Leonor,
Eu não cumpri a promessa de não te escrever mais. Eu estava limpando o jardim, tirando as ervas daninhas, e o vento fez o pé de menta espalhar seu aroma no quintal. Foi quando me lembrei de você – de novo – e quis te escrever. Até fiz um chá. Com ritual e tudo. Lembrei-me de que plantei esse pé de menta enquanto você fotografava meu riso despetalando a flor.
Mas eu deixei a carta em suspenso. Depois, li, reli e reli de novo. Quando percebi, o dia já tinha ido embora. A lua em seu estado suspenso já era vírgula no céu e Vênus – quase um piercing, de tão perto – no negrume da noite.
Foi aí que pensei, Leonor: vou te escrever aos domingos. Ou em dias de chuva – aqui, em alguns meses, não chove muito mesmo – ou até que cada última estrela da galáxia morra.
Isso pode durar séculos, Leonor.
Esses mesmos séculos que a gente já viveu antes, quando as estrelas ainda nem tinham nascido. Porque eu já te amava de muito antes. De todos os tempos, e acho que vou te amar sempre… Até o fim dos séculos e séculos, amém.
Por isso, eu vou continuar com as cartas, Leonor, mesmo que você não as leia. De alguma forma, o universo te contará.
Porque eu quero falar com você, ainda que esse seu silêncio nunca ultrapasse a barreira do som. Mesmo que você nunca leia nenhuma das cartas: as que enviei, as que embolei, as que nunca escrevi. Transformei-as em notas mentais, Leonor, junto com as que ainda vou escrever.
Falar com você é esse monólogo de saudades. Um roteiro às avessas, no qual me lembro da chuva em que você dançou. Da escada onde caí, das madrugadas contando as estrelas no telhado. Do cheiro de café sendo coado. Das mãos estendidas sobre a mesa da cozinha enquanto preparo o café da manhã.
Não é uma disputa de amor mais bonito, mas nenhuma pessoa – mesmo tendo formação profissional em psicologia ou sei lá o que – pode dizer que meu amor é mais feio que o seu. Isso eu vou deixar escrito em cartas, Leonor, para que fique registrado para todo o sempre.
Mariana Gouveia

This is beautifully written — full of longing, tenderness, and that quiet devotion that remains even in silence. I especially love how ordinary details carry so many memories and emotions.
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Thank You! Welcome!
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