Afetos · Das palavras das cartas · infinitamente

Confissão.

Eu tive um cão ou era ele 
que me tinha e me deixava à solta 
guiada sem saber que ia. 
Tomava as minhas feridas,
 a tristeza que eu pudesse ter 
e sofria dela como eu nem sofria. 
(…)
Rosa Alice Branco

Lolla,

uma semana é tão pouco tempo no calendário dos homens. Parece que ainda vejo seu vulto no quintal, à cata de capim e ouço o tuc tuc de suas patas no cimento duro de parte do quintal.

Uma semana é tão pouco tempo para eu esquecer de preparar sua comida, seus petiscos, seus remédios. Limpei a caixa deles e esvaziei o lugar com suas coisas. Recorro em minhas memórias coisas que há uma semana atrás ainda existia por aqui.

Sabe, Lolla, em minhas noites tristes, brancas desde quando você se foi fiquei relembrando de quando te resgatei. Foram 13 anos desde o dia em que você chegou lamacenta, depois de uma chuva e entrou no carro. Só depois que percebi o quanto te machucaram. Física e mentalmente. Depois de tudo isso, foram mais de seis meses para verbalizar um au au.

Sempre quis te passar a confiança do quanto você era (é) amada e do quanto meu coração te cabia – mesmo tão gigante. Quando você me abraçava o mundo se transformava e você se tornou minha branquela azeda.

A casa está tão vazia. Sobra tanto da comida do Yoshi que me perco nas medidas de quem podia comer mais isso ou aquilo. Ainda estou aprendendo a viver sem você. Parece que nunca vivi sem seu olho vigilante que me alcançava em cada canto da casa.

Confesso, Lolla, que foi a decisão mais triste de minha vida… deixar-te ir para aliviar o sofrimento que foi seu companheiro nos últimos dias… ainda estou aprendendo, já disse. O seu diário traz anotações de coisas que nenhum animal poderia passar. Deveria ser apenas gulodices e buscar a bolinha amarela desbotada que ainda está ali, no canto da mesinha da sala.

Siga seu caminho por aí… corra pelo campos em manhãs amenas e descanse em tardes quentes. Um dia, a gente se encontra. Acredito muito nisso.

Obrigada por ter sido tão minha e tão rara em tanta ternura.
Te amo infinitamente.

Mariana Gouveia

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