Há quem pense que a vida se resolve em linhas retas e pontos finais, mas quem lida com a artesania dos dias sabe que o caminho mais bonito é feito de frestas e silêncios. Quando a Lunna me fala sobre fechar os olhos para sentir a textura da capa de Reticências, busco o primeiro livro, de 2010, com a xícara sobre a mesa e os tênis dela — tão conhecidos por mim —, e a dedicatória me cabe:
“Para os que estarão sempre comigo, independente de presença ou ausência.”
As partes da escrita entre o abre e fecha aspas me trazem pequenos momentos de um diário que me abraça. É como avançar no avesso das memórias dela e repetir gestos de lembranças que parecem ser minhas. Também me pego lembrando dos meus próprios começos, dos experimentos com o papel e das tantas vezes em que precisei errar o nó para aprender o prumo exato da costura.
O segundo livro trouxe a beleza de uma releitura das estações. Quem recebe um livro pronto, com o brilho discreto dos seus detalhes, não enxerga a maquinaria invisível que pulsa por trás de cada página. Ouve-se muito o “parece tão fácil” calçada afora, mas a resposta que guardamos no sorriso é o respeito pelo tempo que cada folha exige para assentar. Reinventar a estrada de tijolos amarelos, como a Scenarium faz agora, não é um mero capricho; é a coragem de assumir que mudar a capa é também modificar o lado de dentro.
Daqui do meu lugar, ainda não tenho o último livro de Reticências… mas, enquanto espero que o Correio mo traga, acato o sol desse início de novembro e o calor da tarde. Percebo que os livros e as pessoas compartilham da mesma alquimia. A gente precisa celebrar a estrada percorrida, acolhendo tanto a suavidade das conquistas quanto a aspereza mansa daquilo que nos moldou. As reticências que a Lunna imprime não servem para calar a história, mas para deixar as janelas abertas para que o leitor adentre e faça morada no espaço sagrado da boa literatura.
Seguimos costurando, folha por folha, sabendo que o rastro do tempo impresso no papel é o território firme onde a nossa amizade e os nossos afetos encontram porto seguro.
Mariana Gouveia
