Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Gosto da penumbra das madrugadas lentas.

Bambina mia,

a madrugada acontece serena e limpa. Dá para ver o azul escuro para além do quadrante dos muros. Caminho pelo quintal aspirando o chá de menta na xícara. Busco entre o escuro os pirilampos tão frequentes aqui, mas não tive sorte dessa vez.

Ouço algum pássaro noturno que não reconheço pelo canto. Uma brisa leve balança as folhas do coqueiro e o chá alivia um pouco a tosse e a febre. A noite foi longa e gosto de ver a madrugada chegando lentamente… a moça do tempo ontem alertou para um calor mais abrasante do que o normal e fico desejando que essa brisa dure a manhã toda.

Sinto no ar o perfume das flores da Orai pro nóbis e é certo que quando clarear o dia ela exibirá seus cachos cheios de flores cheias de pólen para as abelhas e borboletas. Um cão ladra e molho levemente algumas plantas e isso me faz lembrar de um poema de Casemiro de Abreu:

Levantei-me de madrugada. Reguei a buganvília.
O mundo já não é o que era

Volto à cozinha para mais uma xícara de chá enquanto ouço no quarto o ressonar do moço daqui. Logo o relógio despertará para o primeiro dia dele no trabalho depois das férias e já temos cinco dias vividos de janeiro, bambina. Os dias correm um após o outro e os meses virão… a cidade acorda, o cheiro de café e pão da casa da vizinha atiça uma fome que esteve ausente esses dias.

A manhã clareia e a vida pede urgência nos afazeres… sirvo mais uma xícara de chá. Aceita?

Bacio,
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Dos invernos que sua falta faz.

A ausência é uma forma de inverno 
Luís Garcia Montero

Eudes, minha flor,

hoje foi dia de separar as tampinhas para o projeto. Sim, eu continuo ajudando no projeto das tampinhas e não há uma vez que eu não pense em você. Ontem, eu conversei com Edi e falamos do frio – extremo para mim – que está fazendo lá na Bélgica.

Fiquei imaginando o tempo por lá e falei sobre o calendário que acho eu, esqueci de jogar fora desde que você se foi. Claro que aqui o verão impera e nem sonho em viver em um lugar com menos de 10º…

Sabe, me sinto pequena para te escrever… fico pensando nas respostas que você daria, nas interações que você faria … eu diria que não há espessura para a saudade e aquilo que a gente brincava de guardar segredos…eu ainda os guardo embrulhadinhos no meio das bonecas de panos e caixas do projeto.

De vez em quando falo em voz alta com você. Te conto coisas que não contaria para ninguém a não ser para você e fechei os olhos quando atravessei a ponte para ir ao aeroporto. Só os abri depois que a sua rua ficou para trás.

Alguém me perguntou sobre o modo poético do gosto da saudade e eu disse que tinha o gosto do quiabo frito e servido com molho de mostarda, mel e cebolas caramelizadas com pimenta calabresa. Nunca mais comi. Acho até que daria conta de seguir receitas, mas e seu riso diante de minhas piadas sem graça? Como eu poderia?

Os pedacinhos das nossas memórias estão guardadas no meu coração, como as colchas de fuxicos de retalhos que fizemos juntas ou como os quadros bordados que você sempre pedia para eu fazer. Até nas tampinhas que separo entre choros hoje.

Se eu te encontrasse hoje te falaria um monte de desaforos e cobraria todo esse tempo em que me deixou sem você. Eu acompanho seus meninos, Eudes e sempre divido com eles esse tanto de saudade que sinto, porém, mais do que a saudade, sinto um orgulho imenso de ter feito parte de sua vida.

Aceito nunca mais te abraçar… eu até aceito sua ausência em dias normais… mas quando chega esse dia em que o inverno da sua falta atravessa minha alma eu sinto frio, mesmo sendo verão aqui eu sinto muito frio nesse inverno que sua falta faz.

Te amo sempre!
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Navega-se sem mar, sem vela ou navio…

Bambina mia,

A folhinha do ano passado e os calendários espalhados – com suas anotações de troca de gás, de dia de folga, de horas extras feitas – pela casa já foram para o lixo ontem mesmo. E aqueles ritos de último dia de ano passou batido por aqui.

Ainda há aqui alguns restinhos do ano outro… e como você falou em polaroide, não resisti e quis te mostrar o mar tão meu. Eu conheci o mar, bambina e vi a magia das ondas se debaterem entre meus pés e a areia fofa. Era um sonho antigo, você sabe e me senti navegando ali mesmo, rente a praia.

Tive alguns momentos ruins nesses 12 meses que se chamam de ano, e alguns poucos instantes de alegria na alma e no coração. Por isso, talvez minha expectativa seja apenas de que 2026 seja leve e tranquilo.

Já é o primeiro dia desse ano… aqui, ainda brigo com a tosse e com o calor insano. Não choveu como a moça do tempo anunciou e os fogos ainda pipocam em algum lugar. Acho idiotice vibrar por qualquer coisa a base de um estouro… prefiro o barulho do mar que gravei e vejo no repeat.

Um feliz 2026 para todos nós!
Bacio,
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Carta ao meu irmão

Messias,

hoje estou no Rio de Janeiro, meu irmão e você seria o primeiro para quem eu ligaria quando chegasse. Ver as nuvens através da janela do avião me trouxe a sensação de estar perto de você. Até brinquei que devia estar escondido atrás das mais escuras, com o riso no olhar de quem fez peripécias.

Sabe, Messias, o calendário me lembra os dois anos sem sua presença por aqui, mas para mim, é como se fosse nunca tivesse partido. Ainda me pego querendo te contar coisas que aconteceram comigo e me pego chamando seu nome.

Amanhã vou conhecer o mar – um sonho antigo – e quando estiver ali, em frente a ele, sei que estará comigo, assim como esteve em tantos momentos meus. Ainda tenho na memória o capim no canto da sua boca e a gente desbravando a colina só para eu ver o sol se por. Você era meu guardião e acho que ainda é, porque te sinto perto de mim sempre.

Te amo infinitamente!
Saudades tantas de você.

Sua irmã,
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Quote literário

Um dia li num livro:
 «viajar cura a melancolia». 
Al Berto

Bambina mia,

Quando recebi o tema do último 6 on 6 do ano percebi que descobri os quotes com você. Claro que sempre teve uma frase ou outra mais marcante de um livro. Tenho inúmeras na memória… mas nunca fui de marcar com canetas os livros. Para mim, talvez movida por minha mãe, o livro era um objeto sagrado.

Talvez, por isso, doeu em mim rabiscar de lápis uma das frases que gostei em um livro que participei. Às vezes, uso um marca página ou uma folha para secar. De resto, sou alheia e até admiro quem consegue marcar com as canetas marca texto.

Acho que absorvo mais o momento, ou uma linha ou outra. Já bordei até, uma frase de um livro em uma camiseta, sob encomenda. Pena que foi em uma época que as fotografias não eram tão instagramáveis como hoje.

Já Ana – de Marte – adorava circular com corações e brilhos, com cores que eu nem sabia existir em cartas, livros, brochuras e eu brincava com ela dizendo que ela marcava até bula de remédio. Às vezes, nas marcações dela haviam até pontos de interrogações aos montes, para depois me perguntar quais eram minhas impressões sobre isso ou aquilo.

O fato é que o quote ou citação de uma frase tem a sabedoria de usar um mote para chamar a atenção sobre o que gostamos em um livro. Meu pai sempre me pedia para escolher uma parte de um verso que eu gostava. Mas, sabe, bambina, acho que ali, era mais pedagógico para eu memorizá-lo do que precisamente um ponto marcante do poema ou livro. Ele, em sua sabedoria, me incentivava dentro de sua simplicidade.

Para meu pai, a frase do Neil Arsmstrog sobre o homem pisar na lua ecoava em tantas histórias que ele repetia sempre que podia. Daria um bom quote, né? Mas, daí seria um quote lunático?

Havia um único livro de minha mãe que trazia infinitas marcações com a caneta vermelha. A Bíblia. Ela marcava os versículos e repetia-os entre as outras orações nas festas de santo. Eu já sabia de cor alguns que faziam parte dos Salmos… repetia-os em sintonia com a fala dela. E estranhava como ela “rabiscava” a Bíblia – que era sagrada aos olhos dela – e os livros que líamos não podia ter nenhuma rasura ou riscos. Não consegui resposta para isso dela. Pra mim, o quote é como um bilhete deixando recado mais bonito do que deve ser lido e aceito com o coração. Como esse é o último projeto do ano, deixo aqui, talvez, o quote do momento, sem risco ou marcação: Feliz Natal e um ano novo de frases para te encantar.

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

Afetos · Das palavras das cartas · infinitamente · Lunna Guedes

A noite despencou e quebrou três estrelas.

Procuraram toda a casa, toda a terra,
Ninguém a achava.
Ela estava no telhado atrás da chaminé.
Olhava as estrelas e cantava.
Estava tão feliz e sossegada!
Olhava as estrelas e cantava.
Meu Deus, está louca ! Vamos levá-la.
Estava tão feliz!
Olhava as estrelas e cantava

Ana Hatherly

Bambina mia,

eu queria lavar algumas palavras antes de dizê-las para você. Queria fazer igual, lá na minha infância-juventude aonde ia para a beira do rio lavar os lençóis de linho que minha mãe bordava. Tudo era feito com tanto cuidado para não estragar as linhas. Eu lavaria com perfume de flores a palavra amor, só para deixar o meu abraço com cheiro de poesia para você.

As imagens do último ano passaram rápido na minha mente. Parece que foi ontem que eu disse Auguri! e já é seu dia de novo. Sei bem que será tudo novo e tudo diferente. Sei também que deve ser difícil esse primeiro momento, mesmo que haja trovoadas, esse reencontro com uma saudade estimada em falta. Mas, sei que os trovões são quase como um presente de volta e de amor.

Assim, como para mim, você se tornou um presente diário. É com você que me abro como se pudesse chover e te molhar com minhas histórias que se casam com as suas e que se tornam nossas. Com você, eu sou essa verdade que tão pouca gente sabe. E mesmo com tantos mil quilômetros entre nós sei a careta que está fazendo e até a próxima fala. Mas, isso não quer dizer que sei tudo de você, que é essa caixa de Pandora e que desenterra poesias e afagos no cão e na minha alma.

Algumas coisas nos liga… os mapas, a bússola, os livros, as músicas e as missivas. Deve ter mais de um milhão de coisas com nomes diferentes e significados iguais entre as mulheres da poesia que você me trouxe e a bá que te apresentei… entre qualquer coisa que em uníssono eu e o meu moço aqui dizemos seu nome ao menor sinal de Itália. Seja em comida, música e futebol. A lua em riso, a lua tão cheia, a lua de nomes estranhos e cores que fogem da nossa lua… da lua minguante, crescente e das fases que a gente diz divinal. E das estrelas – de Marte, que está em Sagitário agora – e de rotas geográficas que nos levam sempre para a anoite, onde três estrelas despencou…

A gente ri de amora madura, de sabiá tomando banho em uma saladeira que virou piscina de pássaro; ri de gato subindo escadas, de cão se escondendo debaixo do edredom e de memes engraçados. a gente ri porque é bom rir com você, mesmo que a mensagem só seja respondida depois da fisioterapia ou de uma reunião de última hora.

Eu te amo imenso e te desejo paz no tuo cuore… te desejo prazeres como os passeios com o cão, o café coado na hora, as suculentas dando filhotes e mais mudas encontradas nas calçadas por onde anda. Também desejo descobertas de livros novos, em sebos aleatórios, ou livrarias escondidas em uma ruazinha qualquer da sua cidade. Um pé de manacá da serra florido, ou um pé de ipê forrando a calçada com seu tapete de flores só para você fotografar e lembrar de mim.

Te desejo trovões-saudade, temporais-saudade, garoa e folhas pelos caminhos… ah, e não posso me esquecer das hortênsias azuis em um jardim qualquer a arrancar-lhe o riso… Mas, antes de tudo isso, te desejo coragem… de enfrentar a noite, de vasculhar gavetas, de reler cartas/missivas, de mergulhar nas lembranças e até para enfrentar o calor…

(acho que você entendeu sobre o calor)

Te desejo abraços, pessoas novas, estranhas – que se tornam as melhores pessoas pra você gostar e desgostar – e muitos rabos de dogs te cumprimentando nas ruas. E por fim, desejo bolo de fubá nas manhãs ensolaradas, risotos para um almoço qualquer e muito café – ou um pouco de tanto – e pão… com o cheiro acordando a vizinhança com memórias de quem sabe o que guardar no cuore e na mente.

Vou estar aqui sempre, se precisar, com todos os desvios e acessos liberados para meu quintal, minha casa, minha vida. Minha mão estendida te alcança mesmo quando na lonjura não te acho… quero que sua gargalhada ecoe sempre nas minhas mensagens e que o som dos pássaros seja a nossa playlist nas manhãs/tardes/noites de nossas vidas.

Amo tu imenso!
Auguri!
Bacio,
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Eu queria (só) perceber o invislumbrável.

Ph; Pinterest

Logo que comecei a trabalhar no rádio, lá pelos anos 80, a gente recebia várias cartas dos ouvintes, onde pediam músicas, contavam histórias. Era outros tempos. Foi quando comecei a receber as cartas de A. Sade. Um jovem, segundo ele, de 28 anos, que morava no meio da floresta amazônica. No interior do estado de Mato e sua grandeza que alcança os biomas todos.

Naquele tempo, as estradas eram escassas e quando havia ou os carros atolavam, ou a poeira tomava conta de tudo, junto com os buracos. Sade falava sobre a floresta e seus habitantes e eu, a menina recém-chegada no rádio contava sobre minha história. A floresta, por si só, me encantava. Me fazia lembrar da minha floresta da infância. As letras miúdas e a ansiedade para que a cada quinze dias o carteiro me trazia notícias dele e levava as minhas.

Não era nenhuma conversa romântica, nem nada que me fizesse pensar em namoro ou algo assim. As começavam com um “oi, querida! Como tem passado?” e a ele discorria sobre o pássaro diferente que ele havia visto na manhã do sábado passado, com a data específica e as cores… Eu, respondia sempre com um “oi, moço, eu vou bem e você?” e contava sobre o novo amigo que fiz que trabalhava no cemitério e dividia o almoço comigo. Ele temia a palavra c e m i t é r i o… eu adorava a palavra e s p í r i t o d a f l o r e s t a.

Foi através das cartas que conheci o Tangará azul, e suas especificidades. Uma fotografia veio em um dos envelopes e me mostrava o tal pássaro, que tinha o nome de uma dupla sertaneja local, que a gente tocava na rádio. Ele já conhecia a canção… e dizia que seu velho rádio conseguia pegar as Ondas Médias da rádio que eu trabalhava.

Às vezes, pela demora da entrega, chegavam duas cartas juntas… Eu sabia o nome dos cães, do cavalo, da fazenda que se chamava Esperança e ele entendia meu luto recente pela perda de minha mãe… de que eu havia dormido no banheiro, no horário de almoço, porque estava muito cansada. Também sabia que meu pai havia ido embora e eu havia ficado com meus três irmãos mais novos.

Uma das alegrias que compartilhávamos era receber o envelope com listras verde e amarela e devorar de uma vez o que a floresta me trazia e a cidade levava até ele. Até que um dia, perguntou-me sobre namoro-namorado e eu respondi que preferia estudar, trabalhar e cuidar dos meus irmãos até que se tornassem adultos e escrever um livro.

O próximo envelope trazia quase que um bilhete… poucas linhas e ao invés do “oi, querida!” tinha apenas meu nome, sem a abreviatura que acontecia, às vezes, e algo que lembrava o fim de um sonho e um ponto final na palavra, sem um tchau, adeus ou até breve e um aviso de que não precisaria responder e que aquela seria a última carta. E foi.

Mas sempre me lembrava da floresta que ele descrevia e de como a natureza preenchia a vida de um modo tão simples, mesmo com um sonho sonhado só.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Chegou outra carta no quarto de hora.

Bambina mia,

Hoje será uma segunda-feira atípica por aqui. Levantei-me as quatro e trinta da madrugada… o sol já desenhava seus traços no céu. Uma mistura das cores do crepúsculo que sei que você ama tanto. Pelo menos aqui está clareando mais cedo. Lembro-me de que era para ser o malfadado horário de verão.  

Aqui também choveu a noite inteira e recolho as folhas que caíram enquanto a água ferve para o café. Você sabe que faço meu café do modo antigo… o coador de pano já espera paciente as 3 colheres generosas de pó e uma de açúcar.

Coloco a rádio online que acompanho enquanto lavo as louças do ontem. Os afazeres da casa tomam uma parte da minha manhã porque tenho hora marcada no cabeleireiro.  São coisas necessárias, mas que mudam minha rotina de andar com o cão entre as duas esquinas antes que o calor invada tudo aqui. A moça do tempo disse que atingiremos a máxima histórica. Creioemdeuspais! Há alguns alertas coloridos na região do meu lugar.

Quando volto do salão, o sol já mostrou seu cartão de visitas e o que era para ser parcialmente ensolarado atinge o que penso ser o ponto extremo da janela dele. Preparo os pacotes para entregar na parte da tarde e enquanto busco alguns adereços para enfeitar o laço me deparo com alguns envelopes vermelhos e uma missiva antiga sua. Aparece a data de um último dia de maio de 2017. As memórias me abraçam.

Você me perguntou se eu vi para onde foram as outras horas… acho que voaram entre nossos quintais porque me assusto com o relógio que já assinala meio-dia.  Tenho pouco tempo entre o almoço e meu compromisso. As nuvens já aceleram no céu com presságio de chuvas e de temporal – como a moça do tempo falou – e isso me faz colocar a sombrinha na bolsa para não esquecer.

Olha só como o tempo, vento muda tudo por aqui. Já ouço trovões para os lados do sul e sigo rua acima para pegar o ônibus…. onde releio sua missiva algumas vezes e isso me faz abrir um sorriso.

Grazie por isso!
Bacio

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Eu amei as tuas calçadas.

Fotografia: Lunna Guedes

Bambina mia,

Coloquei sua música para tocar no aplicativo para falar com você. Ainda há pouco, ouvi trovões e gritei seu nome… como de costume. O barulho vindo do céu me faz lembrar você, assim como a chuva e tantas outras coisas… calçadas também.

Fico repetitiva quando falo de calçadas e de você e de como caminhar ao seu lado me fez sentir tanta ternura. A proteção que você ganhou do moço que guiava seus passos, ganhei ao seu lado.

As calçadas do meu lugar em sua maioria foram quebradas por algum órgão público ou privado para o “conserto” de alguma coisa que foi malfeita. Nenhuma novidade. Prefiro me ater ao seu caminhar com o cão, com as sombras, com algum transeunte aleatório que cruza seus passos.

Quando li sua missiva as cenas foram passando em minha frente como se fosse um filme… Lembro-me da primeira missiva que li sobre o tuo menino e ali, o destino nos uniu – ou reuniu. Conheci a gentileza dele detalhada nos menores gestos e no riso solto. E lembro-me bem das calçadas em que ele nos guiou em noites de lançamentos.

Enquanto te escrevo cantarolo com Simply Red e a memória resgata o cheiro do café, a risada cativante e a dança feliz no pequeno corredor entre o quarto e a sala. Dividi com vocês instantes únicos que ficaram em meu cuore.

Sei que as caminhadas recentes ultrapassam a presença física onde o concreto é mais abstrato que pensamos e sentimos. Não precisa de nome e nem de definição. A gente sente e pronto.

Chove bastante e a água trouxe aquele cheiro que a gente ama. Isso me leva para a varanda do seu antigo prédio, enquanto chovia em São Paulo em um ontem que me enche de saudades. Pudesse voltar no tempo, eu voltaria e daria mais um abraço, ou pediria mais uma xícara de café ou conversaria mais.

É assim que nos ligamos via esse mundo afora. Nas temperanças das poesias que você me dá, nas suas suculentas que aceitam água, no momento fofo do cão debaixo do edredom… nossas saudades se juntam de maneiras diferentes e de tonalidades variadas. É como se eu atravessasse seu quintal e você usasse um desvio para chegar ao meu. Sei cada cantinho até chegar ao escadote que ele preparou… sei das pedras que te guiam entre as samambaias.

Sei de você e ao mesmo tempo traz a incógnita da pessoa incerta e vasta… e como ainda trovoa aqui, grito seu nome e dou uma risada quando o bem-te-vi responde lá da árvore no quintal. Percebo o quanto de você existe aqui no meu lugar, nas minhas calçadas onde andei conversando com você sobre a poesia errada que alguém mandou, sobre a lua que atravessou um céu inteiro nublado e nem eu ou você vimos. Sobre como o calor te incomoda mais do que a mim e sobre como tudo que vivemos vira essa lembrança doce quando penso em você.

Grazie por isso!
Bacio
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

De repente, faço uma anticarta, antidoto de páthos

Bambina mia,

Ainda tenho na memória o sabor da massa a dissolver na boca e o cheiro que exalava no dia. Alguém me disse que há dias em que os próprios dias acontecem e esses dias, que acontecem assim, aleatórios são os que ficam dentro da gente como se vestíssemos a alma com as lembranças.

A palavra pão agora sempre me leva até você, assim como a palavra lua, que está majestosa no céu de hoje. Enquanto refaço na memória seu roteiro na cozinha no ontem que pareceu hoje. O cão aos meus pés, à espreita dos pedaços que escapam e o vinho.

Sabe, bambina, eu que era de medidas agora meço no olho qualquer receita. E acaba por dar certo – ou não, como tu mesmo disse – e tudo bem também.

Agora, enquanto te escrevo o pássaro noturno se aproxima e não tenho nem um pedaço de pão para espalhar por ali, se bem que ele prefere o bebedouro do Chiquinho enquanto sob o telhado da vizinha a lua cheia surge sobre o quadrante do meu quintal. Coloco a playlist que leva seu nome, com as músicas que ouvimos aí e com as que me envia sempre. Seria essa a trilha sonora da saudade e da vontade de um abraço?

Faço mentalmente mais uma vez a lista das comidas que quero quando for aí… chego a salivar, assim como quando vejo as fotos dos seus pães… o cheiro da manteiga a derreter e a saudade de você que aquece meu coração.

Bacio

Mariana Gouveia