Há uma parte de minha infância que parecia um conto de fadas. Minha bá era uma espécie de ser da natureza. Meus irmãos e até alguns adultos da região tinham medo dela. A chamavam de bruxa e a gente nem sabia sobre o halowween. Ela lidava com as ervas, os cogumelos e conhecia os caminhos ocultos da floresta e da magia. Alguns dos rituais que sigo hoje, além dos que aprendi com meu pai, também aprendi com ela. Ainda tenho na memória o cheiro dos chás e a oferta à natureza.
Algumas pessoas a ligavam à feitiçaria e ela parecia uma deusa vinda de outro tempo, outras eras. Durante o dia, o cabelo preso em coque,o chapéu feito com capim dourada, a bolsa de linho cru a tiracolo onde havia árvores e frutos do cerrado. Quando eu a seguia caminho afora, a via como se fosse mágica. Parava em frente a uma árvore, a abraçava, pronunciava coisas inaudíveis e depois pegava uma ou duas folhas e cheirava e colocava na bolsa. Mas a noite, ela mudava. Os cabelos brancos, em cachos caíam sobre os ombros e ela entoava uma canção em seu lingujar próprio. O fogão de lenha aceso, o caldeirão com suas porções curativas exalavam um cheiro que exalava floresta afora.
Outubro chegava soturno em nosso lugar e meu pai a consultava sobre a colheita. Ela inspirava o ar, a lua, rabiscava algo no chão e sorria. Aquilo acalentava meu pai que preparava os sacos e organizava a rotina dos dias seguintes. O ritual de oferendas quando o risco no chão não se fazia cabia a solitude dela e meu pai de costas para o rio e as folhas eram jogadas sobre os ombros… O vento sacudia as folhas próximas e o olho dela e de meu pai era de gratidão.
Na cozinha, ela operava a sua própria alquimia silenciosa. Picar o alho, sentir o aroma da manteiga na panela quente e servir o café coado na xícara esmaltada funcionava como âncoras para nos devolver o prumo. Ela servia afetos profundos e espalhava amor em cada gesto. Mesmo depois de tantos anos a presença de quem amamos continua viva na textura das folhas das ervas para o chá, no cheiro dos bolinhos de polvilho e na quietude mansa de uma casa que aprendeu a respeitar os seus próprios ciclos e saudades.
Ao plantar as sementes no quintal obedeço os calendários que inventamos para o nosso próprio uso; eles simplesmente aceitam o escuro, retendo o próprio silêncio enquanto o dia não chega. Escrever na calada da noite é uma tentativa constante de imitar a presença dela e seus ensinamentos.
Sirvo o chá das ervas colhidas, olho para as frestas de luz que desenham sombras na vidraça e caminho pelo quintal como se voltasse para aquela floresta. O ciclo de outubro caminha para o seu desfecho, mas as nossas linhas continuam a tecer essa colcha invisível de retalhos e lembranças. Deixamos que os sóis compridos da primavera se cumpram em seus ritos e se recolham e aceitamos o soluço que vez ou outra aperta o peito, certas de que o verdadeiro porto seguro reside na simplicidade de quem encontrou o infinito e a paz dentro do próprio lugar, diante de tudo que aprendeu sobre ancestralidade, paz e amor.
À minha bruxa atual, Lunna, agradeço o caminhar comigo nesse outubro onde o outro nos ofereceu abrigo e colo. Entre xícaras de chá e café, vinhos e cumplicidade brindamos ao mês novo que chega.
Mariana Gouveia
