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O tempo é um fio. Tecei! Tecei!

(Poema inspirador de Henriqueta Lisboa para este domingo)

O tempo, quando decide passar pelo meu lugar, não faz o barulho metálico dos ponteiros de um relógio comum. Ele se comporta como Henriqueta Lisboa bem sabia: é um fio bastante frágil, uma linha fina que teima em escapar por entre os dedos se tentarmos segurá-la com pressa. Mas, como conheço a densidade dos fios entre agulhas, linhas e fitas, começo a tecer desenhos e letras de maneiras diferentes.

Neste primeiro dia de novembro, o novelo se desenrola trazendo o aroma do papel e o tato exato da linha que prende as páginas. Olho para a metamorfose da Scenarium e percebo que os livros artesanais e as nossas próprias vidas compartilham do mesmo rito biológico: o que fomos não se perdeu, apenas se transformou na costura daquilo que está nascendo agora. Passar a agulha pelas dobras de um caderno, sentindo a resistência mansa da matéria, é a nossa forma de responder ao chamado da poesia. É o nosso jeito de dizer ao mundo que a memória não é um baú trancado, mas uma colcha de retalhos que continua a se costurar no avesso dos dias.

Lunna me lança o tema do outro lado do fuso, e aqui, onde a luz da tarde se estende sem pressa pelas paredes da vizinha, transformo o compasso do tempo em linha de bordar. Há quem gaste o tempo, destrançando dias, deixando o fio da própria existência jogado à toa e buscando comandar a vida dos outros. Prefiro a astúcia de quem usa o tempo para trançar fios que se transformam em bolsas, roupas e toalhas de mesa, ou para cultivar tranças espessas que, no momento certo, carregarão frutos no jardim.

Se o tempo é frágil, a nossa escrita é o tecido inquebrável que sustenta o agora. Enquanto misturo texturas de linhas para dar forma ao bordado, sinto o privilégio de simplesmente pertencer ao instante. Escapa o fio, é verdade, mas a soberania da palavra nos devolve o prumo.

Vencemos as etapas do ontem e acolhemos o novo que chega. E, no arremate de linha por linha, letra por letra, continuamos o nosso rito de prender a vida na margem limpa do papel.

Mariana Gouveia

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