Crônicas · O calendário do novelo

Os nós do silêncio

Há dias em que o mundo lá fora parece insistir em nos medir com réguas que não nos cabem. Querem mensurar o nosso tempo, balizar a nossa pressa e enquadrar os nossos passos em moldes ditados pela sociedade. Mas quem conhece o avesso dos dias e lida com a artesania da palavra sabe que a vida não aceita essas delimitações pequenas. Quando o domingo chega e o silêncio finalmente se instala na casa, a gente descobre que a alma possui dimensões próprias, impossíveis de serem capturadas pelos olhos alheios.

Desatar os nós do silêncio, neste início de semana, é um rito de retorno para o lado de dentro. É perceber que a solitude que habitamos não é um espaço vazio, mas um território povoado de memórias, rascunhos e impressões que precisam de tempo para assentar. À mesa, com a xícara esquecida e a folha em branco esperando o prumo da palavra, recuso as velhas crenças e as medidas que tentam me limitar. Escrever é, afinal, a soberania de encontrar a própria escala.

Identificar a própria escrita e aspirar à solitude do lado de dentro é desatar os nós que teimam em nos amarrar em estigmas dos outros. Encontrar em nós mesmos a régua que nos mede na grandeza que temos talvez seja a diferença entre a solidão e a solidez. Que a gente guarde a graça de ser a régua de nós mesmas. Linha por linha, letra por letra, continuamos a costurar o agora no território livre e limpo do papel, onde nenhuma imensidão nos assusta.

Mariana Gouveia

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