Eles olhavam e não a viam. Ela fazia mais sombra do que existia.
Clarice Lispector
Querida A,
Escrevo- te como presente. Deveria te dizer que as letras são tuas e que você é apenas a personagem das minhas memórias. Te nomeio Ana e assim te faço real, quase toco – a nas palavras que avançam dentro da noite. Era você ali, no meu lugar comum e o riso cabia no ritmo das ruas. Para amanhã, as mãos escrevem a palavra final.
Não cabe a verdade das palavras tolas. O que vejo é você para além das cartas e diários que dizem mais sobre mim do que sobre você.
Era você ali, menina mulher com cheiro das folhas caídas no quintal. Sua história cantada nos cordéis da feira da rua de cima e vi que você é inventada na fé. Do espelho que quebrou ainda restam os cacos na pazinha na porta do fundo e o casarão já tem seu nome escancarado nas cores intensas e nas flores lilases esparramando – se nos muros.
É primavera e você poderia ter nascido em qualquer dia e fixo meu olhar nos dias em que te esperei. Hoje, te guardo dentro do meu abraço e ficamos partículas de um acaso, de encontros e reencontros nas esquinas entre a rua do meio e a rua de cima.
Atravesso a tarde como o vento que sacode as cortinas. As cartas espalhadas na cama e seu nome sendo perpetuado nas mulheres de sua vida e agora na minha. Dou – te a estrela mais brilhante e afirmo na densidade dos dias que ele te pertence em pura espécie de benção e de vontades. E que a liberdade te abrace na rotina dos dias.
Na sua estante, livros que desenham sua história na minha e você se transforma na personagem que cuido, trato e defino com nome de flor. O que será amanhã, quando o dia romper a aurora e você virar apenas sopro ou suspiros?
Amanhã, você será apenas a liberdade das gaiolas abertas.
Voa, menina, voa!
Mariana Gouveia
