
Nos últimos anos a nossa rotina se mantém a mesma: depois do passeio com os dogs — o meu aqui e o seu aí —, e até antes disso, a gente conversa. Brincamos que falamos de tudo. Desde os assuntos do momento, novelas, memes, aves, frutas, artes, música e bobagens… É como se fosse mesmo um ritual para eu começar o meu dia.
Hoje coloquei a água no fogo por aqui também. Fiz o chá azul de que você gosta e, quando a xícara esvaziou, a farfalla — como você diz — chegou e pousou na minha perna. Isso tem sido rotineiro aqui nas manhãs. Elas pousam e, depois de um tempo, alçam voo quintal afora, de flor em flor. Acontece também com os pássaros, insetos e outros bichos. Acredito que é na repetição sagrada dos pequenos gestos diários que a alma encontra chão para descansar. Chamar esses movimentos de rituais muda tudo: o som rouco da sua cafeteira, o sabiá laranjeira cantando por aqui, o perfume do café invadindo a casa e o sol mudando de lugar na parede deixam de ser obrigações e viram poesia pura. Entender e aceitar o ritmo do próprio cuore e dos passos é a maior sabedoria que a gente pode herdar da infância. Dividir isso com você tem sido prazeroso, confortante e feliz.
Conheço a sua cartografia dos bolos. O de fubá — que eu amo e conheço tão bem — é o causador da minha saudade de bolo. O de paçoquinha consegue ser sensorial, e o de laranja guarda a memória dos seus primeiros dias em São Paulo, batidos na vasilha nas noites de quinta-feira como quem tenta dar liga à própria vida. Daqui do meu lugar, eu te entendo perfeitamente. Para quem escreve, a rotina não nos tranca; ela nos liberta. É o porto seguro que nos permite abrir as asas e voar na contramão de um mundo que vive sem respiração prévia. Mudar o dia do bolo é a nossa única transgressão possível. Eu bordo os tecidos aqui, e você costura com fitas de cetim as páginas dos livros.
No fim das contas, a nossa escrita também é esse bordado invisível que o tempo faz na pele-alma. Se o mundo lá fora se contorce com a pressa, a gente senta à mesa, degusta nossas pessoas-personagens e saboreia cada pequeno gole de permanência. O voo só é bonito porque a gente sabe exatamente onde fica o ninho.
Mariana Gouveia