Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA #10 – A Mutação: O que dói deixar de ser?

Bambina mia,

Ao ler sua missiva em um desses dias em que o tempo parece insistir em olhar para trás, foi como ver um filme sobre minha infância. Assim como você roubava os biscoitos da nonna – e mais uma vez nossas histórias se cruzarem como se fossem cúmplices me fez sorrir – eu também ajudava meus irmãos a roubar os biscoitos, que ficavam em latas no lugar mais alto da prateleira e sabendo disso, minha mãe dividia vários biscoitos em latas para sempre termos biscoitos.

Também tive mesa cheia em agostos passados e os domingos eram uma algazarra para quem teve seis irmãos. Acho que nunca vou esquecer o sabor da macarronada com queijo de minha mãe, os causos do meu pai e os vizinhos que se juntavam a nós. Aqueles dias pareciam que iam durar para sempre. O melhor vestido, o caderno de poesia para declamar, o queijo derretido em cima do prato esmaltado e as conversas atropelando todo mundo num converseiro sem fim.

A história do seu primo que se tornou um especialista em passos me tocou de perto. Afinal, mudar de caminho exige a coragem exata de se desmanchar por dentro. Dói deixar de ser o que os outros esperam de nós — engenheiros, psicanalistas, ou qualquer molde rígido em que tentaram nos encaixar. Você trocou a psicanálise pelo universo ficcional e eu, agradeço o universo por isso. A gente nem sabia, mas essa sua escolha lá atrás foi o que nos levou a nos encontrarmos tempos depois e nossos passos se encaixarem nos caminhos. A gente nem imagina o quanto de nós fica nas rotas e o que o universo nos reserva durante esse caminhar.

Hoje, meus domingos são feitos de silêncios e canções. Em alguns, eu fico sozinha – e adoro isso – e confesso que a mesa ainda parece pequena, às vezes, para tantas memórias. Prefiro a quietude dos dias que são apenas meus, onde o único ruído em alguns dias é o farfalhar das folhas e o canto das aves pelo quintal.

Às vezes, a solidão escolhida também é uma forma de preservação. Às vezes, o que dói deixar de ser é apenas o cenário que já não nos cabe mais. Quando é assim, o melhor jeito é nos cuidarmos.

Cuidar de si, em silêncio, também é um banquete.

Bacio,

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

BEDA #9 – A Mutação: O avesso que herdei de você.

pai,

Hoje o calendário diz que é o teu dia, mas aqui dentro a vida exige o avesso. Dizem que há muitas fases para o luto, pai; a falta de uma pessoa que se foi provoca muitas mudanças nos anos que se seguem e descobri que mudar é um processo invisível e doloroso. Para que o voo aconteça amanhã, é preciso desmanchar-se por dentro hoje, recompor as certezas e aceitar a perda da antiga forma.

Dói deixar de ser o que eu era. Antes, eu era a filha; hoje, sou órfã. Mas, enquanto me desmonto no escuro desse processo, é a tua força que me sustenta. Olho para as minhas mãos e reconheço nelas os teus traços, a tua teimosia bonita e a herança da tua firmeza. As coisas de que você gostava passam a fazer parte das lembranças e, em diálogos com meus irmãos, é comum repetir: meu pai gostava disso. Cada um reage diferente à tua falta, cada um repete em gestos os teus gostos.

Neste domingo de sol forte, recolho os meus pedaços sabendo que herdei de você a coragem de enfrentar os próprios desertos. Bebo meu café pensando no teu abraço. Sigo daqui, sangrando as asas no silêncio, mas pronta para o tamanho do mundo que me espera.

Feliz dia, onde quer que a tua ilha esteja!

Com todo o meu amor,

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Literatura · Lunna Guedes

BEDA #7 – Casulo: O tempo que mora nos livros

Ler seu texto foi como abrir, eu também, um baú de silêncios guardados. Enquanto a moça do tempo prevê o retorno do frio para os seus lados, por aqui o vento de agosto continua a levantar a poeira seca do quintal quando varro as folhas, exigindo essa paciência mansa que só a lentidão das estações nos ensina a ter. Há dias em que os pés se recusam a caminhar pelo mundo lá fora porque o verdadeiro movimento está acontecendo do lado de dentro, no avesso das horas.

Comovi-me com a sua lembrança de Ana Luísa Amaral. Você tem toda razão: poetas não morrem, eles apenas mudam de ilha. Deixam as páginas amarelecidas como portos seguros para os nossos próprios barcos de papel. Esse desencontro cronológico de que você fala — estar sempre adiantada ou atrasada para os compromissos — é, na verdade, a prova de que a sua escrita habita o tempo da delicadeza, e não o tique-taque rígido dos relógios comuns.

O Universo – ah, o universo – sabe o que faz ao cruzar os mapas dos iguais, dos que se acolhem-escolhem. Receber um livro sem dedicatórias, preenchido apenas com a música pura dos versos, é o excesso mais perfeito da generosidade. É o texto bastando a si mesmo. Também tenho os meus “ontens” guardados em páginas que folheio devagar, sentindo o peso do que foi e o eco do que permanece. É preciso recuar, fechar as frestas e silenciar para conseguir segurar um cuore nas mãos sem que ele se quebre. Mas devo confessar que as dedicatórias nos Lua de Papel, com sua caligrafia ainda me emociona.

Que a sua Lua de Papel continue a iluminar as noites deste inverno esquisito. Beba o seu café sem pressa. Eu sigo daqui, no meu canto, tateando minhas próprias sementes e sabendo que, na poesia, nunca estamos realmente sós ou atrasadas. Sempre nos encontramos no meio do caminho ou numa esquina qualquer.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6

BEDA #6 | Projeto Fotográfico 6 on 6: Ponto de Vista – Pequenos nós impossíveis de desatar.

Bambina mia,

Olhar para o tema que você propôs para este Agosto me fez desacelerar o passo no meio do jardim. Há pequenos nós impossíveis de desatar que não nascem para ser amarras ou prisões, mas casulos onde a vida se enrola antes de ganhar asas. Olhar para essa curva perfeita do caule é ver o tempo se concentrando em si mesmo, esperando o momento exato em que até a delicadeza de uma borboleta decide pousar e testemunhar o que parece não ter fim. Há pontos de vista que já nasce poesia.

Sabe, bambina, sei que existem dias em que os nós não apenas barram o nosso caminho; eles nos envolvem e nos moldam por inteiro. Há qualquer coisa de muito visceral em perceber como ficamos, às vezes, encurraladas nas dobras que o tempo dá. Olhar para essa pequena joaninha guardada dentro da curva exata da gavinha é tatear o ponto de vista de quem aprendeu a habitar os próprios apertos, tentando decifrar se o laço nos protege ou nos aprisiona.

Nesses momentos de impasse, a engenharia da natureza nos desafia com sua gravidade e vertigem. Viver e escrever também é isso: ver a vida se enroscar de forma tão compacta quanto uma mola verde, nos deixando de ponta-cabeça diante do mundo. Resta-nos segurar firme na última curva e, feito esse pequeno besouro, encarar o abismo refletindo a luz com o nosso melhor brilho dourado.

Felizmente, há nós que, em vez de nos prender ao chão, nos suspendem contra o azul infinito. Quando tiramos os nossos impasses da sombra dos pensamentos e os deixamos dourar ao sol, a atmosfera muda de figura. O horizonte ao fundo se revela limpo, amplo e sem barreiras, mostrando que estar atada a uma linha não nos impede de encarar a imensidão do dia com as asas prontas para o voo.

No fim das contas, descobrimos que os nós mais difíceis de desatar são aqueles que escolhem o formato exato de um coração para habitar. São os nós que nascem do afeto, do cuidado e das nossas memórias. Eles seguram o peso do mundo em forma de uma gota transparente — uma lágrima suspensa no meio do jardim —, mas não paralisam; eles apenas abraçam e protegem o que está prestes a florescer.

Por isso, bambina, acho que os nós impossíveis são os ganchos exatos onde a nossa escrita e a nossa amizade se ancoram. Veja como esse aperto verde encontrou o seu espelho perfeito em duas asas que se abrem juntas, em uma simetria linda de cumplicidade. Que a gente continue assim, dividindo o mesmo pouso e os mesmos temas complexos, ocupando os espaços fechados sem pressa de desatar, transformando cada laço no nosso horizonte mais bonito.

Bacio,
Mariana.

Participam comigo nesse projeto:
Claudia Leonardi – Lunna Guedes – Obdulio Nunes Ortega – Silvana Lopes

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA #3 – Casulo: Das sombras que nos abrigam

Bambina mia,

Sua missiva me encontrou em silêncio, tentando decifrar o mistério dessa escuridão que você chama de abrigo. Não há estranheza alguma em culpar Patti – olha só minha intimidades! Às vezes, os livros têm esse poder de nos desestabilizar e nos empurrar para dentro de cenários que preferíamos esquecer ou silenciar no fundo do casulo.

Suas trinta e seis exposições em preto e branco me fizeram pensar no que escolhemos registrar e no que deixamos esquecido em rolos de filme nunca revelados. Eu, que carrego os olhos atentos da fotografia, entendo o seu desconforto com os túmulos. São caixas de concreto feitas para reter o corpo, enquanto o casulo — esse sim — é feito para gestar a alma. A morte, essa senhora honesta que você evocou, talvez seja apenas a última metamorfose, o romper definitivo da crisálida. Acho que lido bem com ela também.

Mas são as suas bibliotecas empoeiradas e as livrarias esquecidas que me tocam de perto. Você sabe o quanto gosto delas. Desde as mais simples e isso me leva para minha infância, até as enormes, como a Mário de Andrade. Sabê-la sendo disputada por traças dói como ver um ninho abandonado no inverno. Foi nela que Cadeados Abertos se abriu para as pessoas. Foi o lugar onde pari o meu terceiro livro.

Por aqui, o dia avançou devagar. Olhei para o Yoshi dormindo encolhido no canto mais escuro da sala e entendi a frase: escuridão também é abrigo. Há dias em que a luz do sol é forte demais para quem está mudando por dentro. Precisamos da escuridão do casulo para aprender a enxergar com o olho do coração.

Acho que Patti vai guiar os seus passos por aí. Eu sigo daqui, no meu próprio recolhimento, limpando a poeira das minhas gavetas e esperando o eco das suas próximas linhas.

Bacio,

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA #1 | Casulo: O verão que habita no meu inverno.

Bambina mia,

Suas palavras me pegou olhando para o meu quintal, tentando encontrar o calor que você evocou em suas memórias. Por aqui, o inverno também se faz de dias curtos e secos, mas a luz dourada do sol do meio da manhã insiste em rasgar o cinza e rebentar na parede sem rebocos da casa da vizinha da esquerda.

Enquanto você viajava com Eliane pelos verões da sua infância, eu pensava na das listas de C. e no quanto a vida, às vezes, nos exige esses “checks” para cabermos nas horas. Você sabe que sempre fui muito organizada. Lembrei-me de quando dividia as tarefas com meus seis irmãos na fazenda. Cada um com sua função. Mas a sua mesa ao ar livre, colorida e sem lugares marcados, me fez sorrir. No meu caso, tinha que haver lugares marcados e até rodízios porque cada um queria sentar perto da mãe. Havia uma escala. Um dia para cada um dos sete. Há uma liberdade bonita na infância que a gente tenta guardar no bolso para os dias frios. Depois que ela se foi paramos de sentar à mesa.

Hoje, o Yoshi está mais lento, afinal, a idade pesa. Ele ficou comigo, à espreita, enquanto o vento gemia nas folhas do pé de ipê. Olhando o vazio do inverno, que aqui é puro verão, percebo que o casulo não é uma prisão, mas a permanência silenciosa de tudo o que fomos. O seu desassossego delicioso é o milagre da metamorfose acontecendo por dentro, invisível aos olhos apressados. A borboleta laranja do maracujá – segundo dizem – rompeu seu casulo antes que eu me desse conta. Suspirei vendo-a “sangrar” para secar as asas.

Você foi buscar fôlego no quintal e eu fiquei aqui, desejando que o seu chá guarde o calor daquela mesa de frutas e risadas. Se o inverno aperta o corpo, que a nossa sincronia continue aquecendo a alma. Acho que nos dias de agosto será comigo os diálogos.

Beba o seu chá. Eu sigo daqui, cuidando dos ninhos e esperando o próximo casulo eclodir.

…
Corri lá para o aniversário de Catarina. Julho tem essa mania de trazer datas especiais aos nossos dias. Que venham muito mais!

Bacio,
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Dos sonhos de voar…

“Eu te ofereço voos. Os inteiros. Os quebrados. Os que ainda nem foram detalhados em toda essência de amar.”

Filho,

Você se lembra de quando brincávamos de voar? Meus braços te erguiam e te levavam ao céu — como você dizia. Aquilo sempre me lembrava o verso de um poema que dizia: “O céu é o limite…”.

E quando você me perguntava sobre o que era o limite, eu repetia o que meu pai me dizia quando eu ainda era menina: o limite é como a mudança da estação. Uma não pode roubar os dias da outra. É esse limite que a gente mastiga todo dia. Um dia querendo roubar as horas do outro. O verbo rasgando dentro de outra palavra. A dureza da vida tentando, em algum momento, nos roubar a alegria. A liberdade sendo colhida dentro de alguma regra, de algum “não pode”.

Mas eu sempre te disse que você podia. Para mim, a liberdade tem a ver com o céu — ou com o mar que me emocionou quando vi a imensidão dele — e com aquele azul imenso que presenciei no meu primeiro voo de avião.

Você era o menino do meu quintal. Aquele que sempre adorou a velocidade, os voos e a rebeldia do seu signo. Você sempre foi o sol do meu quintal. Aquele espaço onde desenhamos uma pista de Fórmula 1 para você voar. E você voou. Seguiu seus próprios voos e hoje tem total autonomia neles.

Hoje não é um dia comum. É o dia em que o ano se torna especial porque você nasceu nele. Como presente, eu te ofereço esse céu dourado que desenha sombras nos quintais por onde você anda.

Aqui, o céu está limpo, com poucas nuvens. Te ofereço esse céu como forma de abraço. Quero que saiba que, depois que você chegou, eu me senti completa e finquei raízes, como as plantas que teimam em se alastrar no quintal.

O sonho revolve o mundo, e dentro de cada sonho seu cabe a certeza da minha oração. Como tudo que voa precisa de pouso, eu quero sempre ser o seu lugar de pouso. Para te dar segurança na hora certa e para segurar a sua mão quando o caminho for difícil.

Eu te ofereço voos. Os inteiros. Os quebrados. Os que ainda nem foram detalhados em toda a essência do verbo amar. Eu te amo de um modo único e real, daqueles que nenhuma poesia consegue explicar.

Que todos os seus momentos sejam de aprendizado, de conquistas e de um eterno céu de brigadeiro para você voar.

Feliz Tudo!

Com todo o meu amor,
Sua mãe,
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Olhares invisíveis.

Quando olhou não viu nada
o instante é tão rápido e invisível com os olhos famintos de ver apenas o que é visível
Mas, o coração enxergou o vento, a asa, o gesto
coisas que são invisíveis apenas para o olho da alma.
Mariana Gouveia

Bambina mia,

Era quase manhã quando vi a névoa no meu quintal. O vento gemia nas folhas do pé de ipê e de tão acostumada com os pássaros no bebedouro de Chiquinho que nem percebi que as asas que ali batiam, e tentavam pousar no néctar açucarado era de uma farfalla – como você diz. O instante invisível durou apenas um segundo entre o voo, o pouso e outro voo telhado acima.

E foi no telhado que as misturas do ocre das telhas e da madeiras que um pequeno piado me chama a atenção. Logo eu que vasculho as coisas do lugar à espreita de instantes não havia percebido o pequeno ninho quase entre a porta da cozinha e a varanda. O lugar quase imperfeito para o nascimento de aves, mas que a mamãe sabiá laranjeira sabe melhor onde se sente segura. Logo teremos bebês sabiazinhos por aqui.

E por falar em pássaros, as coisas invisíveis acontecem a todo instante quando olho foge do que é natural. O trinca-ferro é um pássaro novo aqui no meu lugar. Já havia visto ele de relance, comendo as sementes do ipê. Mas, arisco, não me deixou fotografar… e eis que o pego “roubando” as jurubebas. O riso veio em seguida ao flash. Agora, já posso dizer que ele é mais um dos que moram aqui.

E de repente, a sensação inquietante de assistir o que é belo quando a poesia faz visitas no meu quintal, o olho não vê o casulo ser quebrado… ele apenas enxerga o instante mágico onde a vida é celebrada com o voo. A metamorfose aconteceu ali, mas o olho invisível conseguiu apenas presenciar depois do acontecido. A rotina silenciosa da manhã e a presença invisível (mas profundamente sentida) do milagre que é viver.

Sabe, bambina, às vezes, o olho tão acostumado ao comum não consegue captar o extraordinário, ou até consegue, mas encontrar o extraordinário não é comum e passa basicamente igual ao que vemos todos os dias. O voo de uma borboleta em busca de vento logo depois de nascer me faz ficar em silêncio. Ela segue seu rumo de casa e eu apenas murmuro um agradecimento ao universo. A iminência do desabrochar já aconteceu invisível aos olhos apressados, esperando o momento exato para se oferecer em luz.

Sempre registrei o cotidiano e também me encanto diariamente com instantes fugazes que acontecem neste quadrante do meu muro. Também escrevo cartas que muitas vezes embolo, não envio ou seguem seu destino em envelopes coloridos. Quando recebi o tema do mês pensei em infinitas possibilidades. O invisível aqui acontece a todo momento. Seja em uma fresta de luz dourada rasgando o cinza, num dia frio, seja na a luz do sol batendo na parede da cozinha, refletindo no chão da varanda ou iluminando a silhueta das plantas do quintal. Ou em uma missiva escrita pelo universo pleno de saberes.

Consegue traduzir o cabeçalho? Talvez fale apenas o que só é visível por dentro do tuo cuore.
Grazie por tanto e tudo!

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfcio 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto:
Claudia Leonardi – Lunna Guedes – Obdulio Nunes Ortega – Silvana Lopes



Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

O sol ergue-se contra mim.

Bambina mia,

Desde pequena sou eu quem arrumo as camas. Imagine uma manhã em alvoroço no meio de seis irmãos. As tarefas eram divididas entre nós: enquanto sobrava para mim esticar os lençóis e colocar por cima deles as colchas de retalhos, para as minhas irmãs restavam os outros afazeres.

Sempre fui mui organizada. Logo ao me levantar, ajeito os lençóis e a colcha que vem por cima, e aqui também tenho a mesma alegria sua. O Yoshi se enfia embaixo do tecido e fica à espera do carinho. Quando eu tinha a Lolla, era igual, até o dia em que ela não conseguiu mais subir na cama.

De uns tempos para cá, o Yoshi se assusta ao ouvir o mover do móvel para o encaixe da colcha e corre para a porta da cozinha. Assim que a coloco no lugar e digo: “pronto!”, ele vem numa alegria que preenche o quarto com seu pulo na cama. Ali, ele fica à espreita de onde estou nos afazeres da casa, até perceber que terminei tudo e vou para a varanda. Aí, é o quintal que ganha seus pulos e farejar.

E C. tinha razão. Arrumar a cama é nos encaixar dentro do dia, caber nas horas e nos carinhos de nossos cães.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Até que cada última estrela da galáxia morra.

Leonor,

Eu não cumpri a promessa de não te escrever mais. Eu estava limpando o jardim, tirando as ervas daninhas, e o vento fez o pé de menta espalhar seu aroma no quintal. Foi quando me lembrei de você – de novo – e quis te escrever. Até fiz um chá. Com ritual e tudo. Lembrei-me de que plantei esse pé de menta enquanto você fotografava meu riso despetalando a flor.

Mas eu deixei a carta em suspenso. Depois, li, reli e reli de novo. Quando percebi, o dia já tinha ido embora. A lua em seu estado suspenso já era vírgula no céu e Vênus – quase um piercing, de tão perto – no negrume da noite.

Foi aí que pensei, Leonor: vou te escrever aos domingos. Ou em dias de chuva – aqui, em alguns meses, não chove muito mesmo – ou até que cada última estrela da galáxia morra.

Isso pode durar séculos, Leonor.

Esses mesmos séculos que a gente já viveu antes, quando as estrelas ainda nem tinham nascido. Porque eu já te amava de muito antes. De todos os tempos, e acho que vou te amar sempre… Até o fim dos séculos e séculos, amém.

Por isso, eu vou continuar com as cartas, Leonor, mesmo que você não as leia. De alguma forma, o universo te contará.

Porque eu quero falar com você, ainda que esse seu silêncio nunca ultrapasse a barreira do som. Mesmo que você nunca leia nenhuma das cartas: as que enviei, as que embolei, as que nunca escrevi. Transformei-as em notas mentais, Leonor, junto com as que ainda vou escrever.

Falar com você é esse monólogo de saudades. Um roteiro às avessas, no qual me lembro da chuva em que você dançou. Da escada onde caí, das madrugadas contando as estrelas no telhado. Do cheiro de café sendo coado. Das mãos estendidas sobre a mesa da cozinha enquanto preparo o café da manhã.

Não é uma disputa de amor mais bonito, mas nenhuma pessoa – mesmo tendo formação profissional em psicologia ou sei lá o que – pode dizer que meu amor é mais feio que o seu. Isso eu vou deixar escrito em cartas, Leonor, para que fique registrado para todo o sempre.

Mariana Gouveia