Reeler os porões escuros da alma humana nos obriga a encarar as nossas próprias sombras com um olhar desarmado. Lygia Fagundes Telles possuía essa maestria rara de não dizer tudo, deixando perguntas suspensas no ar que devastam e encantam o leitor na mesma proporção. Suas histórias transformam construções antigas em cenários onde o horror caminha de mansinho, sussurrado entre vãos e janelas que parecem nos vigiar no cair das luzes naturais. Aprendemos com seus livros que conviver com a ausência de respostas exatas é o verdadeiro experimento da lucidez.
No meu quintal, quando o entardecer derrama o seu manto cinzento sobre as plantas, o mistério se manifesta sem alardes ou convenções. Meu próprio seminário acontece no movimento silencioso das formigas, que cruzam os vasos da horta simples carregando pedaços de folhas secas e restos orgânicos para o fundo da terra preta. O vento que sopra do sul provoca ruídos irreconhecíveis nas ramagens do pé de ipê, criando uma atmosfera onde o lúdico e o visível dividem o mesmo espaço rústico. É onde sinto o compasso natural de um jardim que sabe acolher a noite.
Driblar as censuras do tempo e manter a salvo as narrativas que nos fazem pensar é a grande herança que os mestres da literatura nos deixaram. Enquanto o mundo lá fora se perde em discursos barulhentos de figuras que tentam inutilmente convencer a si mesmas de que a situação está sob controle, a escrita teima em ser rastro daquilo que é livre e inquebrável. A soberania da palavra e a paciência com as coisas miúdas do quintal são as nossas pequenas trincheiras contra a barbárie que tenta sufocar o agora.
Inspiro o ar que traz o aroma das flores dessa primavera figurada entre verão e outono, sabendo que o que os apressados não conseguem decifrar na miudeza dos dias acaba virando ruído desnecessário. Prefiro o aconchego desse silêncio cúmplice e a certeza de que a poesia que faz a vida suspirar sempre encontra o seu prumo nas margens limpas da nossa história. Se o fim é apenas um detalhe, que a nossa colcha de retalhos continue a se costurar com a solidez orgânica de quem aprendeu o valor de simplesmente pertencer ao instante.
Mariana Gouveia
