Afetos · Literatura · Lunna Guedes

A Caligrafia das Coisas e as Palavras de Chão

As palavras possuem uma espécie de anatomia secreta; algumas pesam como pedras na memória, enquanto outras possuem asas e sabem exatamente onde pousar para acalmar a nossa falta de paz. Certos termos estrangeiros chegam como ruídos, enquanto vocábulos antigos desaceleram o corpo, provocando arrepios por dentro da pele. Imediatamente me pego listando as expressões que governam o meu próprio microcosmo. Há palavras que herdamos dos nossos antigos que não estão nos dicionários elegantes, mas que carregam o cheiro exato da terra molhada. Você, por exemplo, não gosta de petricor… já eu, adoro! Acho que nela já vem o aroma da terra sendo beijada pela chuva.

Crescer conversando com as coisas do mato me ensinou que nomear o mundo é um ato de pura feitiçaria afetiva. No meu dicionário de infância, aprendido nos tempos da fazenda e cultivado hoje aqui no meu lugar, as palavras mais bonitas são aquelas que guardam a doçura e a beleza dos ciclos naturais. Gosto do compasso de “espera”, da firmeza de “raiz” e do sotaque manso que transforma caju em “cadju“, aproximando a pronúncia da própria textura do fruto colhido no pé. São palavras de chão, sem o verniz ou os aborrecimentos da comunicação moderna, escritas com a caligrafia simples de quem sabe ler os desenhos das nuvens e o tempo da semente.

Acho bonita a rejeição ou o apego que desenvolvemos por certos nomes, heranças de portões de cemitério ou do modo delicioso como as nossas mães pronunciavam as letras na cozinha. Nossas escolhas linguísticas revelam os nossos esconderijos mais secretos. Para mim, a palavra que muda o rumo de um dia inteiro e me devolve a dignidade do silêncio é “quintal”. Quando a pronuncio, as paredes da casa parecem se afastar, o cursor na tela branca ganha a pulsação de um carrilhão antigo e o mundo lá fora perde a sua poluição barulhenta. É um termo-abrigo, que cabe dentro de qualquer tarde morna.

Ao final do dia, quando fecho os cadernos e observo o Yoshi encolhido no travesseiro da sua cadeira, percebo que escrever é apenas o nosso jeito de colocar envelopes reais ou imaginários nas esquinas do tempo. Não precisamos das fórmulas prontas do mundo para nos fazermos entender; basta que a nossa escrita guarde o eco daquilo que fomos e a certeza do chão que pisamos. O seu idioma, por exemplo, me veste na palavra encantamento. O bambina mia — como eu te chamo — evoca em mim uma imensa ternura, tal qual o seu mi manchi… e é com esse sentimento que meu quintal atravessa o seu. Que aí você cultive sons e silêncios e eu, cá no meu canto, cultive as palavras que têm raízes ou asas.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

O Altar de Ouro e as Árvores que nos Guardam

Há árvores que funcionam como verdadeiras sentinelas do nosso destino. Ouço relatos de vidas costuradas pela sombra perfumada das jabuticabeiras, acompanhando mudanças e florescendo em quintais antes esquecidos, e imediatamente olho para os guardiões do meu próprio chão. Aqui no meu lugar, as boas-vindas da nova estação não chegam com o negrume dos pequenos frutos colados ao tronco — o pé que tenho aqui ainda está em fase de bebê, com folhas tenras, coloridas e miúdas que crescem tão devagar que já ameacei arrancá-lo várias vezes —; chegam com a explosão silenciosa e urgente do ipê amarelo. É ele quem me avisa que, apesar da bruteza do inverno e da poeira que insiste em cobrir a madeira, a terra nunca esquece o seu compromisso com a beleza.

O ipê ensaia o seu espetáculo na fresta dos dias secos. Olhar para os galhos que pareciam sem vida e, de repente, flagrar os primeiros salpicos de ouro rasgando o azul do céu é um abalo agradável que repercute por dentro do peito. Assim como as estações afetam o corpo e mudam o rumo da escrita, a floração do ipê altera a minha própria geografia interna. Ele exige atenção. Obriga-me a esticar os braços, a erguer os olhos além do quadrante do muro e a agradecer pela permanência das coisas que fincam raízes. Enquanto o vento morno balança suas copas, sinto um arrepio na pele que é, no fundo, a caligrafia da própria primavera se anunciando.

Acho bonita a fidelidade de quem acompanha o crescimento de uma árvore ao longo de uma vida, tratando-a como cúmplice de romances escritos e cafés tomados na proximidade de suas folhas. Minhas cumplicidades com o mato são feitas desses reencontros anuais, onde o amarelo cai com aquela leveza de quem tem medo de tocar o chão, cobrindo a terra úmida com um tapete sagrado. Não precisamos mudar de cenário para entender o milagre da renovação; basta sabermos cuidar do pedaço de chão que nos foi confiado, seja limpando as folhas secas ou observando os seres alados que fazem dali o seu porto seguro.

Ao final da manhã, quando a luz solar doura a copa do meu guardião e o Yoshi se ajeita na sua cadeira, percebo que cada quintal tem a árvore que merece. Eu sou feita de sol e terra, abençoada pelo ouro que brota do galho seco. Olho para o alto, respiro o ar lavado e deixo que o amarelo me guie pelos próximos começos.

Mariana Gouveia

Delírios Comunistas · Literatura · Lunna Guedes

O Delírio dos Homens e a Poesia que nos Salva

Eu sempre tive preferência pela geografia dos cantos. Talvez por ter sido criada em uma casa cheia de gente, sem um lugar próprio para estar — com exceção do telhado ou do morro da cruz —, tudo ao redor era povoado demais. Confesso que, lá na infância, eu ainda não sabia o quanto o silêncio era bom. Depois de ver minha própria família formada com apenas três pessoas, e quando meu filho cresceu e mudou-se, passei a gostar da solitude. A casa vazia, a mesa com lugares vagos e o silêncio que se instala nas horas ímpares são o meu território sagrado de permanência. É na quietude desse isolamento escolhido que os livros deixam de ser meros objetos nas prateleiras e se convertem em interlocutores reais, capazes de traçar diálogos mudos com as nossas próprias frestas.

Compreendo o peso de carregar heróis literários que, muitas vezes, tropeçam na bruteza da realidade dos homens. Separar a herança da escrita territorial dos desacertos políticos e conservadores de quem a pariu é uma tarefa árdua, quase um exercício de paciência. Nem sempre é fácil lidar com os limites e as cegueiras daqueles que admiramos no papel. Eu também já “abandonei” autores e pessoas que admirava; por suas posturas conservadoras, tornaram-se personas non grata em minha vida. No entanto, entendo que descartar a beleza de uma narrativa que nos toca e nos localiza no mundo, apenas pelas falhas do ser humano, seria uma desonestidade com a escritora que me tornei. Faz-se as pazes com a obra, não com o homem; deixa-se que a contradição repouse na margem enquanto colhemos a poesia que nos salva.

Esses encontros e reencontros com os clássicos — que outrora preencheram as páginas dos meus cadernos com caligrafias antigas — são como banquetes que revisitamos quando a juventude ganha outras dobras. Eles guardam os mistérios do infinito e da finitude, exatamente como um labirinto onde nos perdemos para, no fim, nos encontrarmos mais inteiras. Não precisamos concordar com os passos de quem escreveu para nos movermos com o ritmo das suas frases-rastro.

Ao cair da tarde, quando mudo a xícara de lugar e observo a luz mansa diminuir no quadrante do muro, percebo que a minha solidão é generosa. Ela acolhe as vozes de todas as eras, os poetas de ontem e as histórias inventadas que se colam à madeira do meu lugar. No meu canto do sofá, com as frestas abertas para o vento que limpa a poeira, celebro os livros que continuam a me decifrar. O homem passa e falha; a escrita permanece, rompendo o chão do tempo.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

A Arqueologia dos Afetos e a Rua Antiga

Há um magnetismo silencioso nos lugares que guardam o rastro do tempo. Caminhar entre as bancas de uma feira de rua ou deslizar os dedos pelas lombadas gastas nos livros de um sebo é um exercício de pura arqueologia afetiva. Não busco ali o rigor das novidades ou o brilho intocado das vitrines; busco o assombro do que já foi vivido por outros. Um livro usado nunca carrega apenas a história que o autor escreveu; ele guarda o peso das mãos que o folhearam, a fresta de sol da janela onde foi lido e, às vezes, pequenos segredos esquecidos entre suas páginas — uma anotação na margem, uma pétala seca ou uma marca antiga de café.

Descobri dias atrás o Raro Ruído e foi como achar um tesouro. Adentrar aquela porta é como caminhar pela poesia pura. Os livros, gibis e vinis trazem a palavra afeto para dentro do peito. A literatura sempre encontra um jeito de ser o território do encontro. Por acaso, me deparei com uma porta que parecia a entrada para outro mundo, e na realidade foi mesmo. Um pequeno santuários de papel antigo, com mesas enfileiras entre as prateleiras, o cheiro de café de frutas trazendo memórias, pessoas a ganhar encantos folheando páginas e principalmente, jovens, ávidos pelo antigo, pela leitura. O olhar escapa do livro e esbarra nas figuras que povoam o cenário. O imaginário, esse tecelão obstinado, imediatamente começa a tecer suas teias sobre as criaturas que cruzam o nosso quadrante: o vendedor que oferece café, sorvete artesanal, vinho ou água com sua voz de herança; a mulher que segura um volume antigo contra o peito como se protegesse um tesouro; o tempo que parece fazer uma pausa exata entre uma esquina e outra.

Essas personagens que cruzam os nossos olhos nas feiras e sebos são como figuras de um romance que ainda não escrevemos. Há uma beleza peculiar em degustá-las assim, em pequenos goles, sem a pressa de desvendá-las por inteiro. Afinal, a proximidade real muitas vezes desfaz a magia do mistério; preferível é deixar que permaneçam suspensas na nossa ficção de fim de tarde. Ficamos livres para rir dos nossos próprios encantamentos quando a luz muda de tom e a realidade transforma as nossas certezas em fumaça.

Não comprei muita coisa, mas ao recolher meus achados a criança que fui renasce com brilho nos olhos. E como achei a barca do tesouro, devo voltar mais vezes para minerar os diamantes escondidos. Fiquei pensando em como os sebos e as feiras são extensões da própria terra. Ambos guardam sementes de histórias que esperam o momento certo para brotar. Abro o livro novo que trouxe da rua, sinto o perfume do papel antigo misturado ao vento morno que entra pela janela e deixo que o imaginário continue a tecer, em silêncio, os contornos do dia de amanhã.

Mariana Gouveia

Nota de Rodapé: Para quem tiver interesse, Raro Ruído tem uma loja online e o espaço físico oferece a gentileza no atendimento nesse endereço: Avenida Edgar Vieira, 278 – Boa esperança (abra com o maps), Cuiabá, Brazil 78045-390


Além de Livros, há café, música, vinho, LPs, sorvete artesanal e muito mais!
Seg. a Sex. das 13h às 19hs. Sáb. 10h às 18h. Dom. FECHADO

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

A Geometria da Espera

Olho para o cursor piscando no canto esquerdo da tela branca e não vejo ali uma ameaça ou um vazio intransponível. Ao contrário do que dita a pressa dos dias, esse pequeno traço de luz que insiste em pulsar ritmadamente é um convite ao descanso. Aprendi com a terra que o silêncio que precede a palavra não é escassez; é tempo de pouso. Para que as ideias possam brotar com força na nova estação, a matéria de que somos feitas precisa, vez ou outra, recolher suas asas e aceitar a xícara vazia. O chá acabou, e esse momento serve para uma caminhada no quintal; enquanto espero a água ferver, cato as ervas e aspiro o ar.

Compreendo bem a sensação desse cansaço que não alcança os músculos, mas que desacelera o sentido da alma após um grande transbordamento. Escrever é um ato que consome as nossas sentimentalidades mais secretas — aquelas que, muitas vezes, nascem e morrem no papel como cartas-não-enviadas, escritas apenas para aliviar o peso do peito. Quando a última página de um ciclo vira, é preciso ter a coragem de não fazer nada. É preciso sair ao quintal sem a obrigação da metáfora, apenas para presenciar o inédito de um dia comum: o Yoshi mudando de posição na cadeira, o Chiquinho voando baixo e o sabiá laranjeira na bacia, em seu banho diário aqui.

Não há bloqueio no fluxo da vida, há apenas a necessidade física de buscar novos goles de mundo além do muro. Ninguém colhe frutos o ano inteiro sem permitir que a árvore enfrente o seu próprio inverno. Minha pulsação criativa se alimenta desse compasso de espera, da água que ferve para o café ficar pronto e do vento morno que entra pelas frestas limpando os resquícios da poeira de agosto.

Quando me sento novamente diante da folha em branco, não busco o espetacular das grandes multidões. Busco as pequenas partículas de ontem que ficaram presas na memória da madeira. O cursor continua a piscar, paciente, imitando o bater de um coração que sabe exatamente quando é hora de silenciar e quando é hora de transbordar. Quase em 3D, a foto que chega por mensagem mostra o bolo de paçoquinha. Escrevo meu desejo de estar em outro quintal e apago. A escrita, afinal, sempre encontra o seu próprio tempo de romper o chão.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

A Gravidade do Quintal e as Frases-Rastro

Bambina mia,

Aqui no meu lugar o tempo também se gasta entre um afazer e outro, mas a falta de paz que a ansiedade promove costuma ser varrida junto com as folhas secas que o inverno deixa cair no chão. Enquanto você caminha pelas ruas barulhentas do seu lugar tropeçando em frases de jornal, eu empunho a vassoura e organizo o meu microcosmo, sabendo que, em algum ponto invisível dessa nossa órbita torta, os nossos pensamentos se cruzam exatamente na mesma esquina.

Aqui, esfriou de repente, eu diria, para a confirmação pontual da moça do tempo. Será que é assim que o inverno se despede? Depois de dias ultrapassando os 40 graus, o alerta de frio me faz buscar um casaco enquanto te escrevo. Acho graça quando você diz que vivo no passado pelo tal fuso horário. Talvez as frestas do meu relógio corram mesmo um compasso atrás, mas é esse atraso manso que me permite acolher os teus ontens com o frescor de quem ainda espera o sol nascer. Nossas conversas, sejam feitas de risadas largas ou de silêncios compridos, são como os desenhos de graveto que você fazia na margem do lago: linhas efêmeras na terra que a água ou o vento apagam, mas que a escrita fixa para sempre na memória do papel. Somos, de fato, planetas vizinhos atraídos por uma gravidade muito própria, imunes aos eclipses do cotidiano.

O inverno que agora se despede definitivamente deixa seus últimos vestígios na poeira fina que limpei das prateleiras nos dias passados. Ele vai embora sabendo que a terra aqui já acordou, batizada pela bendita chuva que lavou a copa das árvores e preparou os galhos para o primeiro broto verde. Se a ansiedade aperta o peito aí no meio do concreto, daqui eu lhe devolvo o conselho: mude o foco do olhar, espie o sabiá que assalta as jabuticabeiras e lembre-se de que o passado que você enxerga em mim é apenas o modo mais bonito que o tempo encontrou de nos manter presentes.

Abro a janela e sigo acompanhando a dança das folhas com o vento. O frio faz com que Yoshi se encolha ainda mais no travesseiro em sua cadeira. Observo Chiquinho pairar no ar perto do seu bebedouro. Acho lindo quando ele dobra as perninhas e gravita em busca de sua bebida favorita. O alinhamento está feito, a gravidade está dita e a escrita cumpre a sua promessa de nos salvar dos desacertos.

Bacio, bambina, o dia aqui já começou, um tantinho depois do seu. Logo te darei um buongiorno, amore no seu futuro.

Mariana Gouveia

Nota de rodapé: a sua missiva que ocasionou essa resposta foi uma das mais lindas que já recebi. Só para seu conhecimento .

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6

Projeto 6 on 6 – A hora de ouro

Bambina mia,

enquanto você busca os contornos do crepúsculo entre as silhuetas verticais, eu me sento aqui no meu lugar para assistir ao ensaio diário que o céu faz antes de recolher suas malas. Olho para o alto e percebo que, embora a distância nos separe, partilhamos do mesmo relógio de frestas. Há uma urgência mansa no modo como o dia se despede. Mas, antes disso, eis que a imagem que sempre quis fotografar antecede aos meus olhos. A lua ((você) toda cheia de pompa tendo por companhia um avião. Lembrei de Calcanhoto e cantarolei baixinho aqui. Para mim, foi minha hora de ouro.

Seus olhos buscam a poesia nas esquinas paulistanas; os meus campeiam a luz que muda de tom além da rua de cima. A hora de ouro aqui não pede licença. Ela invade o quadrante do meu muro, espalhando pinceladas vivas de um calor que começa a ceder, transformando a poeira dourada do chão em uma moldura de começos e fins. Minha rua fica dourada quando o dia se finda.

Sabe, bambina, olhar para esse sol que desce lento, tocando as copas secas e as curvas dos morros distantes, me devolve imediatamente àquela menina que conversava com as coisas do mato na colina da cruz. A natureza opera sem pressa. Ela sabe a hora exata de adormecer, e deitar os olhos sobre esse horizonte limpo é um jeito bonito de encontrar abrigo.

De repente, o céu incendeia sobre as nossas cabeças. As telhas absorvem o último suspiro do dia, e o vermelho-fogo toma conta do espaço, lembrando as velhas calhas e os telhados que desbravávamos na infância. Facilitar o acesso ao desejo é também permitir que os olhos alcancem esse incêndio manso que limpa os contornos do mundo. A parabólica me entende quando o gesto é pura quietude.

Depois do fogo, vem a calmaria das cores que parecem inventadas. O horizonte se veste de lilás e rosa, uma delicadeza que contrasta com o calor bruteza da tarde. Um único galho se curva diante dessa pintura invisível, como quem agradece pela passagem do tempo. A vida ensaia o seu repouso no sutil. A solidão da tarde, às vezes, tem uma beleza sem tamanho.

A noite finalmente reivindica o seu pouso aqui no meu quintal. Os seres alados se enfileiram nos fios condutores, guardando o silêncio que precede as estrelas, enquanto a lua espia as pombas no fio. Outra hora do ouro minha que esperei acontecer. A poesia, acontece antes mesmo que eu perceba a cena. Descobri que a hora de ouro pode ser qualquer momento que a leveza nos abrace.

Mariana Gouveia
Lunna Guedes – Claudia Leonardi – Heloísa Helena Garcia – Obdulio Nuñes Ortega – Silvana Lopes

Literatura · Lunna Guedes

Os Horizontes da Janela e as Árvores da Infância

Minha paixão por horizontes também começou na infância, vivida com os pés descalços na fazenda. Meu território de desbravamento misturava os galhos firmes das árvores e as telhas; mas vim me aventurar nelas apenas aqui, em Cuiabá. Lá na fazenda, a casa era forrada com palhas de babaçu, e os morros da colina da cruz me davam um horizonte inteiro para espiar. Os olhos campeavam onde o gado estava, se o carteiro já vinha vindo nos dias de quinta com sua bicicleta amarela e, se eu fosse um pouquinho mais para a direita, dava para ver o meu pai na lida da roça. Já aqui no meu lugar, eu subia para alcançar o infinito do meu próprio quintal. Minhas fugas planejadas eram para ver o sol se escondendo ou nascendo, trazendo as pinceladas do dia antes de chegarem ao quadrante do meu muro.

Crescer com o olhar solto no campo ensina que a liberdade é feita tanto de voo quanto de frestas. A janela sempre foi uma moldura para o tempo. Hoje, quando o primeiro sopro de vento morno bate no vidro anunciando que o clima aqui no meu lugar está mudando de tom, sou transportada para aquelas tardes em que eu listava o mundo além da rua de cima. Eu também tinha meus livros e cadernos guardados como tesouros, e lia nas alturas, dividindo os galhos e os telhados com o vento, sabendo que a natureza ao redor compreendia cada verso silencioso.

Acho bonita a sabedoria dos adultos que facilitam os caminhos da nossa audácia em vez de podá-la. Na minha infância, a cumplicidade vinha do silêncio dos mais velhos, que sabiam exatamente em qual copa ou cumeeira eu estava escondida, mas fingiam procurar-me apenas para manter vivo o mistério da minha própria fuga. Eles entendiam que o desejo de descobrir o mundo nasce desse espaço sagrado onde ninguém nos alcança. E quando o dia findava, o mistério da volta também se cumpria em silêncio: eu descia com os joelhos ralados, as mãos sujas de seiva e a alma lavada de céu. A bússola dos meus pais era meu irmão mais velho, que me seguia de longe, com um capim no canto da boca, como se estivesse entediado — e na maioria das vezes estava mesmo —, porque preferia a brincadeira dos meninos simulando treinar os cavalos mansos a “vigiar a irmã do meio que gostava de conversar com as coisas do mato”.

Agora, na quietude da casa, abro as frestas da janela para deixar o vento da nova estação entrar. Não sou mais a menina que se escondia lá no alto, mas sigo tramando novos começos a cada página em branco. Escrever, afinal, é a nossa forma mais bonita de continuar desbravando os cantos do tempo. Acho que eu espiaria o mar e os navios também, se morasse perto dele, mas daqui, eu sigo acompanhando o balanço das asas e o sopro morno que agita as folhas do meu próprio chão.

Mariana Gouveia

Literatura · Lunna Guedes

O Regente da Madrugada e o Silêncio da Escrita

Madrugar, para quem vive com os pés no quintal, nunca é um ato de solidão. Quando os olhos se abrem antes que o sol decida rasgar o horizonte do meu lugar, a casa ainda guarda o frescor que a noite estendeu sobre as telhas após a tempestade passada. Não preciso de despertadores barulhentos; há um relógio invisível no peito que me empurra para a cozinha na hora em que o mundo silencia. Enquanto a água esquenta e o aroma do café toma o ar, as frestas da madrugada se tornam o meu cenário mais bonito para ler e existir.

Dizem que nas cidades grandes os pássaros migram seus cantos para o meio da noite, disputando espaço com a poluição sonora dos homens. Aqui, a sinfonia segue a partitura exata da terra. Antes mesmo que o primeiro raio de sol doure as folhas das árvores, os primeiros acordes começam entre os galhos limpos. Não há um regente único na minha madrugada; há um coro inteiro de seres alados que reivindicam o dia. Ler a poesia dos outros sob esse teto de cantos é como costurar duas linguagens: a palavra impressa no papel e a voz livre que ecoa do quintal acordado.

Minhas leituras de amanhecer não escolheram meses cruéis. Elas se acomodam no tato, na busca cega pelas lombadas da estante de madeira, onde cada volume parece esperar sua vez de respirar. Folhear as páginas enquanto o sabiá laranjeira e outros visitantes ensaiam os primeiros voos é um hábito que me ancora na realidade. O livro na mão esquerda e a xícara quente na direita formam o meu ritual de permanência. Enquanto a luz vai mudando de cor e a famosa hora de ouro se aproxima, percebo que os pássaros e as palavras fazem exatamente a mesma coisa: ambos procuram frestas para espalhar suas sementes.

Quando o dia finalmente desperta por completo, a escrita já ocupou o seu território. Os rituais da madrugada se dissolvem nos afazeres cotidianos, mas o eco daquela primeira cantoria permanece guardado entre as linhas. Deixo que os sabiás governem as sombras da noite nos outros edifícios. No meu canto, eu amanheço junto com as asas.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

O Fermento do Tempo e as Chuvas do Caju.

Há uma alquimia muito secreta no modo como o passado se transforma em alimento dentro da gente. Quando ouço histórias de cozinhas, com cheiro de trigo chovendo em tigelas de louça e pães assados no calor do verão, sou imediatamente transportada para o meu próprio templo de começos. Na minha memória de infância, o frescor não vinha da farinha amassada pelas mãos dos antigos, mas do cheiro de terra molhada que subia do chão logo após a primeira chuva do cadju. Era ali que o ano de fato recomeçava. As estações se refaziam e o forno ganhava utilidade. Mas os pães de outrora aconteciam pelas mãos de minha mãe e da minha bá. Pães feitos no forno a lenha, com a massa de puba que fazia a nossa festa.

Crescer com os pés na terra me ensinou que não precisamos de receitas rígidas para entender os ciclos da vida. A natureza, assim como as cozinhas de família, opera por intuição. Olho para o meu quintal hoje e percebo que escrever é um ato muito parecido com o de assar um pão: misturamos um punhado de frestas de sol, duas colheres de saudades mansas, o pulsar do relógio na parede da cozinha que guardamos no peito e deixamos a massa descansar na penumbra da gaveta até que ela dobre de tamanho. O tempo é o fermento invisível da nossa história.

Quando cresci, o pão de puba ficou na memória. Outros pães vieram fazer parte da minha vida, mas ver a Lunna preparar a massa e o cheiro invadir um edifício inteiro em São Paulo me mostrou que a poesia acontecia em 3d. Aquela imagem nunca mais saiu das minhas lembranças. Dizem que as estações aprisionam as melhores recordações, mas aqui no calor do meu lugar, o recomeço tem a ver com a espera. Espera pelas nuvens que desenham promessas no céu, pelo amadurecimento dos frutos no pé, pela coragem de virar a página e inaugurar uma nova estação. Quando resgatamos os gestos daqueles que vieram antes de nós — seja sovando a massa com sentimento ou tecendo palavras em uma tela em branco —, nós reabrimos as janelas da alma. É um sopro de ar puro que afasta a poeira dos dias antigos.

Ao final da tarde, enquanto coloco o café para passar e espio os pássaros disputando os galhos secos lá fora, sinto que o mistério está renovado. O passado e o presente se misturam na fumaça quente que sobe da xícara. Não há solidão possível para quem traz o quintal povoado de heranças. A terra desperta, a memória ferve e, em cada linha que escrevo, saboreio a certeza de que a vida sempre encontra um jeito bonito de recomeçar.

Aqui, a expectativa finalmente se fez presença: eis que desceu a bendita chuva do cadju — com a pronúncia assim mesmo, igualzinha à escrita pelo linguajar cuiabano. A terra, que antes parecia fingir que nada recebia, agora bebeu com vontade a água do céu, e o cheiro de poeira lavada trouxe o aviso de que a doçura dos frutos novos finalmente vai chegar no tempo certo. Alguém assa pão na redondeza. E as minhas memórias são imediatamente ativadas pelo olfato, misturadas ao perfume da terra molhada. Deixo que o pão asse na cozinha dos outros. No meu canto, eu cultivo as lembranças, a saudade e o frescor desse chão renascido.

Mariana Gouveia