Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Eu queria (só) perceber o invislumbrável.

Ph; Pinterest

Logo que comecei a trabalhar no rádio, lá pelos anos 80, a gente recebia várias cartas dos ouvintes, onde pediam músicas, contavam histórias. Era outros tempos. Foi quando comecei a receber as cartas de A. Sade. Um jovem, segundo ele, de 28 anos, que morava no meio da floresta amazônica. No interior do estado de Mato e sua grandeza que alcança os biomas todos.

Naquele tempo, as estradas eram escassas e quando havia ou os carros atolavam, ou a poeira tomava conta de tudo, junto com os buracos. Sade falava sobre a floresta e seus habitantes e eu, a menina recém-chegada no rádio contava sobre minha história. A floresta, por si só, me encantava. Me fazia lembrar da minha floresta da infância. As letras miúdas e a ansiedade para que a cada quinze dias o carteiro me trazia notícias dele e levava as minhas.

Não era nenhuma conversa romântica, nem nada que me fizesse pensar em namoro ou algo assim. As começavam com um “oi, querida! Como tem passado?” e a ele discorria sobre o pássaro diferente que ele havia visto na manhã do sábado passado, com a data específica e as cores… Eu, respondia sempre com um “oi, moço, eu vou bem e você?” e contava sobre o novo amigo que fiz que trabalhava no cemitério e dividia o almoço comigo. Ele temia a palavra c e m i t é r i o… eu adorava a palavra e s p í r i t o d a f l o r e s t a.

Foi através das cartas que conheci o Tangará azul, e suas especificidades. Uma fotografia veio em um dos envelopes e me mostrava o tal pássaro, que tinha o nome de uma dupla sertaneja local, que a gente tocava na rádio. Ele já conhecia a canção… e dizia que seu velho rádio conseguia pegar as Ondas Médias da rádio que eu trabalhava.

Às vezes, pela demora da entrega, chegavam duas cartas juntas… Eu sabia o nome dos cães, do cavalo, da fazenda que se chamava Esperança e ele entendia meu luto recente pela perda de minha mãe… de que eu havia dormido no banheiro, no horário de almoço, porque estava muito cansada. Também sabia que meu pai havia ido embora e eu havia ficado com meus três irmãos mais novos.

Uma das alegrias que compartilhávamos era receber o envelope com listras verde e amarela e devorar de uma vez o que a floresta me trazia e a cidade levava até ele. Até que um dia, perguntou-me sobre namoro-namorado e eu respondi que preferia estudar, trabalhar e cuidar dos meus irmãos até que se tornassem adultos e escrever um livro.

O próximo envelope trazia quase que um bilhete… poucas linhas e ao invés do “oi, querida!” tinha apenas meu nome, sem a abreviatura que acontecia, às vezes, e algo que lembrava o fim de um sonho e um ponto final na palavra, sem um tchau, adeus ou até breve e um aviso de que não precisaria responder e que aquela seria a última carta. E foi.

Mas sempre me lembrava da floresta que ele descrevia e de como a natureza preenchia a vida de um modo tão simples, mesmo com um sonho sonhado só.

Mariana Gouveia

Deixe um comentário