traça a rota de alguns dos meus poemas já sabe que eles surgem como as borboletas por aqui, rompendo o invólucro de surpresa, sangrando as asas para conseguir voar antes que a tarde caia. Sou essa criatura comum ao dobrar a esquina, é verdade, mas os meus olhos traçam rotas no inverso de mim. Escrevo para desatar os nós que a vida-lida aperta na garganta, transformando o grito represado em fresta de vento. Isso, por si só, já é poesia. E às vezes, o verso cai no colo através de uma frase, de um personagem que atravessa as ruas de cima. Uma frase dita em tom de brincadeira nas mensagens que trocamos.

Se a poesia é para ser lida em pequenos goles, que o meu texto seja igual a xícara de chá que você oferece ao longo da manhã. O instante para mim, é poético e fico aspirando sabores e tocando as ervas daqui para combinar com seus sabores por aí.

Olho para Alejandra, Emily e Cecília e nelas também encontro o mapa imaginário desse nosso andar compartilhado. Não sei se somos divinas ou profanas, mas enquanto você toma o seu chá e busca fôlego no quintal, eu sigo daqui, misturando as linhas e separando as cores, tecendo desenho com agulha – e isso também não deixa de ser poesia – oferecendo a minha voz para que os teus silêncios encontrem abrigo.

Acredito que nem eu, Rozana e Anna Clara poderíamos cravar a certeza de como surge um verso. Cada uma traçaria uma linha diferente da outra. O verso, afinal, é só isso: o outro lado do espelho onde a gente finalmente se reconhece. Mas para entender tudo isso, você já tem o mapa.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas

BEDA #4 – Casulo: O silêncio que o fio não alcança

Sua implicância com os telefones me fez sorrir diante da tela desse smartphone que, por ironia, nos conecta enquanto enfrento os mais de trinta graus que o inverno de Cuiabá insiste em manter por aqui. Compreendo perfeitamente o nonno: há invenções que parecem rasgar o tempo sagrado das coisas. O som estridente daquela campainha antiga invadindo o casarão soa quase como uma profanação perto do bater solene do carrilhão, o verdadeiro cuore da casa. Uma casa precisa de batimentos, não de sobressaltos.

Eu demorei para ter um telefone e o primeiro, segundo meu filho, era da idade da pedra. O telefone da rádio para mim, na época era o mais legal. O que trazia pedidos de músicas e notícias mundo afora. O fio que trazia a notícia do mundo, era o mesmo que falava sobre as partidas de alguém que a gente amava, era também o que aprisionava a urgência. O tintilar da ficha caindo do outro lado quando o aparelho chegava aos ouvidos tinha o som de alguém que me ouvia pelas ondas do rádio. A vida antiga tinha outra velocidade; as dores e as alegrias viajavam devagar, no lombo dos cavalos, bicicleta ou no balanço dos vagões, carimbadas por selos e envelopes. Havia um tempo justo para digerir a saudade entre a escrita e a resposta. Hoje, a pressa nos rouba o direito ao recolhimento. E há os que se incomodam quando não respondemos na hora em que recebemos a mensagem.

Acho que também fujo dos diálogos longos. Quando a tagarelice alheia ameaça o meu silêncio, eu me recolho para dentro do casulo. Dou três voltas no quintal, ajeito uma planta, observo a lentidão do Yoshi, e seus passos cada vez mais curtos. O silêncio acontecendo e sendo interrompido apenas pelo toque da mensagem e por falar em mensagem, gosto de ouvir o som digitalizado do sapinho que você escolheu para as tuas. É como se eu estivesse perto. No meu, o som é Surrender, de Laura Pausini que amo.

Desativar o som é uma maneira de comandar a vida e esperar a hora certa para a resposta. É escolher a própria órbita. Enquanto o mundo corre lá fora atrás de notificações imediatas, eu sigo aqui, blindando o meu canto e preferindo a calmaria dos papéis que esperam pelo tempo certo de serem lidos. Meu pai já dizia que desligar o mundo é o primeiro passo para conseguir ouvir o próprio coração.

Que assim seja!

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA #3 – Casulo: Das sombras que nos abrigam

Bambina mia,

Sua missiva me encontrou em silêncio, tentando decifrar o mistério dessa escuridão que você chama de abrigo. Não há estranheza alguma em culpar Patti – olha só minha intimidades! Às vezes, os livros têm esse poder de nos desestabilizar e nos empurrar para dentro de cenários que preferíamos esquecer ou silenciar no fundo do casulo.

Suas trinta e seis exposições em preto e branco me fizeram pensar no que escolhemos registrar e no que deixamos esquecido em rolos de filme nunca revelados. Eu, que carrego os olhos atentos da fotografia, entendo o seu desconforto com os túmulos. São caixas de concreto feitas para reter o corpo, enquanto o casulo — esse sim — é feito para gestar a alma. A morte, essa senhora honesta que você evocou, talvez seja apenas a última metamorfose, o romper definitivo da crisálida. Acho que lido bem com ela também.

Mas são as suas bibliotecas empoeiradas e as livrarias esquecidas que me tocam de perto. Você sabe o quanto gosto delas. Desde as mais simples e isso me leva para minha infância, até as enormes, como a Mário de Andrade. Sabê-la sendo disputada por traças dói como ver um ninho abandonado no inverno. Foi nela que Cadeados Abertos se abriu para as pessoas. Foi o lugar onde pari o meu terceiro livro.

Por aqui, o dia avançou devagar. Olhei para o Yoshi dormindo encolhido no canto mais escuro da sala e entendi a frase: escuridão também é abrigo. Há dias em que a luz do sol é forte demais para quem está mudando por dentro. Precisamos da escuridão do casulo para aprender a enxergar com o olho do coração.

Acho que Patti vai guiar os seus passos por aí. Eu sigo daqui, no meu próprio recolhimento, limpando a poeira das minhas gavetas e esperando o eco das suas próximas linhas.

Bacio,

Mariana Gouveia

das coisas breves

BEDA #2 – Casulo: Antes de amanhã é quase hoje

Eu vi a Divindade com o olho do coração. Eu disse: “Quem é você?”
Ele disse: “Você”.
(Mansur Al-Hallaj )

Ei, Agosto,

Os dias chegam diante do espelho. A vida passa igual aos flashes dos cinemas. Isso era ontem. Outro mês e outro dia. E as coisas aconteciam antes de ontem…

A manhã surge radiante espantando a cor — o cinza oco dos tempos dos corredores frios — e a cidade vista da janela se apresenta dourada. Um suspiro e tudo muda no final do dia. Antes de amanhã é quase hoje, e um novo mês que se inicia rompe as nuvens.

Trovões ao longe. Para os lados do sul. Para lá, cada clarão contrasta com o dourado que invade as cortinas, as frestas, a janela. Como se o céu rugisse para dar boas-vindas ao novo mês. Bem-vindo, mês febril! O calor e a fumaça tomam conta do meu lugar. A moça do tempo mais uma vez avisou que não vai chover.

Mas os dias passam tão rápidos e logo estarei aqui dizendo que ele se foi. É quase um piscar de olhos e essa manhã se tornará tarde-noite-madrugada e novo dia. São as rotinas soprando os calendários que marcam o santo do dia, a fase da lua, a frase de efeito, os dias que faltam para o fim do ano… Ufa!

Tudo isso em um tempo vivido antes de mim… Assim como os casulos rompendo as cascas e a metamorfose acontecendo. Antes de mim, as rotinas eram lentas, rastejantes. O dia podia ser contemplado da janela e as flores anunciavam as estações em ritmo de sementes — hoje, tenho sementes, flores e frutos no mesmo pé — e havia o tempo de plantar e de colher.

Desta janela, a cidade ainda dorme — ou grande parte dela — aos meus pés. As horas já avançam em sintonia com o tique-taque do relógio deste lugar… Os corredores lotados de pessoas que buscam cura e esperança umas nos olhos das outras. Outros desviam o olhar para depois.

Depois!

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA #1 | Casulo: O verão que habita no meu inverno.

Bambina mia,

Suas palavras me pegou olhando para o meu quintal, tentando encontrar o calor que você evocou em suas memórias. Por aqui, o inverno também se faz de dias curtos e secos, mas a luz dourada do sol do meio da manhã insiste em rasgar o cinza e rebentar na parede sem rebocos da casa da vizinha da esquerda.

Enquanto você viajava com Eliane pelos verões da sua infância, eu pensava na das listas de C. e no quanto a vida, às vezes, nos exige esses “checks” para cabermos nas horas. Você sabe que sempre fui muito organizada. Lembrei-me de quando dividia as tarefas com meus seis irmãos na fazenda. Cada um com sua função. Mas a sua mesa ao ar livre, colorida e sem lugares marcados, me fez sorrir. No meu caso, tinha que haver lugares marcados e até rodízios porque cada um queria sentar perto da mãe. Havia uma escala. Um dia para cada um dos sete. Há uma liberdade bonita na infância que a gente tenta guardar no bolso para os dias frios. Depois que ela se foi paramos de sentar à mesa.

Hoje, o Yoshi está mais lento, afinal, a idade pesa. Ele ficou comigo, à espreita, enquanto o vento gemia nas folhas do pé de ipê. Olhando o vazio do inverno, que aqui é puro verão, percebo que o casulo não é uma prisão, mas a permanência silenciosa de tudo o que fomos. O seu desassossego delicioso é o milagre da metamorfose acontecendo por dentro, invisível aos olhos apressados. A borboleta laranja do maracujá – segundo dizem – rompeu seu casulo antes que eu me desse conta. Suspirei vendo-a “sangrar” para secar as asas.

Você foi buscar fôlego no quintal e eu fiquei aqui, desejando que o seu chá guarde o calor daquela mesa de frutas e risadas. Se o inverno aperta o corpo, que a nossa sincronia continue aquecendo a alma. Acho que nos dias de agosto será comigo os diálogos.

Beba o seu chá. Eu sigo daqui, cuidando dos ninhos e esperando o próximo casulo eclodir.


Corri lá para o aniversário de Catarina. Julho tem essa mania de trazer datas especiais aos nossos dias. Que venham muito mais!

Bacio,
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Dos sonhos de voar…

“Eu te ofereço voos. Os inteiros. Os quebrados. Os que ainda nem foram detalhados em toda essência de amar.”

Filho,

Você se lembra de quando brincávamos de voar? Meus braços te erguiam e te levavam ao céu — como você dizia. Aquilo sempre me lembrava o verso de um poema que dizia: “O céu é o limite…”.

E quando você me perguntava sobre o que era o limite, eu repetia o que meu pai me dizia quando eu ainda era menina: o limite é como a mudança da estação. Uma não pode roubar os dias da outra. É esse limite que a gente mastiga todo dia. Um dia querendo roubar as horas do outro. O verbo rasgando dentro de outra palavra. A dureza da vida tentando, em algum momento, nos roubar a alegria. A liberdade sendo colhida dentro de alguma regra, de algum “não pode”.

Mas eu sempre te disse que você podia. Para mim, a liberdade tem a ver com o céu — ou com o mar que me emocionou quando vi a imensidão dele — e com aquele azul imenso que presenciei no meu primeiro voo de avião.

Você era o menino do meu quintal. Aquele que sempre adorou a velocidade, os voos e a rebeldia do seu signo. Você sempre foi o sol do meu quintal. Aquele espaço onde desenhamos uma pista de Fórmula 1 para você voar. E você voou. Seguiu seus próprios voos e hoje tem total autonomia neles.

Hoje não é um dia comum. É o dia em que o ano se torna especial porque você nasceu nele. Como presente, eu te ofereço esse céu dourado que desenha sombras nos quintais por onde você anda.

Aqui, o céu está limpo, com poucas nuvens. Te ofereço esse céu como forma de abraço. Quero que saiba que, depois que você chegou, eu me senti completa e finquei raízes, como as plantas que teimam em se alastrar no quintal.

O sonho revolve o mundo, e dentro de cada sonho seu cabe a certeza da minha oração. Como tudo que voa precisa de pouso, eu quero sempre ser o seu lugar de pouso. Para te dar segurança na hora certa e para segurar a sua mão quando o caminho for difícil.

Eu te ofereço voos. Os inteiros. Os quebrados. Os que ainda nem foram detalhados em toda a essência do verbo amar. Eu te amo de um modo único e real, daqueles que nenhuma poesia consegue explicar.

Que todos os seus momentos sejam de aprendizado, de conquistas e de um eterno céu de brigadeiro para você voar.

Feliz Tudo!

Com todo o meu amor,
Sua mãe,
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Olhares invisíveis.

Quando olhou não viu nada
o instante é tão rápido e invisível com os olhos famintos de ver apenas o que é visível
Mas, o coração enxergou o vento, a asa, o gesto
coisas que são invisíveis apenas para o olho da alma.
Mariana Gouveia

Bambina mia,

Era quase manhã quando vi a névoa no meu quintal. O vento gemia nas folhas do pé de ipê e de tão acostumada com os pássaros no bebedouro de Chiquinho que nem percebi que as asas que ali batiam, e tentavam pousar no néctar açucarado era de uma farfalla – como você diz. O instante invisível durou apenas um segundo entre o voo, o pouso e outro voo telhado acima.

E foi no telhado que as misturas do ocre das telhas e da madeiras que um pequeno piado me chama a atenção. Logo eu que vasculho as coisas do lugar à espreita de instantes não havia percebido o pequeno ninho quase entre a porta da cozinha e a varanda. O lugar quase imperfeito para o nascimento de aves, mas que a mamãe sabiá laranjeira sabe melhor onde se sente segura. Logo teremos bebês sabiazinhos por aqui.

E por falar em pássaros, as coisas invisíveis acontecem a todo instante quando olho foge do que é natural. O trinca-ferro é um pássaro novo aqui no meu lugar. Já havia visto ele de relance, comendo as sementes do ipê. Mas, arisco, não me deixou fotografar… e eis que o pego “roubando” as jurubebas. O riso veio em seguida ao flash. Agora, já posso dizer que ele é mais um dos que moram aqui.

E de repente, a sensação inquietante de assistir o que é belo quando a poesia faz visitas no meu quintal, o olho não vê o casulo ser quebrado… ele apenas enxerga o instante mágico onde a vida é celebrada com o voo. A metamorfose aconteceu ali, mas o olho invisível conseguiu apenas presenciar depois do acontecido. A rotina silenciosa da manhã e a presença invisível (mas profundamente sentida) do milagre que é viver.

Sabe, bambina, às vezes, o olho tão acostumado ao comum não consegue captar o extraordinário, ou até consegue, mas encontrar o extraordinário não é comum e passa basicamente igual ao que vemos todos os dias. O voo de uma borboleta em busca de vento logo depois de nascer me faz ficar em silêncio. Ela segue seu rumo de casa e eu apenas murmuro um agradecimento ao universo. A iminência do desabrochar já aconteceu invisível aos olhos apressados, esperando o momento exato para se oferecer em luz.

Sempre registrei o cotidiano e também me encanto diariamente com instantes fugazes que acontecem neste quadrante do meu muro. Também escrevo cartas que muitas vezes embolo, não envio ou seguem seu destino em envelopes coloridos. Quando recebi o tema do mês pensei em infinitas possibilidades. O invisível aqui acontece a todo momento. Seja em uma fresta de luz dourada rasgando o cinza, num dia frio, seja na a luz do sol batendo na parede da cozinha, refletindo no chão da varanda ou iluminando a silhueta das plantas do quintal. Ou em uma missiva escrita pelo universo pleno de saberes.

Consegue traduzir o cabeçalho? Talvez fale apenas o que só é visível por dentro do tuo cuore.
Grazie por tanto e tudo!

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfcio 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto:
Claudia Leonardi – Lunna Guedes Obdulio Nunes Ortega – Silvana Lopes



Scenarium Livros Artesanais

Alguns retratos imaginários na estante

Foi com letra garrafais que desenhei julho em meu calendário. Alguém, um dia me disse que foi quando aprendi a voar.
Primeiro, em passos curtos, depois, como se fosse correr e só depois de escrever em diários abri as asas e voei.
Bem depois, quando eu já era liberdade e mãe, fui chão… criei raiz para minha cria se criar cidadão do mundo e do seu lugar.

Fui cartaz de busca, de procurada, fui voz.

Fui lugares estampados em fotografias de estantes, fui casa e quase fui poema de amor.

Julho para mim foi july…
Fui ser julho em dias perdidos…
e fui flor de ipê temporã.
Fui escrita, cardápio…
Fui julho em um nome e sem nome…
Fui apenas um mês.

Se bem que depois, vieram das datasse tornando significância maior e fui muitos dias dentro de julho.
Fui 1º, porque assim era quando eu nasci e nesse dia fui fada. Depois, fui 13, perdida no luto de um filho que não viveu.

Mas para não ser tão vaga nos dias, o universo me fez múltipla no dia 22.

Só daí eu fui muitas e continuo sendo além.

Mariana Gouveia
Agenda 2023 – Scenarium Livros Artesanais