Eu já contei aqui que fui apresentada aos poemas de Emily na pequena biblioteca da minha infância, em um livro já amarrotado e passado por várias mãos antes de nos ser doado. Depois, Lunna me fez ver a mulher e a poeta. Emily sabia que uma palavra não morre quando é dita; ela nasce exatamente no instante em que encontra eco na pele de quem a lê. Guardar poemas amarrados com barbantes em gavetas escuras, recusando as pequenas cirurgias dos editores de seu tempo, foi o maior rito de liberdade daquela rara e estranha criatura. Ela escrevia de sua janela, observando o voo dos pássaros de oeste para leste, sem a menor pretensão de se curvar às regras de uma literatura menor. Destinou suas cartas para um mundo que nunca havia escrito para ela, confiando suas mensagens às mãos do futuro.
Essa terna nobreza de que Emily falava em seus versos encontra morada certa nas frestas do meu quintal. Minha escrita também teima em ser rastro daquilo que é vivo, rústico e orgânico, sem a necessidade de comparações ou regras que tentem moldar o sentimento. Quando limpo os canteiros e vasos e me deparo com a persistência de uma semente que rompe a terra escura, percebo que a natureza escreve suas próprias cartas diárias na terra. Não usamos travessões na calçada, mas respeitamos as pausas necessárias que o calor exige de cada folha que aceita cair.
Certas casas vazias parecem esperar pela volta de seus donos a qualquer momento, mantendo os pertences e o ranger do chão intactos como um diário em aberto. Mas os verdadeiros encontros literários acontecem longe dos cenários estáticos e dos corrimãos de madeira dos museus. Eles se consolidam no balanço das ramagens do pé de ipê, no aroma do café fresco que exala casa afora e na calmaria de uma tarde de sol que se estende sem pressa, cobrando apenas o compromisso de simplesmente pertencer ao agora. O lúdico e a poesia vivem do lado de dentro.
Mariana Gouveia
