Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

O Berço Invisível das Nossas Palavras

Caro Manoel e bambina mia,

Ao cair da tarde nesta segunda-feira, quando o vento frio toma o quadrante do muro, o sol não aparece há dois dias. O inverno resolveu dar o ar de sua graça já nos dias finais da estação. Os pássaros que dormiram aqui começam a acordar o dia com seus chilreios. É nessa hora máxima do dia que reacende em mim a sua poesia. Os grilos calaram seus cricris e, só ouço o vento batendo na janela. Isso me leva para os paletós de flanela que minha mãe fazia. Pelo jeito, hoje é dia de olhar os passarinhos ciscando e ler seus livros.

É engraçado pensar que você nasceu aqui. Dias desses passei na rua onde dizem que você nasceu. Foi um suspiro imenso saber que ali, naquela ruazinha quase morta, foi o palco de um mestre que mudou minha maneira de ver a escrita. Nossos livros favoritos são, no fundo, espelhos dessas tramas que escolhemos desbravar. Ao mesmo tempo, é lindo saber que a mesma natureza que me revela também faz parte do que você tanto escreveu.

Há também uma autora que arranca arrepios na minha pele. Mas dessa vez, ao invés do manejo com o olho da lagartixa, com o canto dos passarinhos e as ignoranças do desassossego, ela me traz o sensorial. Então, ao te escrever, meu caro Manoel, trago pelas mãos a Lunna — como parte inclusa dessa missiva —, palavra que ela adora e na qual se acha intrusa, às vezes, quando lê missivas destinadas a outras pessoas. Talvez, meu caro, você gostasse também de Vermelho por Dentro. Confesso que a escrita dela me rasga.

Se eu contar sobre os autores que mudaram a minha forma de ver o mundo e me deram a dignidade da palavra, devo afirmar categoricamente que eles não habitavam os salões acadêmicos. Alguns dos seus livros estavam guardados na estante de madeira da fazenda em Goiás, esperando o momento em que a menina de pés descalços subiria no telhado ou na colina da cruz para conversar com o invisível. Ler os clássicos sob a cobertura de palha de babaçu foi o meu primeiro Café de Flore — onde a Lunna, anos mais tarde, captou a personagem ideal para o seu romance, que é um dos meus favoritos também. Foi ali que compreendi que a literatura é esse território frágil e perigoso onde saltamos sem paraquedas, aceitando os nossos próprios abismos. Ou onde o olho desvia para o sapo que coaxa a palavra descabida de rimas.

Acho bonita essa demora de anos para que o rascunho-promessa finalmente encontre o seu rumo e rompa o chão do papel. A escrita exige essa maturação lenta, esse tempo de pouso onde as migalhas de pão deixadas pelo caminho vão se transformando em alimento para a alma. Não importa se a inspiração vem de uma artista de cabelos revoltados em Paris ou do canto do sabiá laranjeira que desafia o frio do meu lugar e mergulha na bacia cheia de água como se fosse um rio: o que nos funda é a capacidade de reter o impacto do outro em nós, transformando o movimento do universo em narrativa viva. Foi assim com você e assim o é com Lunna. Autores distintos, apaixonados pela arte da escrita, com a palavra rompante saindo da lapiseira.

Com meu carinho,
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

A delicadeza do primeiro broto verde no galho seco.

Janeeeeeeee,

Há dias em que o ruído do mundo parece teimar em se vestir com a aridez dos galhos secos. O inverno se despede deixando poeira, os homens se espremem em suas certezas duras e a polaridade lá fora tenta sufocar a nuance das coisas simples. É nesses momentos de compasso de espera, quando a falta de paz que a realidade promove aperta o peito, que meu pensamento voa longe e vai buscar abrigo no território de nós duas.

Olho hoje para o meu quintal e flagro um milagre manso que imediatamente me fez lembrar de você e da sua casa. Um periquito rei, com o verde mais vivo que a natureza consegue pintar, pousou exatamente no meio das vagens retorcidas e secas do ipê. Fiquei olhando aquela criatura de olhos alaranjados, tão parecida com o seu papagaio, e compreendi, Janes, que a delicadeza do primeiro broto verde nem sempre é uma folha tenra que cresce devagar. Às vezes, o broto que nos salva da aridez tem asas, chega sem pedir licença e faz barulho no galho que parecia morto. Ele é o anúncio de que a vida continua pulsando, à revelia dos desertos humanos. Eu sei que o seu bica, arranha, mas também sei que ele te dá a melhor manifestação de afeto.

Escrevo-te para te dar coragem diante do cinza que tentam nos impor. Em outros tempos, eu estava aí com a xícara de chá, sendo sua consciência — igual ao Grilo Falante — impedindo confrontos que te fariam infeliz. Sei que o cenário atual exige muito dos nossos dias, mas lembre-se da menina que fomos e dos caminhos que trilhamos. É preciso ter a audácia de continuar conversando com as coisas do mato, limpando as gramas do nosso próprio chão e abrindo espaço para que o inédito aconteça. Que o verde do seu companheiro de penas aí na sua casa seja o seu lembrete diário de resistência. Não se entregue à bruteza do tempo; mude o foco do olhar, equilibre o passo no meio-fio do cotidiano e colha a poesia que nos salva dos desacertos.

Quando o dia findar e a noite reivindicar o seu pouso, saiba que a nossa órbita continua alinhada pela gravidade do afeto. Que você cultive sons bonitos no meio do barulho e encontre no silêncio do seu canto a força necessária para romper o chão de amanhã. Minha escrita atravessa a distância para te lembrar que nunca estamos sós enquanto houver asas para vigiar o horizonte.

Com todo o meu carinho,
Sua Tarzan

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

A Gravidade do Quintal e as Frases-Rastro

Bambina mia,

Aqui no meu lugar o tempo também se gasta entre um afazer e outro, mas a falta de paz que a ansiedade promove costuma ser varrida junto com as folhas secas que o inverno deixa cair no chão. Enquanto você caminha pelas ruas barulhentas do seu lugar tropeçando em frases de jornal, eu empunho a vassoura e organizo o meu microcosmo, sabendo que, em algum ponto invisível dessa nossa órbita torta, os nossos pensamentos se cruzam exatamente na mesma esquina.

Aqui, esfriou de repente, eu diria, para a confirmação pontual da moça do tempo. Será que é assim que o inverno se despede? Depois de dias ultrapassando os 40 graus, o alerta de frio me faz buscar um casaco enquanto te escrevo. Acho graça quando você diz que vivo no passado pelo tal fuso horário. Talvez as frestas do meu relógio corram mesmo um compasso atrás, mas é esse atraso manso que me permite acolher os teus ontens com o frescor de quem ainda espera o sol nascer. Nossas conversas, sejam feitas de risadas largas ou de silêncios compridos, são como os desenhos de graveto que você fazia na margem do lago: linhas efêmeras na terra que a água ou o vento apagam, mas que a escrita fixa para sempre na memória do papel. Somos, de fato, planetas vizinhos atraídos por uma gravidade muito própria, imunes aos eclipses do cotidiano.

O inverno que agora se despede definitivamente deixa seus últimos vestígios na poeira fina que limpei das prateleiras nos dias passados. Ele vai embora sabendo que a terra aqui já acordou, batizada pela bendita chuva que lavou a copa das árvores e preparou os galhos para o primeiro broto verde. Se a ansiedade aperta o peito aí no meio do concreto, daqui eu lhe devolvo o conselho: mude o foco do olhar, espie o sabiá que assalta as jabuticabeiras e lembre-se de que o passado que você enxerga em mim é apenas o modo mais bonito que o tempo encontrou de nos manter presentes.

Abro a janela e sigo acompanhando a dança das folhas com o vento. O frio faz com que Yoshi se encolha ainda mais no travesseiro em sua cadeira. Observo Chiquinho pairar no ar perto do seu bebedouro. Acho lindo quando ele dobra as perninhas e gravita em busca de sua bebida favorita. O alinhamento está feito, a gravidade está dita e a escrita cumpre a sua promessa de nos salvar dos desacertos.

Bacio, bambina, o dia aqui já começou, um tantinho depois do seu. Logo te darei um buongiorno, amore no seu futuro.

Mariana Gouveia

Nota de rodapé: a sua missiva que ocasionou essa resposta foi uma das mais lindas que já recebi. Só para seu conhecimento .

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6

Projeto 6 on 6 – A hora de ouro

Bambina mia,

enquanto você busca os contornos do crepúsculo entre as silhuetas verticais, eu me sento aqui no meu lugar para assistir ao ensaio diário que o céu faz antes de recolher suas malas. Olho para o alto e percebo que, embora a distância nos separe, partilhamos do mesmo relógio de frestas. Há uma urgência mansa no modo como o dia se despede. Mas, antes disso, eis que a imagem que sempre quis fotografar antecede aos meus olhos. A lua ((você) toda cheia de pompa tendo por companhia um avião. Lembrei de Calcanhoto e cantarolei baixinho aqui. Para mim, foi minha hora de ouro.

Seus olhos buscam a poesia nas esquinas paulistanas; os meus campeiam a luz que muda de tom além da rua de cima. A hora de ouro aqui não pede licença. Ela invade o quadrante do meu muro, espalhando pinceladas vivas de um calor que começa a ceder, transformando a poeira dourada do chão em uma moldura de começos e fins. Minha rua fica dourada quando o dia se finda.

Sabe, bambina, olhar para esse sol que desce lento, tocando as copas secas e as curvas dos morros distantes, me devolve imediatamente àquela menina que conversava com as coisas do mato na colina da cruz. A natureza opera sem pressa. Ela sabe a hora exata de adormecer, e deitar os olhos sobre esse horizonte limpo é um jeito bonito de encontrar abrigo.

De repente, o céu incendeia sobre as nossas cabeças. As telhas absorvem o último suspiro do dia, e o vermelho-fogo toma conta do espaço, lembrando as velhas calhas e os telhados que desbravávamos na infância. Facilitar o acesso ao desejo é também permitir que os olhos alcancem esse incêndio manso que limpa os contornos do mundo. A parabólica me entende quando o gesto é pura quietude.

Depois do fogo, vem a calmaria das cores que parecem inventadas. O horizonte se veste de lilás e rosa, uma delicadeza que contrasta com o calor bruteza da tarde. Um único galho se curva diante dessa pintura invisível, como quem agradece pela passagem do tempo. A vida ensaia o seu repouso no sutil. A solidão da tarde, às vezes, tem uma beleza sem tamanho.

A noite finalmente reivindica o seu pouso aqui no meu quintal. Os seres alados se enfileiram nos fios condutores, guardando o silêncio que precede as estrelas, enquanto a lua espia as pombas no fio. Outra hora do ouro minha que esperei acontecer. A poesia, acontece antes mesmo que eu perceba a cena. Descobri que a hora de ouro pode ser qualquer momento que a leveza nos abrace.

Mariana Gouveia
Lunna Guedes – Claudia Leonardi – Heloísa Helena Garcia – Obdulio Nuñes Ortega – Silvana Lopes

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BEDA #31 – O voo: Certas Melancolias da Correspondência.

Composição artística em vista superior sobre uma toalha de renda branca, exibindo dois cartões postais — um com estampa de azulejos portugueses e outro com uma pintura vintage de paisagem —, uma ilustração em aquarela de flores azuis, uma borboleta artificial de asas vermelhas e pretas, um dado vermelho, uma pequena concha e duas moedas antigas de dois cruzeiros de 1945.

Bambina mia,

se você jogar a moeda para o alto, eu escolho coroa — porque a realeza deste agosto insano e quente esteve impressa em cada palavra artesanal que a gente teve a coragem de entregar ao papel. Ana C. tinha total razão: há nostalgias e certezas que só a correspondência é capaz de recuperar. Enquanto você equilibrava os seus dias nesse calendário imaginário em São Paulo, eu acompanhava os seus passos daqui do meu lugar, dividindo o som rouco da cafeteira, o canto do sabiá e a beleza de ver mais um ciclo se fechar. Trinta e um dias se passaram num sopro de vento, e se para alguns agosto teve a lentidão de noventa dias, para nós ele teve a intensidade exata de um voo que soube onde pousar.

Que alegria imensa ler que Lua de Papel (livro dois) finalmente encontrou a sua versão definitiva! Sei bem o peso e o afeto de reescrever uma centena de rascunhos, de diminuir capítulos e de brigar com as próprias linhas até que a obra ganhe a sua pele mais bonita. O fazer literário é esse café forte, expresso, que renova o colorido dos nossos lábios e nos obriga a encarar a realidade com um sorriso no rosto. Passamos o mês inteiro viajando de uma esquina a outra, sabendo que cada linha escrita cruzava os nossos 1.540 km de distância para inventar um porto seguro no lado de dentro das nossas páginas.

Agosto foi feito de ciclos aqui. Vento, calor, calor e fumaça, calor e aves, calor e crisálida, casulo, metamorfoses, ruptura e voos — dos mais intensos aos mais leves. A joaninha produziu uma ninhada de ovos e voou. O sanhaço-laranja veio em uma manhã mais fria e voou. O Chiquinho arranjou brigas no quintal e voou, e o bem-te-vi veio beber água e tomar seu banho rotineiro e voou. Mas sabe, bambina, acredito que o ciclo rompante e maior aconteceu do lado de dentro. Eu ouvi sua canção e a acrescentei na playlist que tem seu nome. Será mais uma que ouvirei e repetirei seu nome baixinho.

Amanhã será setembro, o dia seguinte a tudo o que fomos e tecemos juntas. A música já ressoa pelos cantos da casa nova e a gente devolve os livros para a prateleira com a certeza bonita de que as nossas asas continuam fortes. Ganhamos o céu, cara mia.

Mariana Gouveia

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BEDA #30 – O voo: O horizonte visto de outra perspectiva

Fotografia em plano médio da copa densa e imponente de um ipê-amarelo completamente florido com cachos dourados e vibrantes, contrastando contra um céu azul límpido e sem nuvens.

Luci,

Vi que você disse que, nos últimos tempos, tem visitado árvores e, quando vi esse pé de ipê para além da rua de cima, lembrei-me de você. Acho que isso é o que faz a vida ficar mais bonita. De longe, eu o avistei; seu dourado emoldurava a rua, e fui seguindo a cor até encontrá-lo. Lá estava ele, majestoso e imponente. Vi também sobre o pedaço da revista que você guardou. Percebi que se fosse eu a pessoa entrevistada pela revista e me perguntassem: “O que lhe faz genuinamente feliz?” — ah, Luci! Eu diria que era ouvir o barulho das abelhas e dos pássaros nas flores do ipê amarelo.

É como um presente dar flor, sabe? E já aconteceu comigo também. Ganhei uns potinhos de sementes e plantei, cuidei de tudo. Desde aguar a terra a conversar com os rebentos e, por fim, os botões surgiram. Até fotografei na época. É como você mesma disse, Luci: as coisas bonitas da vida não são as coisas. A gente sabe disso e apenas ri diante do vento. Ou de uma réstia de sol que rouba um pequeno rasgo da telha. Era onde a Lolla gostava de deitar, a quase um palmo do nariz dela. Hoje vi esse rasgo de novo e resolvi te escrever.

Você me mostra o horizonte sob outra perspectiva, Luci. Quando você diz que sua rua tem uma tristeza bonita, ou quando vejo a Celestine — que eu amo tanto sem conhecer. Eu também acho os postes das ruas feios, coitados. Falo baixo para eles não ouvirem, mas na madrugada, quando o vagalume do meu lugar passa por eles, mesmo sem gotas de chuva, eles parecem setas indicando caminhos para o céu.

Eu bebi chá de gengibre e limão para uma coisa que nem sei o que é, Luci. Achei lindo o seu chá de cardamomo e rosa. Mas aqui, o calor beira os 40º e lembro-me de que ainda é agosto. Às vezes, penso em você numa rua de agosto e lembro-me da fotografia do caminhão de repolho e você ali, musa, confiando em árvores, pombos e seguindo as regras do sindicato.

Ah, Luci, às vezes, a vida é como uma árvore vista da janela do trem.

Te amo!

Mariana Gouveia

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BEDA #26 – O voo: A cidade que nasce da escrita

Lunna,
eu poderia dizer que escrevo essa missiva — como você gosta de chamar — para a Scenarium. Poderia também endereçá-la para você e para o Marco. Hoje é dia da Scenarium e abro o meu baú de memórias com uma xícara de café em mãos, enquanto percorro a geografia da cidade que nasceu da minha escrita. Enquanto você cita Cartagena, eu cito os caminhos e as ruas que a Scenarium me permitiu e me permite percorrer. Você tem toda razão: um lugar só ganha alma e se transforma em cidade quando passa pelo filtro das nossas narrativas mais agudas e lineares. Comigo, o seu filtro me guiou como se traçasse um mapa, e fui seguindo por ele, fazendo-me escritora.

A cada livro publicado, a poesia ganhou formas entre as minhas palavras e a sua edição. Eu encontrei o meu verdadeiro solo literário em um cenário muito específico, que hoje celebra o seu aniversário: a Scenarium. Foi ela a cidade que me acolheu quando eu ainda guardava minhas primeiras linhas em um baú; o lugar que abriu as portas para as minhas palavras e ideias, transformando rascunhos em livros palpáveis e cheios de alma. A Scenarium não apenas emoldurou a escritora que sou, mas pavimentou as minhas ruas internas com um afeto que vai muito além das letras e dos papéis. É ali, naquele fazer artesanal e cúmplice, que dou o meu primeiro movimento em direção ao sol.

E não foi só em relação à escrita que a Scenarium passou a fazer parte de mim. Atrás da editora, havia duas pessoas que estavam sempre de mãos estendidas, funcionando como setas para que eu escolhesse o melhor caminho, dando-me direções, evitando que eu tropeçasse e servindo de conforto nos momentos mais difíceis. Hoje, falta o Marco e a sua gargalhada estrondosa — esse signore gentil que distribuía sorrisos e afetos.

Se a Scenarium se transformou na minha “cidade”, é porque o afeto me moldou na pessoa que sou dentro da escrita. Cheguei simplesmente uma crisálida e fui me transformando aos poucos na mulher que voa e alcança pessoas para além das minhas palavras. Ver a arte sendo espalhada entre fitas, papel e letras, com a leveza de quem entrega momentos, nos faz perceber que quem recebe o pacote contendo um livro em mãos apenas se oferece como pouso para esse nosso encanto em voos.

Parabéns à Scenarium por ser o nosso porto seguro e o ponto de partida para tantas asas.

Bacio,
Mariana Gouveia

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BEDA #24 – A ruptura: A Costura do Que se Parte

Bambina mia,

Cuiabá é a capital da arte sacra. Não sei quem deu essa nomenclatura, mas o fato é que em cada rua no Centro Histórico há pequenas oficinas e salões onde são fabricadas essas artes. Os santos são variados e a fé também. Há quem tenha três ou mais santos ou santas para devoção. No corredor paralelo à rádio onde eu trabalhava funcionava o Museu de Arte Sacra, cujo acervo é composto por peças setecentistas. Hoje, por conta do mau estado do telhado, ele foi transferido para o Palácio da Instrução, no Centro.

O cuiabano é devoto por natureza e os artistas e artesãos, em sua maioria, têm um santo favorito para reproduzir. Um deles, e talvez o principal, seja São Benedito, ou Ditinho, ditando uma intimidade maior entre o santo e o devoto. É comum nos ateliês ver os santos expostos e toda espécie de arte sacra para venda.

Ler a sua caminhada atrás daquela signora com o São Francisco partido nos braços me fez pensar em como o divino afeta o povo de uma cidade inteira, claro que com algumas exceções. Há uma devoção muito bonita e quase secreta nos pequenos detalhes do cotidiano. Aquela mulher segurando a peça avariada como se fosse o próprio coração mostra o quanto nos apegamos às nossas primeiras versões e o quanto dói aceitar que nada volta a ser exatamente igual. O artesão da lona azul foi de uma sabedoria imensa: o que é feito à mão nunca se repete. Parecido, talvez. Igual, jamais. Acontece comigo quando faço meus artesanatos aqui. A comparação é diferente, mas quando um bordado tem de ser desmanchado por algum erro em um ponto, é difícil ficar igual. Melhor começar todo o trabalho de novo e seguir em frente.

Achei fantástica a sua observação sobre o olhar das estátuas. Escolher o São Francisco que ficou — aquele com os olhos voltados para o chão — é a tradução perfeita do que fazemos quando escrevemos. A santidade da escrita não está em olhar para o céu em busca de milagres abstratos, mas sim em curvar os olhos para a terra, para os bichos, para o rastro de saudade nas calçadas e para a humanidade que pulsa nas imperfeições. A beleza do trabalho artesanal, seja no barro ou nas palavras, mora justamente nessa incapacidade de ser cópia. Cada rascunho que a gente liberta é único.

No final das contas, o instante exato da libertação acontece quando aceitamos levar a peça nova, mesmo com o lamento do que ficou para trás. Seguimos valorizando os contornos feitos à mão e moldando as nossas próprias páginas, detalhe por detalhe, como se estivéssemos bordando histórias.

Bacio,
Mariana Gouveia

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BEDA #17 – A ruptura: O Desenho das Nossas Penumbras

Bambina mia,

Fazia dias que eu não bebia o ristretto, mas dizem que haverá chuva de estrelas. Então, liguei a cafeteira e, com a xícara em mãos, sentei-me no quintal para acompanhar o céu. Isso me fez lembrar de tantas coisas… Ler a sua missiva na calada da noite me fez caminhar pelas sombras que você tão bem sabe habitar. Há um fascínio quase sagrado no breu. Houve noites em que consegui visualizar imagens no muro: com as folhas do ipê caindo, os galhos formam figuras estranhas no chão que, em alguns momentos, parecem dançar de mãos dadas.

O escuro sempre me fascinou. Talvez porque, na fazenda, as estrelas chegavam bem perto da terra, ou os arbustos para além da estradinha serviam de ajuda ao meu pai para criar as histórias que ele adorava contar. Quando as luzes das casas daqui são desligadas, o quintal muda de configuração e um morcego aparece — o que causa pavor no moço daqui, que usa todas as expressões de “benza Deus”, enquanto o bichinho só quer beber a água açucarada do bebedouro do Chiquinho, meu beija-flor. Isso atiça meu modo escritora em muitas madrugadas.

Eu vi uma mísera estrela cadente e confundi muitas outras com satélites… mas desenhei o Caminho de Santiago com os dedos no ar, rindo ao lembrar daquela lenda de infância que diz que, se apontarmos o dedo para uma estrela, nascem verrugas na mão. Lembrei-me também do cemitério que ficava na rua à frente da rádio em que trabalhei. Costumava brincar com minha irmã, que ficava morrendo de medo dos meus plantões noturnos e dos meus almoços diários por lá. O Seu Lino dividia a marmita dele comigo, e quando eu contava para ela alguma história ligada ao cemitério, ela tapava os ouvidos. Nunca entendi esse medo, mas me divertia assustá-la às vezes.

E a imagem de você, menina, assistindo ao amanhecer sentada no telhado — arriscando o próprio corpo para tocar o céu antes de ganhar uma caneca de leite caramelado —, me fez olhar para o alto. Certas coisas pertencem mesmo à infância, mas o desejo de escalar o invisível continua tatuado em você. O velho relógio que bate as badaladas do passado aí também ecoa do lado de cá. As sombras nas rachaduras que marcam o chão do meu lugar formam desenhos que tento adivinhar o que significam. São as marcas das minhas histórias por aqui. Quase hora de ir para dentro; o Yoshi já me chamou algumas vezes.

O “dia seguinte” sempre chega com sua hora de ouro, mas é na magia das sombras que a gente se reconhece e se desmancha para criar novos formatos. Agosto é esse mês que amarela o quintal com as flores do ipê e deixa tudo em breu quando a noite cai. Não importa se de manhã, dentro do crepúsculo, ou se de noite, dentro do breu: nossas esquinas sempre se cruzam e se encontram.

Bacio,
Mariana Gouveia

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BEDA #16 – A mutação: Esquinas Pavimentadas com Bolo

Bia,

Fiquei sabendo do seu último voo ontem e nem era outono… senti pena de não ser outono e imaginei você pisando as folhas rua afora. Você adorava o castanho das coisas e de sorrir. Lembrei-me de quando a gente se conheceu há mais de 30 anos no ponto de ônibus. Falamos sobre o tempo e você falou sobre bolos, principalmente o de abacaxi que você tanto gostava.

Eu confesso que nunca conheci alguém com o riso tão fácil e tão cativante. E era entre risos que você dizia que regava a vida com chás e pavimentava as esquinas com bolo. As pessoas te conheciam pela delicadeza das mãos em fazer os bolos para festas. E das várias vezes que nos encontramos lá ia você com sua caixa de bolo pronto para entrega.

Eu também sabia fazer o bolo de abacaxi que você gostava e, na última vez que nos demoramos em abraços, você pediu a receita. E lá fomos fazer o bolo — eu, uma simples dona de casa, fazendo bolo para uma profissional dele — entre risos e chá. Você descobriu o segredo da fofura e se espantou com uma receita sem medidas. Era o segredo que te contei dias antes de você ir.

Queria te contar que a leveza com que você me ofertou a amizade ficará em mim como a forma do amor mais simples. Embora seu quintal tivesse as mesmas flores que o meu, as borboletas voavam diferentes por lá quando passei em frente. Um cheiro de saudade já se esparramava na rua inteira e eu apenas te agradeci por ter enfeitado a vida de tanta gente com a docilidade que só seu abraço tinha.

Com carinho,

Mariana Gouveia