Bambina mia,
Ao ler sua missiva em um desses dias em que o tempo parece insistir em olhar para trás, foi como ver um filme sobre minha infância. Assim como você roubava os biscoitos da nonna – e mais uma vez nossas histórias se cruzarem como se fossem cúmplices me fez sorrir – eu também ajudava meus irmãos a roubar os biscoitos, que ficavam em latas no lugar mais alto da prateleira e sabendo disso, minha mãe dividia vários biscoitos em latas para sempre termos biscoitos.
Também tive mesa cheia em agostos passados e os domingos eram uma algazarra para quem teve seis irmãos. Acho que nunca vou esquecer o sabor da macarronada com queijo de minha mãe, os causos do meu pai e os vizinhos que se juntavam a nós. Aqueles dias pareciam que iam durar para sempre. O melhor vestido, o caderno de poesia para declamar, o queijo derretido em cima do prato esmaltado e as conversas atropelando todo mundo num converseiro sem fim.
A história do seu primo que se tornou um especialista em passos me tocou de perto. Afinal, mudar de caminho exige a coragem exata de se desmanchar por dentro. Dói deixar de ser o que os outros esperam de nós — engenheiros, psicanalistas, ou qualquer molde rígido em que tentaram nos encaixar. Você trocou a psicanálise pelo universo ficcional e eu, agradeço o universo por isso. A gente nem sabia, mas essa sua escolha lá atrás foi o que nos levou a nos encontrarmos tempos depois e nossos passos se encaixarem nos caminhos. A gente nem imagina o quanto de nós fica nas rotas e o que o universo nos reserva durante esse caminhar.
Hoje, meus domingos são feitos de silêncios e canções. Em alguns, eu fico sozinha – e adoro isso – e confesso que a mesa ainda parece pequena, às vezes, para tantas memórias. Prefiro a quietude dos dias que são apenas meus, onde o único ruído em alguns dias é o farfalhar das folhas e o canto das aves pelo quintal.
Às vezes, a solidão escolhida também é uma forma de preservação. Às vezes, o que dói deixar de ser é apenas o cenário que já não nos cabe mais. Quando é assim, o melhor jeito é nos cuidarmos.
Cuidar de si, em silêncio, também é um banquete.
Bacio,
Mariana Gouveia

Cuidar de si é essencial, é o que faço quando leio-te porque parece que piso em pegadas minhas de ontem e hoje e sei que passou por ali, pouco antes ou pouco depois.
CurtirCurtido por 1 pessoa
amo tu imenso!
CurtirCurtir