Cuiabá, na hora em que o calor cede espaço ao dia…
Pai,
Há datas que, mesmo não olhando o calendário, a gente se aconchega dentro delas como se fossem uma marca ou uma tatuagem na pele. É engraçado como lembramos mais do tempo da falta do que da presença. Devo te contar que nunca me esqueci dos dias grandes que o senhor guardava, nem dos rituais que nos ensinou. Talvez, dos seus filhos, eu ainda seja a única que segue os ritos em sua memória.
A sua ausência é esse compasso de espera que nunca termina, mas a sua presença teima em se fazer notar toda vez que a brisa de outubro escancara as cortinas da janela e traz os aromas de tantos ontens dentro de nossa história. Lembro-me com precisão do senhor decifrando o idioma invisível do ar no cerrado. O senhor apontava para o céu aberto e me ensinava sobre o voo coreografado dos pássaros, o tempo certo e paciente de cada semente e os segredos que as nuvens carregavam antes de derramarem a chuva na terra batida. O vento, para o senhor, nunca foi apenas o ar que passava; era o mensageiro que indicava onde os bichos do jardim encontravam abrigo, cura e sorte. Aprendi a ler o mundo imitando o seu olhar atento. A seguir a cartografia dos animais e saber, pelo jeito deles, o dia de chuva, de sol, de plantar, de colher.
Essa caligrafia natural e rústica é a que continuo perseguindo quando me sento ao entardecer com o café quentinho na horta simples. Olho para a paciência dos trieiros das formigas e percebo que os seus ensinamentos continuam vivos no avesso de cada gesto meu. Escrever para o senhor é aceitar que algumas memórias são imensas demais para baús trancados; elas pertencem à própria atmosfera deste quintal, sobrevivendo no perfume das ervas frescas e no balanço das ramagens.
Eu conto para as pessoas sobre os três anos de saudades, que são também três anos de permanência. O senhor não foi embora por completo; deixou as chaves desse cais seguro nas minhas mãos para que eu continuasse tecendo essas redes de lembranças. Abro os álbuns de fotos sobre a mesa e um sorriso se abre aqui. Vejo-me mais jovem e minhas irmãs ao seu redor. As fotografias trazem os momentos vividos, pai… E que sorte eu tive de, nesta vida, ter vindo como sua filha. Sorvo o último gole do meu café, sinto a quietude que cola na pele e deixo que a brisa da noite leve essa carta até o senhor, certa de que a poesia que faz a vida suspirar sempre encontra o caminho de volta para casa.
Com a bênção de sempre,
Mariana.
