Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6

6 on 6 – Inventário


Para o caso de o silêncio te acometer 
e recordares a língua estranha 
que aprendeste a meu lado
 Para o caso de regressares
humedecendo as lembranças de luas 
Para o caso de o trópico te reclamar
 impaciente entre seus verdes
 Ou para o caso de ser noite na tua morada 
deixarei aberta a porta.

 Josefa Parra

Bambina mia,

achei essa coisa de inventário muito bonita… fiquei vagando por horas em coisas que eu te deixaria, caso pudesse fazer um. Pensei na xícara de chá – ou café, quem sabe – com as folhas de hortênsias enfeitar a mesa – por certo, eu te deixaria um canteiro inteiro de hortênsias azuis, mas não é tempo delas por aqui.

Um disco da Gal – vinil mesmo – com a música que você gosta e cantarolou enquanto eu estava ao seu lado em um ontem que vivi alguns dias por aí. Ainda ouço sua voz enquanto a voz de Gal ecoa no repeat.

Uma lua – ou todas as luas em suas fases – querendo beijar a flor do meu ipê, como se pedisse colo ou pouso. Acrescento aqui os eclipses e as variadas luas de cores que se misturam nas manchetes, como lua de sangue, de morango e por aí vai…

Uma declaração de amor cheia de doce, ou melhor, de chocolate – que você ama. Mas, por via das dúvidas, deixarei escrito em cartas, poemas, paredes e em áudio, para não restar dúvidas do meu carinho por você. Amo tu imenso!

A brincadeira de um pássaro antes do voo e já imagino um riso seu, daqueles risos serenos, em tardes mansas quando uma imagem te abraça. Poderia te dar também um dos azulzinhos – mas eles, já são seus. Ou nossos – ou todos os pássaros juntos em voos e pousos, em ninhos ou cantando. Um bem-te-vi, um sabiá laranjeira, um alma-de-gato ou uma espécie que ainda não sabe o nome. São seus.

Por último, bambina, para as noites frias deixo-te uma xícara de chocolate quente… daqueles em que o cheiro invade a vizinhança e aguça memórias. Poderia ser uma infinitude de coisas ou apenas poesias em um caderno de capa dura… ou um latte caramelizado que nem aprendi a fazer, mas que vou treinar até chegar na medida certa para seu sabor. Seis coisas são bem aquém do que eu poderia deixar… Mas, caso nada disso dê certo, deixo-te as lembranças das conversas e do meu amor por você. Ti voglio bene.

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

Afetos · das coisas breves · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Estou mestre em abrir envelopes.

Engraçado como os rituais nos une… acho que já te contei essa história antes, por telefone. Os envelopes que eu preenchia tinham aquelas listas verde-amarela ao redor. Meu pai comprava em pacotes, já que eu os enviava aos montes para tanta gente. Isso começou com meus quase doze anos.

O programa de rádio que a gente ouvia tinha uma seção de correspondências. Ali, o endereço era anunciado e com isso, ganhei várias pessoas com quem eu trocava palavras. Entre tantas cartas, duas eram as mais esperadas. Por vezes, me perguntava como aquelas letras, no envelope, antes mesmo de abri-lo com cuidado podiam fazer meu coração acelerar.

Acho que posso dizer que foi meu primeiro amor. As cartas traziam cada vez mais declarações de amor e a vontade para tudo dar certo gerava torcida ferrenha desde o carteiro que traziam elas em sua bicicleta amarela até os empregados da fazenda que vigiavam comigo a cada quinze dias, o moço de uniforme amarelo e azul surgir lá no alto da estradinha. O namoro ficou sério e ele chegou um dia, como uma história de livro e que durou enquanto durou.

A outra carta que eu esperava ansiosa era de um rapaz com nome de Eris. Dizia que vendia livros, discos e artesanatos em uma feira tradicional da capital. Falava de liberdade, de sonhos e perguntava muito sobre a cidade que ficava perto da fazenda onde eu morava. Queria saber sobre o padeiro e sua família, o padre, o dono da farmácia, da pequena livraria e me mandava postais da capital, com seus prédios exuberantes e suas praças.

Quis meu retrato e mandou o dele. Já havíamos trocados muitas cartas, que eu lia para meu pai e irmãos e claro, todos os empregados ao redor da mesa, após o jantar. O pequeno retrato 3X4, em sépia e foi Antônio – o moço que tirava leite – que o reconheceu. Era o filho do padeiro, que sempre o atendia quando ia à cidade. Estudava na capital, mas nos fins de semana estava lá, na padaria, a ajudar o pai.

No fim de semana seguinte, lá fomos nós em caravana com as cartas em mãos para a cidade. Pernas trêmulas e coração acelerado, torcendo para que aquele amigo tão querido não fosse mesmo o filho do padeiro. As perguntas não cabiam na minha cabeça. Porque ele mentiria, ou melhor, porque não disse que era dali, do mesmo lugar que eu?

E era ele mesmo. Que nos reconheceu e entre os berros de meu pai e irmãos pedia desculpas, enquanto o pai dele não entendia o que se passava ali. A explicação era que ele queria saber se eu dizia a verdade através das perguntas que ele fazia. Que quando eu falava da família dele era como um abraço nele, distante. Rasguei os envelopes ali, na frente de todos. Magoada demais por ter sido usada comecei a selecionar as pessoas com que trocava cartas, mas nunca deixei de escrevê-las, mesmo quando não enviava.

Com a mudança de cidade, os envelopes foram para um baú e só foram ganhar mais companhias anos depois. Hoje, ainda troco as cartas com algumas pessoas que a internet me trouxe e outras daqueles tempos de rádio. Ainda vibro com o barulho do carteiro que estranha eu receber envelopes ao invés das faturas. Ele sempre repete que aqui dou vida à função dele.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Pai,

dona morte dos dedos de veludo, 
fecha-me os olhos que já viram tudo ! 

Florbela Espanca

Pai,

eu vim tantas vezes aqui para te escrever e falar com você… hoje, o calendário me lembra que fazem dois anos que você voou. Não posso negar que parece que foi ontem… os dias estão acelerados, pai.

Tanta coisa mudou por aqui e quase nada mudou… chove pouco, o quiabo que plantei já está dando flores e o pé de jabuticaba está verdinho. Isso, porque molho todos os dias o quintal e a hortinha. Outra coisa que eu queria te falar é sobre seu neto, pai. Ele vai casar e eu vou lá, para conhecer o mar e o amor da vida dele. Será que se você estivesse aqui, iria comigo? O mar, pai… prometo que depois que eu conhecer ele te escrevo.

Mas, a ansiedade me rodeia. E a tristeza também… é tão contraditório. Ser feliz pelo meu filho e triste porque perdi a Lolla, pai… a minha branquela azeda que me conduzia dentro de um amor imenso. Tenho tantas perguntas que ficaram sem respostas depois de sua partida e finalizando essa carta quero pedir um favor: se encontrar a minha Lolla por aí, por favor, cuida dela até a gente poder se encontrar de novo.

Sinto muita saudade de você, pai.
Te amo sempre e tanto!
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · infinitamente

Confissão.

Eu tive um cão ou era ele 
que me tinha e me deixava à solta 
guiada sem saber que ia. 
Tomava as minhas feridas,
 a tristeza que eu pudesse ter 
e sofria dela como eu nem sofria. 
(…)
Rosa Alice Branco

Lolla,

uma semana é tão pouco tempo no calendário dos homens. Parece que ainda vejo seu vulto no quintal, à cata de capim e ouço o tuc tuc de suas patas no cimento duro de parte do quintal.

Uma semana é tão pouco tempo para eu esquecer de preparar sua comida, seus petiscos, seus remédios. Limpei a caixa deles e esvaziei o lugar com suas coisas. Recorro em minhas memórias coisas que há uma semana atrás ainda existia por aqui.

Sabe, Lolla, em minhas noites tristes, brancas desde quando você se foi fiquei relembrando de quando te resgatei. Foram 13 anos desde o dia em que você chegou lamacenta, depois de uma chuva e entrou no carro. Só depois que percebi o quanto te machucaram. Física e mentalmente. Depois de tudo isso, foram mais de seis meses para verbalizar um au au.

Sempre quis te passar a confiança do quanto você era (é) amada e do quanto meu coração te cabia – mesmo tão gigante. Quando você me abraçava o mundo se transformava e você se tornou minha branquela azeda.

A casa está tão vazia. Sobra tanto da comida do Yoshi que me perco nas medidas de quem podia comer mais isso ou aquilo. Ainda estou aprendendo a viver sem você. Parece que nunca vivi sem seu olho vigilante que me alcançava em cada canto da casa.

Confesso, Lolla, que foi a decisão mais triste de minha vida… deixar-te ir para aliviar o sofrimento que foi seu companheiro nos últimos dias… ainda estou aprendendo, já disse. O seu diário traz anotações de coisas que nenhum animal poderia passar. Deveria ser apenas gulodices e buscar a bolinha amarela desbotada que ainda está ali, no canto da mesinha da sala.

Siga seu caminho por aí… corra pelo campos em manhãs amenas e descanse em tardes quentes. Um dia, a gente se encontra. Acredito muito nisso.

Obrigada por ter sido tão minha e tão rara em tanta ternura.
Te amo infinitamente.

Mariana Gouveia

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6 on 6 – Nossa casa.

Disse-te: uma casa.
Não falávamos há meses e isto
foi tudo o que te soube dizer:
uma casa, tenho uma casa.
Arrumei primeiro os discos, depois os filmes,
só então os livros, as loiças.
Como quem se abrigasse da chuva,
pendurei os primeiros quadros.
Quatro: estrada, mar, mulher, coração.
Começou a chover quando me perguntaste
se te convidava para jantar.
Era desnecessariamente Julho
e dentro de casa chovia tanto.
Disse-to, confesso, sem esperança
– apenas porque uma casa
é muito grande para guardar na boca.

Filipa Leal

Bambina mia,

Já é dia 6 de novo e agora, de outubro. A primavera que plantei na parte lateral da casa floriu. Não sei se ela resisti os 40º que acontece aqui. Nesse mês, tenho que te falar sobre nossa casa. Minha-sua-nossa porque é assim que sinto meu lugar para além dos muros, da rua de cima e o seu quintal aí, parte nosso…

Lembra-se do “nosso” azulzinho? Pois bem! Ele veio fazer do meu vaso de trevos a casa dele. Aí, com você aconteceu isso também – lembro-me bem. Mudei até a rota de meu caminhar pela varanda, até que ele esteja pronto e suas crias também para mudarem de lugar, já que o quintal tem espaço mais do que suficiente para eles.

E não é que ele serviu de exemplo para o sabiá laranjeira – que tem até uma “piscina” no meu quintal, agora tem também um ninho no telhado da varanda. Quase não percebi, a não ser pelo vai e vem dele aqui dentro. Não é que minha casa se transformou em nossa casa mesmo?

Acho que esse é um dos meus lugares daqui de casa. No fim do dia, minha casa mesmo é o quintal e a varanda é a porta para ele.

É nesse canto que posso ver o céu e suas nuances de fim do dia. E parece que o céu pegou fogo mesmo, tamanho o calor que faz aqui. Tive poucas casas na vida. Uma de pau a pique, quando eu ainda era criança e o quintal era uma fazenda inteira. Depois, quando mudamos para a cidade, uma casa de calçada alta, de onde eu via a TV pela janela da vizinha. Outras, foram apenas morada. Um lugar de paragem, porque havia outro lugar para ir.

Nessa casa – que te ofereço como sua também me possui há mais de três décadas. Cada canto desse lugar conhece minhas alegrias, meus pensamentos, minhas dores e meus tormentos. Em tantos momentos, o quintal me abraça. Em outros, o quarto me acalanta… A varanda me liberta nas tardes de café feito na hora e o pão de queijo assado. É um lugar de ninho, de nascimentos, de jardins, voos e pousos. E de portas abertas sempre. Vem?

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
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Afetos · Das palavras das cartas

Carta para minha mãe aos cuidados do quintal.

Mãe, eu sei que ainda guardas mil estrelas no colo.
Eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são
todas as estrelas que existem.

José Luís Peixoto

Mãe,

mais uma vez o calendário me leva para o dia de sua partida e o vento que atravessa meu quintal limpou todas as nuvens de chuva. Lembro-me de que chovia no dia em que você voou… e lembro da chuva molhar os flamboyants que circundava o cemitério e que fiquei brincando com as gotas nas folhas.

Hoje, o quintal nem ficou molhado… vai ter estrelas no céu noturno que se aproxima e mais uma vez vou cantar baixinho para você dormir. Revendo as poucas fotos que tenho é como se o coração não percebesse essa ausência… como se você tivesse logo ali, ao alcance das mãos, de um aceno, um abraço.

O tempo passa ligeiro, mãe, e mesmo sentindo como se fosse ontem, já se vão 43 anos… Uma vida inteira de saudade. Sinto tanta falta de tudo que não vivi ao seu lado e de tudo que você não pode saber de mim – embora, eu acredite piamente que de alguma forma, você esteve e está presente em tudo que fiz.

Os pássaros cantam finalizando o dia e o céu escurece rapidamente… Dessa forma, te ofereço meu amor sempre vou te dar notícias através das estrelas como você me ensinou.

Te amo sempre!
Sua filha,
Mariana

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6 on 6 – Fui por ai (viagens)

Da viagem secreta ao fundo do coração trouxe um sono vertiginosamente profundo. a água e o ópio a ausência e o ritual a epígrafe e o punhal a prece e a pressa de partir. amadureço este inverno que é segredo. e o óbvio é uma oração em rodapé

Isabel Mendes Ferreira

Bambina mia,

Fui por aí, bem logo depois que o vento faz a curva rever meu povo e meu lugar. Ainda é inverno nesse calor que transformou tudo por aqui em uma única palavra: insuportável. Fui intimada a comparecer aos instantes de felicidade de minha sobrinha e confesso que depois que desci do ônibus, pouco antes da porteira, as memórias me levaram tempo adentro. O campo de canola, antes de mostrar a beleza amarela, que me lembra as tardes de agosto no lado direito após a cerca me atrai pelo cheiro. O amarelo me lembrou a baba do cachorro doido atrás da cerca…

Do outro lado, bambina… o manto branco – em rolos embalados para entregas – se impõe. Houve um tempo em que a gente colhia tudo na mão. O balaio que mal conseguíamos carregar ia se enchendo de plumas… parece que ainda ouço a voz do irmão que já não está mais aqui a orientar as fileiras. Para mim, parecia que a terra estava de noiva, tal qual Juliana ficará mais tarde.

À primeira vista, após abrir a porteira o olho alcança o gado sendo aboiado. Sabia que meu pai aboiava o gado entre um pasto e outro com os olhos de quem domava aquele mundo? A falta dele é perceptível em cada canto desse lugar. O engraçado é que ele sempre achava que tudo pararia se ele não estivesse ali, em cima do Azuleiro – seu cavalo de estimação – com seu berrante e o êêê boi – e não parou, bambina. A engenhoca continua igual… tudo roda como se ele estivesse ali, dando ordens e indicando direções.

Ele é quase uma sombra entre os peões e os gestos deles são os mesmos que ele fazia… quase o vi ali, entre a poeira e o gado indo para o curral. Acho que é isso que chamam de saudade, amore… o que sinto agora vendo de tão perto, com os sentidos aguçados nos cheiros da terra pisada e nas lembranças que invadem meus pensamentos dentro da minha história. Ainda em um ontem, eu era a menina na garupa do alazão a aboiar junto ao peito dele.

Sem falar no Chuim – o boder collie que nasceu logo depois da cerca, ao lado do curral – que parece sentir minha chegada e me espera no triiero, como se eu nunca tivesse partido. Como se os dezessete anos dele não fizessem a menor diferença desde quando o peguei no colo pela primeira vez. Sempre perto a me acompanhar nos campos, atento a qualquer barulho. E a cada volta minha age como se eu nuca tivesse ido, como se ele soubesse que eu faço parte do lugar, assim como ele, que já deixa seus filhotes tão iguais a ele.

Não fosse por tudo dito antes, o cheiro da cozinha me carrega ao colo de mãe… dos quitutes feitos ali, pela senhora sorridente de sempre, que me viu crescer naquelas paragens… que acompanhava meus movimentos à beira de um fogão de lenha… A viagem era para o casamento da minha sobrinha e o meu lugar voltou no tempo, nos arranjos debaixo da velha árvore que nos viu crescer. Porém, eu viajei nas lembranças. Na falta dos que não estão mais aqui. Das coisas miúdas que mesmo se colocasse mil fotos não traduziria o sentimento que senti.
Fui ali, bambina, para abraçar os meus, em uma viagem feita dentro da minha saudade.

Volto em breve.
Bacio,

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
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Roseli Pedroso – Silvana Lopes

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Beda – Pai,

sirvo-me uma xícara de café enquanto te escrevo… o tempo passa dentro das nuances dos dias e esse café me lembra tanto você. Aliás, tantas coisas me lembram você. O cheiro da pimenta do reino, do pão de queijo, do milho verde e principalmente o cheiro que antecede a chuva.

Engraçado como me perdi nos dias depois que você se foi… hoje seria um dos dias em que o locutor do seu lugar leria essa carta para toda cidade ouvir e seu olho brilharia ao se reconhecer nela. Seu sorriso se alargaria e seus olhos se amiudavam. Sinto falta desse sorriso, pai. É apenas mais um dos dias dos pais que passarei sem você e acho que você tinha razão quando dizia que o tempo é o remédio para tudo, até mesmo para amenizar a saudade.

Pai, agora que o tempo já sobrepôs sua ausência acho que fiquei mais calada. Dei para conversar só – com meus silêncios – e percebo que não sei nada dos seus voos. Antes, bastava um telefonema, uma chamada de vídeo e te alcançar ao lado da janela ou na soleira da porta a espreitar a rua.

Às vezes, fico só pensando em tudo que não fizemos mais juntos e de como seria seu conselho diante do meu problema…, mas tudo isso, pai, é apenas para ponderar dentro da falta que você faz. Em um dia como hoje, você ficaria à espera de seus filhos e dos abraços, mesmo que fosse por telefone. E foi isso que eu vim fazer… te abraçar para além desse espaço.

Feliz Dia dos Pais!

Te amo infinitamente!
Mariana Gouveia
Scenarium Livros Artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

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6 on 6 – Seis meses, seis fotos.

,,,
Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos
O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para sua casa
do meu poema.

Helberto Helder

Bambina mia,

confesso que assustei-me com os seis meses – a pergunta foi: mas, já!! – para logo depois repassar na memória todos os oito meses que já vivemos e morremos. Lembrei-me de que alguns meses foram arrancados de nós, como quem arranca a folhinha diária do calendário. Lembra-se de que em janeiro, dentro dos melhores momentos a gente os seis meses do ano anterior.

Já fevereiro, bambina, em nossas manhãs, o café e o livro de sempre, fazendo com que a rotina fosse marcada pelas conversas, risadas e choros. Os planos e a incerteza de que eles fossem interrompidos e o mês seguinte sendo companheiro da dor .

Sabe aquela frase que alguém sempre diz sobre o tempo? Acho que a gente apenas quis continuar e mesmo abril sendo o mais cruel dos meses – um poeta escreveu sobre isso – a gente riu entre lágrimas e suspiramos no cair da tarde. Acho que viver é isso… um dia e uma tarde de cada vez.

Te contei sobre maio e suas trovoadas por aqui, lembra? E também falei sobre como os caminhos literários me levou até as ruas de França, nas mãos de quem gosta de mim… e a gente aprendendo a aceitar esse vazio, mas também seguindo em frente, porque é o que nos resta fazer.

Junho nos acolheu tanto em saudades como em afagos. Outono passou ligeiro dentro das leituras de outono e quando demos por nós, os meses foram recompostos em escritas e superação. Ou seria apenas o viver um dia de cada vez?

E assim, seguindo um dia de cada vez, degrau por degrau vamos enfrentando essa ausência que nos afeta e nos enche de saudade cada vez que penso no tuo bambino. Confesso que, às vezes, parece que ele está aí e vai entrar de repente na nossa conversa com seu bom dia radiante e sua gargalhada majestosa. Sou muito grata ao universo por ter tido a honra de tê-lo em minha vida. Eu só queria te dizer isto e aproveitei essa carta para tal.
Quero dizer também que estou aqui, sempre… para o colo, mão estendida e todo meu amor.

Amo tu imenso!
Bacio
Mariana Gouveia
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Participam comigo:  Lunna GuedesClaudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Catarina voltou a escrever.

Querida Catarina,

lembrei-me de que nunca te escrevi uma carta… logo eu, tão amante delas e mais ainda amante de seu lugar e claro que tinha que vir aqui hoje e brincar de festa…

11 anos traz muitas histórias contadas e emoções refletidas em textos que se eternizaram em forma de revistas. Se eu fosse colocar em termos técnicos você ainda é uma criança. 11 anos traz uma meninice doce, mas como sinto a maturidade nesses anos contados por aí.

Já te disse que amo seu lugar e que a cada visita me aconchego em suas palavras? E que cada texto em que você voltou a escrever me cabe na emoção das palavras. É quase um refúgio onde minha alma busca calma É onde você me leva pela mãos e nossas histórias e memórias se cruzam.

Auguri, Catarina!
Que venham mais 11, 12, 13, 14, 20…

Bacio,
Mariana Gouveia
Ps: quem quiser conhecer as palavras de Catarina o endereço é aqui.