Afetos · Literatura · Lunna Guedes

A Memória que Mora no Pó.

Meu pai dizia que meu amor pelos livros começou ainda na barriga da minha mãe, e ele a “culpava” por eu gostar tanto de ler. Minha mãe lia de tudo. Desde os rótulos de latas e embalagens até as fotonovelas que chegavam à fazenda pelas mãos do carteiro, que trazia sempre doações. Daí, me tornei herdeira desse gostar. Talvez, meus livros de estimação sejam os de Manoel de Barros e Maria José Dupré. Alguns dos volumes que ganhávamos vinham desfolhados; faltavam páginas. Nosso desafio, em plena escola rural, era criar o que faltava ou acrescentar nossa visão do que mudava para além das folhas que não existiam. Aprendi cedo a inventar começos e fins.

Aqui, olhando minha estante de madeira me descubro uma guardiã de mundos inteiros. Eu preciso do peso físico das minhas memórias. Preciso saber que, se eu esticar os braços na penumbra da madrugada, cada livro artesanal — com suas lombadas costuradas à mão e fitas coloridas — estará exatamente ali, vigiado de perto pela guarda silenciosa e terna do meu Charlie Brown e do meu Yoshi de plástico.

Você limpa a poeira dos dias com o rigor do pano úmido, do chá e do vinho. Meu ritual com as prateleiras é um compasso de espera diferente. Limpar os livros, para mim, é quase como tirar as folhas secas do quintal; um jeito de abrir espaço para que o ar circule e respire entre as palavras escritas. Há cadernos e volumes aqui que guardam o cheiro do dia em que ganharam vida, e para minha surpresa vez ou outra, encontro uma folha seca entre alguma página ou algum dinheiro que foi colocado ali por acaso – justamente o preço de um sorvete para aliviar o calor.

Acho bonita a sua cumplicidade itinerante com Álvaro de Campos nos centros velhos e cafés sob jabuticabeiras. Minhas cumplicidades literárias são mais enraizadas e domésticas, criadas no calor manso das tardes em que o tempo cuiabano parece esquecer de andar. Meus livros não voam de mão em mão; eles criam territórios. Olho para eles perfilados — como tuas histórias dentro de Catarina que voltou a escrever — e vejo que eles espalham suas linhas pelas frestas da casa, ganhando marcas afetivas de xícaras de café e acolhendo pequenos guardados cotidianos. Em vários dos textos, percebo vestígios de nossas esquinas se cruzando em outras eras.

No final de cada ciclo, quando você recolhe os seus companheiros de sempre e os devolve à rigidez da ordem alfabética na gaveta do tempo, eu apenas reorganizo os meus afetos. Mudo um romance de prateleira, coloco as poesias mais perto do sol da janela e deixo que continuem conversando entre si. A poeira sempre volta. Mas os livros, esses que escolhemos para morar em nosso quintal de dentro, são a única bagunça que nos põe em ordem. Acomode os seus na sua estante, na mesa da cabeceira ao toque de sua mão. Os meus continuam por aqui, colorindo a madeira e esperando o próximo café.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes

O Chão que Reivindica o Pouso.

Ao longo deste mês, a convite da Scenarium Livros Artesanais, participo do projeto Primavera Literária Os textos publicados aqui serão travessias diárias; respostas sensíveis e diálogos de quintal com a escrita de Lunna Guedes.

O chão pronto para o pouso: Setembro inventado no giz e nas frestas.
O chão pronto para o pouso: Setembro inventado no giz e nas frestas.

Você pergunta onde pousa Setembro, enquanto eu ainda tento decifrar o mistério de como a terra sabe a hora exata de acordar. Olho para o calendário que você mencionou — esse arranjo gregoriano que empurrou o Septem para o nono lugar — e percebo que, embora os homens tenham bagunçado as gavetas do tempo, a natureza ignora a contagem dos Césares. Para o chão que pisamos, Setembro nunca deixou de ser o começo. De repente, me vem à memória você desenhando as letras a grafite no papel, rabiscando os contornos de ontem, enquanto tocava Pink no repeat. Parece que foi ontem, mas já se vão vários ontens dentro de hoje.

Septem: as linhas do tempo rabiscadas a grafite no papel.

Você fala da ventania que arrancou as flores dos ipês em Agosto, como se o inverno estivesse com pressa de recolher suas malas. Aqui no meu quintal, eu brinco de amarelinha com essas mesmas flores amarelas que caem; uma leveza tão bonita, que parece que elas têm medo de tocar o chão. A paisagem não muda num estalo de dedos; ela ensaia. Há um silêncio grávido nos galhos secos, uma teimosia secreta sob a terra que, mesmo quando a gente dá água para elas, parece fingir que nada foi feito. Ela guarda o segredo para si.

Se você ainda não abandonou Agosto e se agarra aos ponteiros da realidade, eu me pego observando as frestas. Há várias delas por todo canto. Uma telha fora do lugar abre um pequeno clarão de sol na cozinha, bem rente aonde a Lolla costumava se deitar. Parece-me, às vezes, que ela ainda está ali. Para não pisar na ausência, dou um salto no espaço e me lembro, de novo, da amarelinha que desenhei no chão em uma tarde morna, sem nada para fazer. Pisando descalça de casa em casa, do um ao oito. O giz acabou na oitava casa e não cheguei ao céu.

Escrever é um modo de cavar o tempo. Enquanto você finalizava seu romance no pulsar do cuore, eu espiava a linha certa do meu bordado. Todos os dias olho para o céu, procurando por nuvens que finalmente trarão as chuvas. A expectativa de ver a paisagem mudar é, no fundo, a expectativa de mudarmos nós mesmos. Queremos que a primavera nos justifique. Mas, muitas vezes, aqui no meu lugar é primavera todo dia; a terra desperta as flores que plantei alheia a qualquer estação.

Não sei se pulamos a amarelinha do tempo ou se caminhamos arrastando os pés na poeira dos meses passados. Mas sei que Setembro não espera estarmos prontas para pousar. Ele simplesmente brota. O despertar da terra é um chamado bruto e delicado: a vida exige passagem.

Vamos virar a página. O chão do quintal já está pronto para o seu pouso.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA #31 – O voo: Certas Melancolias da Correspondência.

Composição artística em vista superior sobre uma toalha de renda branca, exibindo dois cartões postais — um com estampa de azulejos portugueses e outro com uma pintura vintage de paisagem —, uma ilustração em aquarela de flores azuis, uma borboleta artificial de asas vermelhas e pretas, um dado vermelho, uma pequena concha e duas moedas antigas de dois cruzeiros de 1945.

Bambina mia,

se você jogar a moeda para o alto, eu escolho coroa — porque a realeza deste agosto insano e quente esteve impressa em cada palavra artesanal que a gente teve a coragem de entregar ao papel. Ana C. tinha total razão: há nostalgias e certezas que só a correspondência é capaz de recuperar. Enquanto você equilibrava os seus dias nesse calendário imaginário em São Paulo, eu acompanhava os seus passos daqui do meu lugar, dividindo o som rouco da cafeteira, o canto do sabiá e a beleza de ver mais um ciclo se fechar. Trinta e um dias se passaram num sopro de vento, e se para alguns agosto teve a lentidão de noventa dias, para nós ele teve a intensidade exata de um voo que soube onde pousar.

Que alegria imensa ler que Lua de Papel (livro dois) finalmente encontrou a sua versão definitiva! Sei bem o peso e o afeto de reescrever uma centena de rascunhos, de diminuir capítulos e de brigar com as próprias linhas até que a obra ganhe a sua pele mais bonita. O fazer literário é esse café forte, expresso, que renova o colorido dos nossos lábios e nos obriga a encarar a realidade com um sorriso no rosto. Passamos o mês inteiro viajando de uma esquina a outra, sabendo que cada linha escrita cruzava os nossos 1.540 km de distância para inventar um porto seguro no lado de dentro das nossas páginas.

Agosto foi feito de ciclos aqui. Vento, calor, calor e fumaça, calor e aves, calor e crisálida, casulo, metamorfoses, ruptura e voos — dos mais intensos aos mais leves. A joaninha produziu uma ninhada de ovos e voou. O sanhaço-laranja veio em uma manhã mais fria e voou. O Chiquinho arranjou brigas no quintal e voou, e o bem-te-vi veio beber água e tomar seu banho rotineiro e voou. Mas sabe, bambina, acredito que o ciclo rompante e maior aconteceu do lado de dentro. Eu ouvi sua canção e a acrescentei na playlist que tem seu nome. Será mais uma que ouvirei e repetirei seu nome baixinho.

Amanhã será setembro, o dia seguinte a tudo o que fomos e tecemos juntas. A música já ressoa pelos cantos da casa nova e a gente devolve os livros para a prateleira com a certeza bonita de que as nossas asas continuam fortes. Ganhamos o céu, cara mia.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

BEDA #30 – O voo: O horizonte visto de outra perspectiva

Fotografia em plano médio da copa densa e imponente de um ipê-amarelo completamente florido com cachos dourados e vibrantes, contrastando contra um céu azul límpido e sem nuvens.

Luci,

Vi que você disse que, nos últimos tempos, tem visitado árvores e, quando vi esse pé de ipê para além da rua de cima, lembrei-me de você. Acho que isso é o que faz a vida ficar mais bonita. De longe, eu o avistei; seu dourado emoldurava a rua, e fui seguindo a cor até encontrá-lo. Lá estava ele, majestoso e imponente. Vi também sobre o pedaço da revista que você guardou. Percebi que se fosse eu a pessoa entrevistada pela revista e me perguntassem: “O que lhe faz genuinamente feliz?” — ah, Luci! Eu diria que era ouvir o barulho das abelhas e dos pássaros nas flores do ipê amarelo.

É como um presente dar flor, sabe? E já aconteceu comigo também. Ganhei uns potinhos de sementes e plantei, cuidei de tudo. Desde aguar a terra a conversar com os rebentos e, por fim, os botões surgiram. Até fotografei na época. É como você mesma disse, Luci: as coisas bonitas da vida não são as coisas. A gente sabe disso e apenas ri diante do vento. Ou de uma réstia de sol que rouba um pequeno rasgo da telha. Era onde a Lolla gostava de deitar, a quase um palmo do nariz dela. Hoje vi esse rasgo de novo e resolvi te escrever.

Você me mostra o horizonte sob outra perspectiva, Luci. Quando você diz que sua rua tem uma tristeza bonita, ou quando vejo a Celestine — que eu amo tanto sem conhecer. Eu também acho os postes das ruas feios, coitados. Falo baixo para eles não ouvirem, mas na madrugada, quando o vagalume do meu lugar passa por eles, mesmo sem gotas de chuva, eles parecem setas indicando caminhos para o céu.

Eu bebi chá de gengibre e limão para uma coisa que nem sei o que é, Luci. Achei lindo o seu chá de cardamomo e rosa. Mas aqui, o calor beira os 40º e lembro-me de que ainda é agosto. Às vezes, penso em você numa rua de agosto e lembro-me da fotografia do caminhão de repolho e você ali, musa, confiando em árvores, pombos e seguindo as regras do sindicato.

Ah, Luci, às vezes, a vida é como uma árvore vista da janela do trem.

Te amo!

Mariana Gouveia

Afetos · Das rotinas · Lunna Guedes

BEDA #29 – O voo: A Anatomia dos Sábados.

Fotografia em plano médio de um pássaro sanhaço-cinzento pousado sobre a corda de um varal de roupas, cercado por prendedores de madeira, tendo ao fundo um lençol com estampas florais azuis e verdes estendido sob a luz do sol.

Ler a anatomia dos seus sábados me fez olhar para o meu próprio quintal e perceber que a minha também tem os pássaros, o cheiro de roupa lavando na máquina, a música tocando no aplicativo, o banho no Yoshi, o quintal vivo entre as mais variadas asas e os prendedores segurando os lençóis e as roupas no varal. Sempre ligo a palavra sábado a você — talvez por causa de Aos sábados… — e passamos quase a manhã toda conversando entre uma mensagem e outra. Acontece a mesma coisa aqui também com o cão e o gato. Por aqui, os aromas se igualam no alho, e sábado — conforme a escolha do moço daqui — é sempre dia de comida “italiana”, na visão dele. A almôndega sendo preparada, tomates e pimentões para o molho, o manjericão colhido junto com a cebolinha e o arroz branco com purê de batatas… Não questione nunca esse rompante — mamma mia! — dele em querer estar perto ou junto das nossas conversas. Ai de mim! A cozinha, aos sábados — sábado sim, sábado não — é dele.

Acho lindo como você descreve o processo de escolher as palavras como quem escolhe frutas maduras no pé. Ver os pássaros festejando a próxima estação e sentir que estamos finalizando mais um ciclo dá uma sensação gostosa de dever cumprido. O BEDA está chegando ao fim, e perceber que a sua escrita — que começou na poesia e estacionou na prosa — continua tecendo pequenas histórias curtas é a certeza de que o voo valeu a pena. A realidade se refaz a cada amanhecer manso, e a gente se contenta com a beleza dessas paisagens que só a literatura nos permite revisitar. O quintal se transforma nesse portal onde atravessamos todos os dias. Aqui, a estação muda várias vezes por dia. É como se o calendário tivesse vontade própria. E assim, sábado caminha em seu curso e afazeres rotineiros.

As histórias curtas parecem até algumas que vivi aqui, no atravessar de nossas esquinas, em outros ontens que ficaram registrados na memória. É como se nossos passos passassem pelos mesmos caminhos em diferentes eras. Agosto já deixa apenas duas folhinhas no calendário da cozinha. Setembro logo acontecerá e agosto ficará em espera para o próximo ano. No final das contas, dar aos pés o colorido dos passos é aceitar que todo fim é também um recomeço. Se o horizonte agora é visto de outra perspectiva, a gente agradece a jornada, amarra as fitas de cetim nos nossos retalhos e segue voando alto, linha por linha, rumo à primavera.

Mariana Gouveia

Afetos · Colheita · Das rotinas · Literatura · Lunna Guedes

BEDA #28 – O voo: Pequenos Goles de Permanência.

Perguntar-me o que ando lendo por aqui é abrir as portas do meu próprio refúgio de papel. Neste mês, entre um rascunho e outro, minhas manhãs também foram povoadas por versos e prosas que chegaram sem pedir licença, acomodando-se na mesa do quintal ao lado das folhas que caem. Agosto está quente e seco e entre um bordado e a rotina, pausei aqui para saborear o vento debaixo do pé de ipê. Esse mês eu estive muito Scenarium. Aliás, acho que nos últimos meses eu só li os livros da Scenarium. Alguns, foram relidos e absorvidos. A Colheita é meu favorito. Casa Cheia me trouxe uma avalanche de saudades e Roteiros Imaginários – delicioso – acompanhou uma parte das minhas tardes. Mulher Proibida, Casa de Marimbondo eu já tinha lido, mas vieram parar em minhas mãos em uma dessas limpezas e fiquei por um tempo relendo. Nem Sempre à Lápis e uma ressalva para Delírios Comunista que continua atuante diante dos delírios dos últimos tempos (?) ou nada mudou mesmo?

Antes me incomodava deixar um livro à minha espera, como se me cobrasse para finalizar o que comecei. Talvez pela fome intensa de ler. Mas, me rebelei com eles. O tempo-vida é curto demais para insistirmos em páginas que não conversam com o nosso silêncio. Deixar a mão percorrer as lombadas na prateleira e escolher pelo tato, enquanto a água do chá esquenta, transforma o ato de ler em um verdadeiro pacto de presença. Fiquei acompanhando os seus passos curtos em direção à cozinha, virando as páginas de Peixoto ou Pizarnik, e pensando no quanto a literatura nos dá esse poder de desacelerar as horas para degustar o mundo em pequenos goles.

Você sabe que amo Reticências. Tenho os dois exemplares que já separei para quando setembro chegar. Achei lindo o anúncio da volta de Reticências. Adoro essas repaginadas que você faz. Ver os livros que amamos ganhando novos voos e circulando pelos olhos de outros leitores dá um sentido imenso a esse nosso agosto.

No final das contas, ler na contramão das listas de mais vendidos é a nossa forma de dar as cartas no tabuleiro do tempo. Se as prateleiras do mundo estão cheias de urgências frias, a gente escolhe a nossa xícara, abre as asas e mergulha no infinito de uma página que teima em nos salvar.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes

BEDA #27 – O voo: O Bordado Invisível do Tempo.

BEDA #27 – Uma resposta sobre rituais, receitas de bolo e o ritmo dos nossos dias.
Fotografia artística em plano detalhado mostrando uma borboleta da espécie Callicore, com asas pretas, vermelhas e amarelas, pousada sobre o tecido de uma calça jeans azul, bem ao lado de um detalhado ramo de flores coloridas bordadas à mão.

Nos últimos anos a nossa rotina se mantém a mesma: depois do passeio com os dogs — o meu aqui e o seu aí —, e até antes disso, a gente conversa. Brincamos que falamos de tudo. Desde os assuntos do momento, novelas, memes, aves, frutas, artes, música e bobagens… É como se fosse mesmo um ritual para eu começar o meu dia.

Hoje coloquei a água no fogo por aqui também. Fiz o chá azul de que você gosta e, quando a xícara esvaziou, a farfalla — como você diz — chegou e pousou na minha perna. Isso tem sido rotineiro aqui nas manhãs. Elas pousam e, depois de um tempo, alçam voo quintal afora, de flor em flor. Acontece também com os pássaros, insetos e outros bichos. Acredito que é na repetição sagrada dos pequenos gestos diários que a alma encontra chão para descansar. Chamar esses movimentos de rituais muda tudo: o som rouco da sua cafeteira, o sabiá laranjeira cantando por aqui, o perfume do café invadindo a casa e o sol mudando de lugar na parede deixam de ser obrigações e viram poesia pura. Entender e aceitar o ritmo do próprio cuore e dos passos é a maior sabedoria que a gente pode herdar da infância. Dividir isso com você tem sido prazeroso, confortante e feliz.

Conheço a sua cartografia dos bolos. O de fubá — que eu amo e conheço tão bem — é o causador da minha saudade de bolo. O de paçoquinha consegue ser sensorial, e o de laranja guarda a memória dos seus primeiros dias em São Paulo, batidos na vasilha nas noites de quinta-feira como quem tenta dar liga à própria vida. Daqui do meu lugar, eu te entendo perfeitamente. Para quem escreve, a rotina não nos tranca; ela nos liberta. É o porto seguro que nos permite abrir as asas e voar na contramão de um mundo que vive sem respiração prévia. Mudar o dia do bolo é a nossa única transgressão possível. Eu bordo os tecidos aqui, e você costura com fitas de cetim as páginas dos livros.

No fim das contas, a nossa escrita também é esse bordado invisível que o tempo faz na pele-alma. Se o mundo lá fora se contorce com a pressa, a gente senta à mesa, degusta nossas pessoas-personagens e saboreia cada pequeno gole de permanência. O voo só é bonito porque a gente sabe exatamente onde fica o ninho.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

BEDA #26 – O voo: A cidade que nasce da escrita

Lunna,
eu poderia dizer que escrevo essa missiva — como você gosta de chamar — para a Scenarium. Poderia também endereçá-la para você e para o Marco. Hoje é dia da Scenarium e abro o meu baú de memórias com uma xícara de café em mãos, enquanto percorro a geografia da cidade que nasceu da minha escrita. Enquanto você cita Cartagena, eu cito os caminhos e as ruas que a Scenarium me permitiu e me permite percorrer. Você tem toda razão: um lugar só ganha alma e se transforma em cidade quando passa pelo filtro das nossas narrativas mais agudas e lineares. Comigo, o seu filtro me guiou como se traçasse um mapa, e fui seguindo por ele, fazendo-me escritora.

A cada livro publicado, a poesia ganhou formas entre as minhas palavras e a sua edição. Eu encontrei o meu verdadeiro solo literário em um cenário muito específico, que hoje celebra o seu aniversário: a Scenarium. Foi ela a cidade que me acolheu quando eu ainda guardava minhas primeiras linhas em um baú; o lugar que abriu as portas para as minhas palavras e ideias, transformando rascunhos em livros palpáveis e cheios de alma. A Scenarium não apenas emoldurou a escritora que sou, mas pavimentou as minhas ruas internas com um afeto que vai muito além das letras e dos papéis. É ali, naquele fazer artesanal e cúmplice, que dou o meu primeiro movimento em direção ao sol.

E não foi só em relação à escrita que a Scenarium passou a fazer parte de mim. Atrás da editora, havia duas pessoas que estavam sempre de mãos estendidas, funcionando como setas para que eu escolhesse o melhor caminho, dando-me direções, evitando que eu tropeçasse e servindo de conforto nos momentos mais difíceis. Hoje, falta o Marco e a sua gargalhada estrondosa — esse signore gentil que distribuía sorrisos e afetos.

Se a Scenarium se transformou na minha “cidade”, é porque o afeto me moldou na pessoa que sou dentro da escrita. Cheguei simplesmente uma crisálida e fui me transformando aos poucos na mulher que voa e alcança pessoas para além das minhas palavras. Ver a arte sendo espalhada entre fitas, papel e letras, com a leveza de quem entrega momentos, nos faz perceber que quem recebe o pacote contendo um livro em mãos apenas se oferece como pouso para esse nosso encanto em voos.

Parabéns à Scenarium por ser o nosso porto seguro e o ponto de partida para tantas asas.

Bacio,
Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

BEDA #25 – O voo: Quando as Páginas Ganham Asas

Fotografia artística em plano fechado mostrando uma borboleta amarela com asas detalhadas pousada sobre a fita de cetim vermelha e a costura artesanal exposta do livro "O que de reflexos" de Mariana Gouveia..

Dias atrás um moço que tem um sebo veio ao meu lugar buscar os livros do curso de Comércio Exterior que meu filho deixou aqui quando foi embora. Falamos sobre livros, estudos e livrarias. Ainda jovem, ele me disse que criou o sebo depois da pandemia, pois ficou com muitos volumes que leu durante o período pandêmico. Se encantou com as borboletas do meu quintal e com os pássaros. Falei sobre o trabalho artesanal da minha editora e acho que ganhei um amigo. Lembrei-me de você e de sua maneira linda de achar esses lugares entre as livrariazinhas, sebos e livrarias grandes.

Cruzar os portões de um sebo e dar de cara com o cheiro de papel antigo é uma das formas mais bonitas de iniciar um voo. Percebi no olho daquele moço uma magia ao falar de seu sonho, que seria unir o sebo a um café. Os planos ainda estão sendo gestados — disse ele. Percebi afeto nas palavras, não só de quem ama os livros, mas de quem os lê. Afeto de leitor é mesmo feito de mapas invisíveis que nos guiam até as páginas que estavam ali nos esperando. A sua lembrança de menina querendo substituir as paredes do quarto por prateleiras me fez sorrir, porque quem traz a escrita na pele-alma sempre enxerga o mundo como uma imensa biblioteca a ser desbravada. Foi exatamente o que percebi no moço na minha frente.

Achei lindo um sonho ser gestado, principalmente neste tempo de era digital. Fico toda encantada quando vejo nos ônibus os jovens com livros em mãos; meu coração se alegra e já quero ser amiga dessa pessoa. Alguém me disse que era “vintage” existir sebos hoje em dia e que essas coisas antigas estavam na moda. Preferi não comentar e imaginei, por dias, o moço ajeitando os livros em suas prateleiras, com os títulos certos para conquistar leitores. Qualquer dia desses irei conhecer o lugar.

Fiquei pensando no sumiço daquela livraria elegante para dar lugar a um edifício de muitos andares e lembrei das demolições e das poeiras de ontem que conversamos há poucos dias. Ver as referências da cidade virarem pó machuca, mas a sua forma de salvar o velho livreiro — imaginando o seu descanso final na poltrona vermelha, após ler a última página de Dostoiévski — é a prova de que a literatura nos dá o poder de reescrever os finais frios que a realidade impõe. A gente desmorona com o concreto que cai, mas voa alto com as palavras que teimam em ficar.

Adormecer com um livro nas mãos é selar um pacto com o infinito. Se as máquinas da cidade teimam em derrubar os nossos cenários, a gente abre as asas e reconstrói cada prateleira perdida no lado de dentro das nossas páginas. Vamos voar?

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA #24 – A ruptura: A Costura do Que se Parte

Bambina mia,

Cuiabá é a capital da arte sacra. Não sei quem deu essa nomenclatura, mas o fato é que em cada rua no Centro Histórico há pequenas oficinas e salões onde são fabricadas essas artes. Os santos são variados e a fé também. Há quem tenha três ou mais santos ou santas para devoção. No corredor paralelo à rádio onde eu trabalhava funcionava o Museu de Arte Sacra, cujo acervo é composto por peças setecentistas. Hoje, por conta do mau estado do telhado, ele foi transferido para o Palácio da Instrução, no Centro.

O cuiabano é devoto por natureza e os artistas e artesãos, em sua maioria, têm um santo favorito para reproduzir. Um deles, e talvez o principal, seja São Benedito, ou Ditinho, ditando uma intimidade maior entre o santo e o devoto. É comum nos ateliês ver os santos expostos e toda espécie de arte sacra para venda.

Ler a sua caminhada atrás daquela signora com o São Francisco partido nos braços me fez pensar em como o divino afeta o povo de uma cidade inteira, claro que com algumas exceções. Há uma devoção muito bonita e quase secreta nos pequenos detalhes do cotidiano. Aquela mulher segurando a peça avariada como se fosse o próprio coração mostra o quanto nos apegamos às nossas primeiras versões e o quanto dói aceitar que nada volta a ser exatamente igual. O artesão da lona azul foi de uma sabedoria imensa: o que é feito à mão nunca se repete. Parecido, talvez. Igual, jamais. Acontece comigo quando faço meus artesanatos aqui. A comparação é diferente, mas quando um bordado tem de ser desmanchado por algum erro em um ponto, é difícil ficar igual. Melhor começar todo o trabalho de novo e seguir em frente.

Achei fantástica a sua observação sobre o olhar das estátuas. Escolher o São Francisco que ficou — aquele com os olhos voltados para o chão — é a tradução perfeita do que fazemos quando escrevemos. A santidade da escrita não está em olhar para o céu em busca de milagres abstratos, mas sim em curvar os olhos para a terra, para os bichos, para o rastro de saudade nas calçadas e para a humanidade que pulsa nas imperfeições. A beleza do trabalho artesanal, seja no barro ou nas palavras, mora justamente nessa incapacidade de ser cópia. Cada rascunho que a gente liberta é único.

No final das contas, o instante exato da libertação acontece quando aceitamos levar a peça nova, mesmo com o lamento do que ficou para trás. Seguimos valorizando os contornos feitos à mão e moldando as nossas próprias páginas, detalhe por detalhe, como se estivéssemos bordando histórias.

Bacio,
Mariana Gouveia