Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Templos


Em Cuiabá tem mil museus
E tanta igreja
Que por mais que a gente veja
Sobra uma pra espiar

Henrique e Claudinho

Bambina mia,

Daqui a dois dias minha cidade completa seus 307 anos… acho até que já te apresentei ela em fotos e textos várias vezes e também já te contei sobre os templos que temos aqui e os da região. Confesso que tive dificuldade em escolher qual foto usar para esse projeto. Há tantos templos que juro que pensei em mudar o rumo dessa carta. Poderia usar meu templo maior que é o meu quintal, o Pantanal, Chapada dos Guimarães e sua magia dos paredões que lembram de fato, grandes templos… mas as igrejas ganharam destaque em meu coração. Cuiabá tem tantas igrejas que sempre falta alguma para se ver. A impressão que tenho é que, mesmo morando aqui há 44 anos ainda não vi todas.


A Igreja de N.S. do Bom Despacho fica no alto de um morro no centro da cidade e já de longe é possível admirar sua bela arquitetura inspirada na Catedral de Notre Dame francesa, faz parte do lindo conjunto de igrejas históricas de Cuiabá. A lenda é que debaixo do morro que a acolhe fica uma jazida enorme de ouro. Fato nunca confirmado.

Não longe dali, no centro histórico a minha queridinha… A Igreja de São Benedito e do Rosário. Sua construção teve início em meados do século XVIII, por volta de 1730, sendo erguida por mãos negras escravizadas que, mesmo diante da opressão, encontraram no templo um espaço de esperança, devoção e preservação de suas tradições religiosas. A igreja foi dedicada a Nossa Senhora do Rosário, padroeira dos negros, e a São Benedito, o santo negro símbolo de humildade e serviço. No dia do santo as ruas laterais se transformam em um salão de festa e devoção. Seu altar todo talhado em ouro encanta ainda mais os turistas e fiéis.

A igreja de Nossa Senhora Auxiliadora sempre me chamou a atenção por sua escadaria e sua cores noturnas. Durante muito tempo minha sala de trabalho ficava em um andar de um edifício voltado para ela e eu adorava quando o dia se encerrava e as luzes iam sendo ligadas e o sino me avisava a hora de ir embora. Era encantador ver as noivas se ajeitarem para entrar na igreja. Criada pelos salesianos tem ligação com um colégio que funciona ao lado.

Para além das ruas e igrejas de Cuiabá, precisamente na estrada para Chapada dos Guimarães, em uma das minhas viagens ao Parque Nacional da Chapada, me deparei com esse templo protestante erguido em 1958, dentro de uma fazenda, hoje patrimônio histórico tombado, se tornou uma Fundação Educacional que é jurisdicionada pelas Igrejas Presbiterianas de Cuiabá-MT, e pela Igreja Presbiteriana do Brasil. Localizada dentro de uma fazenda – que pela Fundação se transformou em internato – fica majestosa ao lado dos paredões.

No coração do Pantanal mato-grossense, a Igreja Matriz Nossa Senhora do Rosário em Poconé é um oásis de história e fé. Construída em 1781 com técnicas tradicionais usando óleo de babaçu na argamassa, esta joia do barroco brasileiro resistiu ao tempo e às cheias do rio Cuiabá. O interior é um espetáculo de cores: o altar-mor em estilo rococó contrasta com as paredes em azul colonial e os santos vestidos com roupas típicas pantaneiras. Durante a Festa do Rosário em outubro, a igreja vira palco da dança dos mascarados, tradição única que mistura fé e folclore. A visita combina perfeitamente com um passeio pelo centro histórico de Poconé, porta de entrada do Pantanal. Ao entardecer, quando os ipês ao redor florescem, o cenário fica ainda mais mágico. Nesse dia em que fotografei a igreja, só havia essa árvore que se chama Pingo de Ouro e seus cachos amarelos dourando a paisagem.

E as margens do Rio Cuiabá, no Distrito de Passagem da Conceição – em Várzea Grande, em um lugar bucólico que parece cena de novela está a Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Confesso que só descobri esse lugar recentemente. Construída com adobe, a Capela apresenta características do final do século 19 com um estilo Colonial e molduras simples. Em 2001 foi considerada Patrimônio Histórico de Várzea Grande.

Sabe, bambina, vários templos ficaram de fora e penso que além da parte turística que envolve a natureza como Chapada dos Guimarães e o Pantanal Mato-grossense, também as igrejas em suas formas variadas e históricas também fazem parte de todo conjunto turístico de Mato Grosso. Estou te esperando aqui para te mostrar. Vem?

Bacio,
Mariana Gouveia
Claudia Leonardi – Lunna Guedes – Obdulio Nuñes Ortega – Silvana Lopes

Afetos · Das palavras das cartas

para além das variáveis do outono.

Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa segurando-as com os braços esticados dizendo aos pais que era uma árvore.  Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala  pois as tuas raízes podem estragar a carpete. Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as folhas. Mas os pais disseram olha é outono.
Russell Edson

Querida Perla,

em um dia desses, uma poeta, em conversa com uma bambina se confundiu com o dia que o calendário marca na folhinha a chegada do outono. Imagine você que a poeta sou e te explico a confusão.

O meu quintal havia amanhecido com as folhas a dançar no chão… era um balé bonito de se ver, com as folhas num vruumm, vrumm, crááás, crááás… e os galhos todos pelados, como se tivessem mesmo despidos. Era 20 de fevereiro e não fiquei atenta ao outono mesmo… só me encantei com a delícia do som das folhas a se espalharem no quintal.

Mas, conversando com nossa bambina percebi que a natureza ultrapassa as linhas invisíveis das estações. A primavera atravessa os desvios aqui em pleno verão, e os manacá da serra daí exalam suas belezas fora do tempo. Talvez, pelo meu lado poético eu diria que o tempo endoidou e o calendário já não segue mais certinho os equinócios e suas mudanças . É definido aqui, nos astros e terminologia que rege em meu lugar que o outono , o meu outono antecipou suas variáveis e o ipê desfolhou todinho… ainda em um ontem recente estava com suas flores temporãs amarelas a dourar o chão.

Então, deve ser por isso, que ao atravessar o quintal daí, onde nascem jabuticabas, pitangas, maracujás e helicônias, suculentas e flor de maio – que floresce em outros meses além do maio – que a amoreira esteja recebendo os ares do outono. Ele está bem aí, batendo a porta…

Vamos abrir a porta para ele?
Abraço carinhoso.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Lombada de livros

Há coisas bonitas nesta vida; como café e livro, ou como a chuva, por exemplo…
(Páginas Vivas)

Bambina mia,

Quando vejo na TV, alguém sendo entrevistado, e ao fundo prateleiras com livros, fico curiosa e meus olhos se voltam para as lombadas dos livros para saber o nome dos livros. Acho até que já falamos sobre isso e sei que você também faz o mesmo.

O tema lombada de livros me pegou de jeito. Tenho cerca de 300 livros, mas os quais em sua maioria são os livros artesanais da Scenarium, que não possuem a famosa lombada, por ser um projeto artesanal.

Por isso, recorri-me aos poucos livros com suas lombadas e claro, atrevi-me também a ignorar as lombadas em algumas fotos. Já peço desculpas antecipadamente, porque ainda são 17:03 aqui.

Chove nessa tarde ligeira e ouço trovões logo ali, para além da rua de cima e os relâmpagos rasgam o céu. Fiz um chá azul e sei que você também gosta. Há um certo clima vintage aqui, não sei bem porque.

tenho uma estante preparada para os livros da Scenarium e os outros livros, deixo-os ao longo dos caixotes onde espalho minhas quinquilharias. Acho que já te mostrei isso também em alguma chamada de vídeo.

Assustei-me logo cedo quando falamos sobre o 6 on 6… já é março, bambina e os dias rompem ligeiros como se corressem para chegar a algum lugar. Logo será o outono – sua estação preferida – e eu confundi que era agora. Acho que até meu quintal se confundiu. As folhas do ipê estão caindo e as da fadinha azul também.

Foi aqui, bambina, que abusei da tal lombada… espalhei alguns dos livros no chão da varanda, porque na estante deles os nomes não apareceriam. Às vezes, eu faço isso para separá-los por ordem… mas, você sabe que a gente sempre deixa um aqui e ali…

A noite chegou mais cedo e os trovões parecem concerto de rock… o céu está bravio e a notificação da defesa civil me assusta mais uma vez. Yoshi se afunda na almofada dele enquanto tomo mais um gole do chá. Aceita?

Bacio,

Grazie!
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Silvana Lopes Obdúlio Numes Ortega

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6 on 6 – road trip urbano

Bambina mia,

E estamos cá para mais um 6 on 6 e ao pensar no tema, cruzando algumas avenidas do meu lugar, para além da rua de cima percebi que há várias nuances dentro desse road trip urbano. Poderia te mostrar os casarões da rua do meio, se decompondo aos poucos diante da passividade dos donos/justiça/poder público, etc… Poderia também mostrar as igrejas antigas – e igrejas não faltam aqui.

Mas, como Cuiabá tem essa fama de mato mesmo e grande parte do povo de fora pensa que aqui se encontra onça andando na rua e logo na avenida principal do meu bairro, me deparo com essa cena… resolvi te mostrar o lado animal das minhas ruas.

Não temos onça, mas temos jacaré e ele tem nome. Se chama Celso e atravessa na faixa. Pena que não consegui pegar essa parte. Ele mora em um parque dentro da cidade, que era só dele, mas resolveram criar no lugar um parque que se chama Parque das Águas, que era só dele e os humanos agora querem tirar ele de lá.

E sabe aquelas capivarinhas simpáticas de pelúcia? Tenho aqui, ao vivo, em pelo real, uma família todinha… uma não! Várias famílias, que também atravessam na faixa de pedestres, mas não consegui fotografar isso. Atravessam avenidas, param o trânsito e isso em uma área central e bairros luxuosos.

Bambina, bambina… eu me encantei com esse mocinho aí… foi se transformando aos meus olhos e até desci do carro para vê-lo de mais perto… e correu para dentro do bosque.

e dentro da normalidade para minha cidade, eis que os periquitos invadiram a cidade. Não vou falar aqui sobre como o homem invadiu o espaço deles tirando o meio de sobrevivência e os trouxeram para o espaço urbano.

E o que antes era só visto nas florestas, fazendas e meio do mato, agora se tornou comum nas cidades. Animais das mais variadas espécies fazem parte da rotina diária. O que aos meus olhos era comum no lugar onde nasci vejo aves e seus ninhos, famílias inteiras de animais silvestres. A gente já sabe de quem é a culpa e nem vou me ater ao convencional para esse passeio que te apresento. Espero que goste.

Bacio,

Grazie!
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna GuedesClaudia Leonardi – Silvana Lopes Obdúlio Numes Ortega

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Acordo de noite, muito de noite, no silêncio todo.

Bambina mia,

escrevo-te nessa tarde quase noite com nuvens grossas no céu que avançam rapidamente sob o quadrante do meu quintal. Sinto o cheiro de chuva chegando… acabei de ler sua missiva para uma outra pessoa e ainda me impressiona como nossas esquinas se cruzam em instantes iguais em tempos diferentes. Quando você falou sobre sua settimana meu coração reativou as memórias de nossos rituais diários. Posso dizer que viajei com você nas lembranças.

Na segunda, a gente não vendia o leite. Já era combinado que todo leite tirado na segunda iria para os doces, e os queijos. Além de tirar uma parte para a coalhada e a manteiga. Íamos para o galpão e os tachos de cobre entravam em ação.

Terça, cuidávamos da horta. Era o dia de retirar as ervas daninhas, revolver a terra, colher as pimentas, amoras, pimentões, quiabos, jilós, berinjelas e arranjar os canteiros para as novas mudas. Desde a mais velha à mais nova tinham sua função.

Quarta embrenhávamos na floresta e colhíamos desde as ervas medicinais ciceroneadas pela bá aos cogumelos. Também fazíamos pic nic e aprendíamos como sobreviver ali se algum se perdesse. As buchas vegetais cresciam perto do riacho, e os pés de palmito, que a gente conhecia como gueiroba – uma espécie de palmito amargo – além dos coquinhos que tinham as castanhas mais deliciosas do mundo.

A quinta era nosso dia preferido, acho eu. O dia dos quitutes. Logo pela madrugada meu pai colocava o forno de barro para aquecer e mãos na massa para modelar os biscoitos, ralar o milho para a pamonha e bolo para o resto da semana… o fogão a lenha crepitava e saia guloseimas deliciosas. Os pãezinhos e as broinhas, que depois de assados iam para as latas. Nesse dia, também se juntava a nós algumas das vizinhas da região. As histórias surgiam entre um assado e outro.

Na sexta a gente ia para as costuras, os bordados e para as tarefas do curso de bordados e corte e costura. do Instituto Universal Brasileiro. O linho para bordar, os riscos que minha mãe fazia, o dedal e as linhas tingidas por nós mesmo.

O sábado ganhava ares de festa na beira do rio. As minhas irmãs mais velhas lavavam roupas e estendiam sobre as pedras, enquanto os mais novos banhavam na parte rasa do rio. Na casa, era o dia de manter a despensa das carnes cheia. A fritura do toucinho para a banha, a preparação para as carnes de lata ficavam a cargo do meu pai e dos homens que trabalhavam ali. Como a professora da escola rural morava com a gente, ela nos ensinava usando em cada dia da semana, a natureza e sua forma de vida.

Já no domingo, era antes de tudo, o dia da missa, na igrejinha que meu pai construiu ao pé da colina. Depois, todos os vizinhos chegavam para o futebol. Enquanto as mulheres cuidavam do almoço. Lembrar de tudo isso deixou meu coração quentinho. Há ainda algumas coisas que se perderam na memória, entre um dia e outro… mas, de resto, a chuva começou forte aqui… um dia, escrevo sobre os dias de chuva para você.

Grazie por ativar essas memórias.
Amo tu imenso!
Bacio
Mariana Gouveia

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As vidraças nada sabem das pedras…

Bambina mia,

Chove torrencialmente depois de um dia de muito calor – minha realidade de sempre – e de uma ventania que espalhou as folhas todas pelo quintal. Senti aquela vontade de tomar banho de chuva, mas recuei diante de um ouvido ainda entupido.

Mais cedo, fui colher folhas de amora no quintal de uma amiga. É com a xícara cheia do chá pousada na mesinha junto ao notbook que te escrevo. Escureceu rápido demais e tão de repente, que pareceu uma passagem de tempo daquelas de filme. Um certo quê de nostalgia apareceu aqui. Estou no meu passado e os relâmpagos ecoam fortes, como se estivessem bem perto. Me fez lembrar de minha mãe que tapava todos os espelhos e vidraças de casa com lençóis brancos em dias de chuva com trovões.

Como você citou Patii Smith o pensamento me levou para uma livraria onde caminhamos juntas em um ontem que me traz saudades… você comprou o Ano do macaco e comentamos sobre a escrita das mulheres e a tentativa bruta de homens nos calarem. Já me disseram que eu uso a temática de Manoel de Barros e que quando fujo disso, falho. Fico repetitiva. O moço que quis corrigir meus escritos repetiu várias vezes as correções em poemas já publicados. Você sabe de quem falo.

Na novela das 18hs, ambientada nos anos 50, uma escritora se veste de homem para a novela que ela escreve ser aceita na rádio novela. Papel magistral vivido pela Nívea Maria. Daí, me pego pensando nas mulheres que você citou que vieram abrindo caminhos para que a gente pudesse hoje escrever sobre e como a gente quiser. E ainda bem, apesar de que ainda tentam nos calar.

O chá acabou, a chuva continua insistente e os trovões ecoam. As luzes da rua acenderam e a nostalgia ainda vaga por aqui. Grazie pela companhia.

Bacio
Mariana Gouveia

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A cidade que resta do outro lado da luz.

Ainda tenho a última carta que minha mãe me escreveu. Na época, ela estava aqui em Cuiabá e eu em Goiás, na fazenda ainda. Ela falava da saudade que sentia de nós e de como estava sendo difícil o tratamento renal. Depois, linhas abaixo, ela me pedia para cuidar da horta, dos meninos, do meu pai e pedia que eu escrevesse para a rádio que ela ouvia todos os dias e onde ela ainda me veria trabalhar, um dia. Foi dela que herdei a mania de escrever cartas.

Quando li seu texto fui atrás da minha caixa de cartas. Lembrei-me das nossas primeiras missivas e dos envelopes vermelhos. Eu ainda recebo alguns envelopes – a maioria, de Portugal – e longas cartas e envio também. Reli algumas hoje e lembrei-me de como cada uma delas fez diferença em meus dias, quando as recebi.

Dia desses, na minha esquina, três carteiros conversavam sobre o que eles mais entregavam e o que faz entrega na minha rua me chamou e disse aos colegas que minha casa era a única, em tantos anos que ele ainda entregava envelopes com cartas. Lembrei disso quando falamos sobre o ocorrido na Dinamarca.

Geralmente, aguardamos ansiosamente uma encomenda, consultamos códigos e rastreamos todo o trajeto feito , mas um envelope, com a carta que traz notícias de outra pessoa, é realmente mágico.

Já escrevi muitas cartas – e já escrevi tantas outras para outras pessoas – e tenho todas guardadas no coração. Converso há mais de oito anos com d. Dalva, de Jacareí. Mãe de uma amiga, que leu um post meu onde eu falava de cartas e ela me pediu uma. Depois da primeira, nunca mais paramos. Falamos de amenidades, de plantas – ela, de filhos e netos – e eu de artesanato e de coisas que nos encantam.

Todo mês chega a resposta da carta anterior que enviei e em cada palavra dela, o carinho e a tenacidade que minhas palavras causam nela. Não sei o que faria se aqui também acabassem com as entregas de cartas. Claro que ainda teríamos aplicativos de mensagens, mas o cheiro do papel e a letra bonitinha de d. Dalva aquece meu coração a cada envelope.

Acompanhei suas missivas de outono em nossos diálogos pela manhã e sei do quanto foi lindo e doloroso escrevê-las. Também tenho escrito muitas cartas aqui no blog. É um meio de atravessar barreiras e levar meu carinho e lembranças além dos envelopes.

Concordo com você. O mundo precisa de cartas. Acho que vou ali escrever uma. Ah, e tomar um chá também.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Tua tinta aprendeu a dureza do muro.

Já não leio as notícias há tempo. Acho que deixei esse hábito desde a pandemia. O medo dos números de vidas perdidas me assustava. Hoje, no máximo leio uma ou outra manchete que traz as notícias de agora.

Os sites do meu lugar passaram cada vez mais a noticiar os feminicídios e pasme… meu estado é onde mais acontece os casos no Brasil. No projeto que ajudo vejo a realidade bruta, nua e crua… e diante de tanta luta e dor a poesia me salva. É o que tento levar até elas. Você falou sobre a redescoberta de Sophia de Mello Breyner Andresen no Brasil. Suspirei. Lembrei-me da carta que escrevi para ela em 2018, em um projeto da Scenarium.

Como não tenho nenhum livro dela aqui, igual a você, fui aos arquivos buscar a missiva escrita e deixo aqui enquanto sorvo um chá de menta fresca:

Sophia,
Aqui, em uma mesa de canto, nesse café da rua do Meio, te escrevo.

Lembro-me da maneira que chegou até a mim e isso me leva para o cheiro da manga madura que fazia com que a biblioteca da escola fizesse quase parte da merenda. A fruta parecia quase tocável da janela, visto que o pé da mangueira anã resolveu dar o ar da graça ao toque de mão.

E por falar em mãos, foi pelas mãos da irmã Matilda que te descobri – ou ganhei – nunca sei ao certo.

Irmã Matilda era a freira boazinha que todo mundo amava e além de nos dar aula de ensino religioso era a responsável pela aula de leitura na biblioteca da escola.

Entre o exemplar de José de Alencar e parte da Bíblia Sagrada lá estava sua poesia camuflada de disfarce. Devo confessar que foi mais amor provocado pelo olho da freira do que propriamente amor de cara pela sua arte poética e lírica.

A maneira como ela me olhava enquanto eu te descobria nas leituras – parecia que havia cometido um pecado –  era como se partilhasse de um segredo tão dela e agora também meu.

Falou do quanto você a encantava e de onde era. Desenhou em palavras seu lugar, seu país e me levou em pensamentos para além do oceano até seu Portugal.

Depois disso, você se tornou companhia e eu te lia como oração.

Quantos poemas de amor foram lidos em voz alta nos corredores da escola, ou mesmo em apresentações para a família em dia de festa. Ou só, sob a luz de lamparina com sua cor azulada…

Hoje, te busco nos livros que ainda não li. Te encontro nas prateleiras do sebo ou na casa de uma amiga querida que a ama e cultiva tanto de coisas tuas e tudo traz à tona a poesia tua estampada no olho da irmã Matilda que voltou ao seu país de origem e nunca mais se soube dela.

É hora de ir, o café está esfriando enquanto as lembranças me fazem suspirar. O horizonte tem essas cores mistas entre o laranja e o lilás… Meu silêncio interno confronta – se com a correria de fim de dia, passos apressados em direção ao ponto de ônibus… Quase ouço a maresia quando te leio…

“A nossa vida é como um vestido que não cresceu conosco”

eu, sorvo a delicadeza da poesia no sabor do café. Aceita?

Beijos

Mariana

Afetos · Das palavras das cartas

Voar é humano… é transitório, momentâneo…

Mariana,

Ontem, depois de muito tempo, visitou-me uma sairinha de máscara.
Estava para sair, o tempo contadinho e a coisica veio procurar comida, colo, pouso, sei lá.
Queria ter ficado mais e a despedida foi meio como quem se despede do grande amor sem saber se era grande o suficiente para voltar.
Ninguém entende porque olho tanto para fora, para cima, para dentro: estou sempre esperando esse momento em que algo bonito pouse em mim mesmo que fique só um pouquinho.

NB: ainda preciso falar da cama auxiliar.
Luciane Recieri

Luci,

eu já estava com saudades de você… embora sempre esteja te vendo andando por aí, sendo pouso, conhecendo as ruas de Cuba e fazendo meus olhos se maravilharem com suas fotos.

Gosto muito dessa parte de ser pouso, Luci e de ver voos também e sei que é esse o motivo da gente olhar para dentro, para fora, para cima. Faz todo sentido para nós que somos seres alados.

Hoje, pela manhã, depois de vender os recicláveis para o projeto dos cães, eu lembrei-me de você quando Chiquinho chegou pousando no galho do pé de ipê e suas flores temporãs. Fui podar as plantas do quintal, mudar algumas de lugar, fazer mudas para quem pediu e o voo rasante dele em mim me fez chamar seu nome e repeti várias vezes: saudades de tu, Luci… lembrei-me de Lunna também que não entende a palavra saudade como nós.

Para ela, mi manchi soa melhor e achei lindo o contexto e o significado. Sinto sua falta… e foi daí que comecei a te escrever. Pensei na sua cama de não dormir e de como os embaixos de coisas não acontecem aí. Aqui é cheio de embaixos de coisas. Um dia te conto como são.

Janeiro está voando, Luci e parece que ainda há ontens perdidos em tempos que trazem saudade – olha a palavra aí, de novo – e de repente, o calendário nos mostra que já é metade do primeiro mês do ano e você já viu as ruas e os cães de Cuba e sorriu para seus sobrinhos. Tenho certeza de que, e a partir daqui, eu te copio em ser feliz. Não que já não seja. Mas não é desta felicidade amiúde que eu falo. É bem outra. Ando até a conferir a sinastria, porque acredito que entre as doze constelações, uma combina com a minha. Júpiter teria a ver com sinastria, Luci? Ontem ele estava esplendoroso na madrugada. Sabe lá, o que Júpiter nos reserva?

Recebi hoje algumas esperanças. Me deram sonhos antigos por ordem de importância, não data. Logo eu, que sou tão ligada em datas. Essa carta eu não vou usar os carteiros, Luci. Não haverá selos para ela. Por que amor, segundo minha mãe me disse um dia, antes de morrer, não tem selo. E hoje, eu só queria dizer que mi manchi

Beijo meu,
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6

6 on 6 – Seis livros e uma xícara de chá.

Bambina mia,

Ainda ontem te convidei para uma xícara de chá e relatei meu ritual com as xícaras. Não me lembro se te contei sobre a importância do chá na minha vida. Aprendi desde cedo a providenciar o rito do chá, claro que sob os cuidados de bá e da minha mãe, por isso, quando chegou até mim o tema eu me animei para a preparação. O livro sempre é companhia para a xícara de chá de fumega ao lado, enquanto lá fora chove ou venta.

Atrevi-me a fazer os chás terapêuticos devido a uma gripe forte que me deixou de cama nesse início de ano. Coloquei em infusão as rosas amarelas – ricas em vitamina C e um antioxidante natural – e adocei com mel. A rosa amarela tem outras propriedades medicinais, mas eu me alongaria muito aqui para nomear todas.

Enquanto a manhã acontecia recorri ao chá de gengibre, cravo e canela. É anti-inflamatório e o combinado dos itens também ajuda no controle da glicemia. Optei pelo gengibre fresco e o aroma invadiu minha cozinha. Sabe, bambina, me trouxe lembranças da infância e do bolo de puba servido com esse chá.

A minha mãe tinha todo um aparato para os chás. As xícaras de porcelanas e os bules acompanhando as xícaras. Eram presentes de casamento. O caldeirão de água ficava o tempo todo em cima do fogão de lenha, já fervente. Mas eu, só tenho xícaras avulsas de minha coleção, e algumas possui o pires combinando. Nessa foto, o chá foi feita de erva cidreira, fresquinha, colhida do pé no quintal. É a melissa – outro nome chic dela – e suas propriedades vai desde calmante, analgésicas e anti-inflamatórias.

E para combinar com o livro Linhas, rabiscos e borrões em azul o meu preferido chá azul. Feito com as flores da Clitória Tematea… além de lindo, é muito gostoso. Com propriedades que melhoram desde a circulação, controle de glicemia, colesterol e o que torna ele mais legal, além do colorido, é que pode ser tomado gelado.

E claro que combinado com flores de alfavaca o chá fica mais gostoso ainda. Alfavaca que muitos chamam de manjericão de folhas largas e deixa a cozinha com seu aroma delicioso. Um dos pontos chaves dessa mistura é a ação antimicrobiana. De resto, é aproveitar a leitura e o chá.

Gosto de acrescentar ao chá de canela e cravo cascas de maçã. Alivia a tensão e ajuda na circulação e controle de glicemia. Porém, deixo claro que faço uso desses chás aqui desde pequena. Mas do que servir como medicamento, é necessário ter conhecimento de que você tomar alguns deles. A minha variedade de chás é grande e faço uso deles ao ler um livro, antes de deitar e sempre que sinto vontade. A preparação para mim se transforma em poesia.

Sei que te convidei para um chá, bambina e trouxe aqui um apanhado de minhas experiências e sobre a preparação, assim como algumas dicas para quem vier ler essa missiva… Além de saborear esse líquido com livros em mãos, o melhor mesmo foi sua companhia.

Grazie!
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna GuedesClaudia Leonardi Silvana Lopes
Ps: para quem tiver interesse há muito mais sobre chás aqui