Crônicas · Outubro Literário

A Alquimia de Inventar Cidades

Quando pousei os olhos em Lua de Papel pela primeira vez, foi como se uma bússola imaginária me levasse para o lugar onde nasci e cresci, e as minhas memórias me ligaram à Alexandra, a menina-mulher de Teodoro. A cidade “inventada” pela autora parecia a mistura das ruas por onde andei descalça, depois de mudar da fazenda para a pequena cidade de Arenópolis — que era apenas um distrito de Piranhas, Goiás. Há quem precise cruzar oceanos, recortar mapas e costurar fragmentos de vilas distantes para erguer o teto de suas próprias invenções. Mas, para mim, a igreja se desenhava na praça da matriz como se aqueles personagens saíssem de minha memória e buscassem vida na história de Lua de Papel.

É uma alquimia bonita essa de dar nome a cidades que só existem no papel, resgatando o silêncio de mosteiros milenares ou o contorno de castelos medievais para preencher o vazio das páginas em branco. Os escritores são, afinal, arquitetos de labirintos invisíveis. Mas, enquanto alguns retalham o mundo para inventar territórios, a história coube em mim como se a tivesse contado para a autora.

Me desvencilhando de Alexandra, a minha alquimia é mais terrena, feita de sementes que se enterram no escuro e de ramos que escolhem sozinhos para onde crescer. Percebo que aprender a ler as rotas secretas que a natureza traça nos meus canteiros é quase uma fuga da menina que ensaiou a primeira peça da vida no pátio da Igreja Matriz de Piranhas. O filme foi gravado e repassado em praça pública. Depois, não se sabe aonde foi parar a fita e hoje, o que tenho das duas cidades são apenas memórias de rua de terra batida, outras de paralelepípedo, a casa da d. Fulô — minha bá, a poucos metros da nossa — e uma casa de calçada alta onde disputávamos a janela para ver a TV na sala da vizinha, que só abria as cortinas se estivesse de bom humor.

Hoje, as cidades reais, por maiores que sejam, só ganham peso quando encontram eco nas pessoas que caminham por elas. Na memória e nos livros ficam as casas antigas e seus porões contando histórias, e de nada adianta se não houver um olhar disposto a decifrar as frestas do cotidiano e transformar o lúdico em lembranças. Por isso, enquanto as histórias ganham a forma de vilas antigas cheias de janelas curiosas, o meu quadrante de tempo se resolve na calmaria de uma tarde que desce devagar pelo muro. Mas sinto que, em tantos momentos, Alexandra me pega pela mão e me tira da cidade de ruas largas e poeirentas.

Termino mais um dia sabendo que a ficção é um recurso generoso para quem busca abrigo no impossível das cidades inventadas. Vez ou outra os lugares ficam imensos para mim, assim como São Paulo é para Alexandra. Mas a minha escrita teima em ser rastro daquilo que é vivo, lento e orgânico. Desligo o barulho dos horizontes inventados, sirvo o café e me aconchego na certeza de que o melhor porto seguro nunca dependeu de mapas tecidos ao longe. O meu lugar é feito de terra firme, ar limpo e da simplicidade de quem encontrou o mundo inteiro dentro do próprio quintal, mas em tantos momentos retorno com Alexandra para a Teodoro dela e as minhas Arenópolis e Piranhas para alimentar sonhos e desejos guardados.

Mariana Gouveia

Crônicas · Literatura · Outubro Literário

O Espaço que a Memória Pede.

Quando eu era menina, na fazenda, um dos bichos que mais me encantava era o bicho-lixeiro — um crisopídeo que meu pai chamava de Fortuna. Ele ia acumulando em suas costas as pragas do jardim: pedrinhas, restos de folhas, pulgões e uma variedade de coisinhas que encontrava em seu caminho. Era sinal de sorte — segundo meu pai — encontrá-lo em meio a uma folha, uma planta. Era um sinal de colheita boa. Fortuna devia ser um nome que traduzia os “tesouros” que ele carregava em suas costas. Achei um aqui no quintal esta semana. Lembrei-me de várias falas de meu pai sobre não acumular coisas e outros ditados que ele conhecia tão bem.

Fiquei pensando sobre o que acumulei ao longo da vida senão memórias, afetos e palavras. Há uma diferença profunda entre guardar o passado e deixar-se soterrar por ele. O tempo, em seu curso natural, costuma demolir quarteirões inteiros da nossa geografia física e emotional, e o choque diante das ausências muitas vezes nos empurra para a tentação do acúmulo. Cuidar de um quintal portão adentro me ensina, dia após dia, que a vida exige uma poda constante. Para que a horta simples prospere, para que os cactos encontrem sol e a physalis floresça com delicadeza, é preciso abrir espaço. É preciso ter a coragem de arrancar as ervas daninhas que tentam sufocar o agora. Não é sempre que a gente tem um bicho-lixeiro na vida.

Talvez sejamos apenas as escolhas que fizemos entre o que reter e o que deixar ir. Há quem transforme o próprio corpo e a própria casa em cômodos escuros, encolhidos e cheios de entulho, como se cada objeto recolhido ao acaso fosse uma tentativa desesperada de preencher um silêncio que assusta. São os colecionadores de passados estáticos, criaturas que, na pressa de reter a história de cada casarão ou de cada esquina que ruiu, esquecem-se de que a memória, para continuar viva, precisa de vento e de frestas. Faltam-lhes espaço interno para novos começos.

Já colecionei selos, papéis de carta, figurinhas do Amar é… Mas hoje fujo do excesso. O meu minimalismo não é uma recusa ao afeto, mas uma reverência a ele. O que se acumula hoje aqui são as sementes replantadas, as flores que acenam em um botão que se contorce nas pétalas que mais parecem abraços, ervas para o chá e uma flor medicinal que brota na terra, na sombra mansa do ipê ou no eco de um trovão que parece responder ao nosso chamado em tardes de tempestade. As lembranças mais bonitas não ocupam lugar na prateleira; elas flutuam leves, feito a rabiola de uma pipa cortando o céu limpo.

Quando a noite esparrama suas sombras pelo muro do quintal, dou por encerrada a limpeza dos meus canteiros. O bicho-lixeiro sumiu entre as folhagens. Desligo o ruído do mundo e percebo que, ao limpar o excesso das calçadas, o que sobra é o essencial: uma xícara de café coado há pouco, um livro aberto e a vastidão de um silêncio que não me assusta, porque finalmente aprendeu a ter espaço para caber a saudade.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Outubro Literário

As Cartas que o Silêncio Protege.

Cuiabá, sob o peso manso da manhã…
Bambina mia,

A sua carta chegou como o vento de primavera que levanta a cortina, espalha o cheiro do café pelo quintal e revolve as folhas e as sementes de ipê que rodopiam pelo ar. Ler sobre o seu cansaço antigo, sobre aquela dúzia de envelopes despejados de uma só vez no lixo da cozinha, fez o meu próprio silêncio ecoar por aqui. Há momentos em que ausentar-se das coisas do mundo não é um ato de desamor; é a única linha de defesa que nos resta quando o corpo cansa de carregar diálogos que já não encontram eco.

Você se pergunta o que sentiram as pessoas do outro lado quando você interrompeu a conversa. Eu arrisco um palpite, bambina: talvez tenham sentido o mesmo frio que dá na pele quando a agulha de metal para no meio do bordado e o fio fica solto, esperando um nó que nunca vem. Mas a literatura, assim como algumas plantas do meu quintal, sabe sobreviver à estiagem. Os envelopes amarrados com fita no fundo do seu baú estão apenas esperando o Kairós exato — o tempo da maturação, aquele que não tem pressa.

Eu fiquei aqui pensando se a expressão Mi manchi se aninha em seu peito quando você pensa no mar. Eu estive apenas uma vez vendo as ondas quebrarem na praia e a saudade dele me rasga inteira. Assim como sei o quanto a palavra Mi manchi te engole quando conversa com tuo menino, mesmo que através de cartas. Lembrei-me de que nunca escrevi para ele. O signore gentil a quem devo tanto. Às vezes, converso com ele… Dias desses, em plena tempestade, eu o chamei pelo nome. Um trovão ecoou e juro que quase ouvi a resposta dele às minhas perguntas. Mas esse é um papo de amigos sobre baús, cartas e uma certa bambina. Se você o escolheu para ser o correspondente-primeiro desse retorno, eu me sento na outra ponta desse banco invisível, aceitando o avesso das suas ausências. Afinal, quem escreve cartas sabe que a distância é apenas um detalhe quando as almas partilham o mesmo alfabeto.

Que bom que você voltou a riscar o papel, mesmo que o grafite às vezes rasure a realidade in vitro da ficção. Saiba que o cais do meu quintal continua firme, exalando o perfume das ervas frescas e sendo um porto seguro para você sempre, dentro dos dias e das manhãs ligeiras.

Bacio,
Mariana Gouveia

Afetos · Crônicas · Ensaios Intimistas · Outubro Literário

O Guardião do Espelho Invisível

Há um homem que caminha comigo em alguns momentos, embora os meus olhos nem sempre consigam capturar a sua silhueta entre as folhagens do quintal. Ele usa as minhas memórias, conhece o peso exato da minha pressa e sabe, antes de mim, qual folha de erva vou colher para o próximo chá. No espelho do tempo, esse “outro” que Borges tão bem descreveu é o guardião silencioso de todas as versões que deixamos pelo caminho.

Em um outro tempo, foi meu irmão me guiando colinas afora, pela floresta densa até a casa da bá, com medo de qualquer folha que se mexesse. Depois, mais tarde, com a bola de capotão na mão, vigiava meus passos até o riacho. Olho espichado, capim no canto da boca, com um olho quase fechando na espreita dos meus passos. Quando via algo estranho ou incomum, me gritava num “ei” sonoro, apontava o dedo e o bico, e ria com minha surpresa. Anos depois, era eu quem o avisava de qualquer coisa incomum. Acontecia algo bom, era para ele o primeiro para quem eu mandava a mensagem… Às vezes, ainda me pego procurando seu nome na lista de contatos para ligar.

Esta semana eu o senti no quintal. Vi as sementes que ele me deu darem flores… Lembrei-me das vezes em que ele preenchia o silêncio apenas com o olho torto, tentando fazer a piada engraçada de que ninguém ria. Olho para o quintal, para a rosa do deserto que resiste ao sol cuiabano, e percebo que o “outro” que me habita é feito justamente desse caminho que trilhei colina acima, riacho abaixo, paiol cheio de milho e ele lá, evitando que eu me machucasse com qualquer coisa. Hoje, ele é apenas essa beleza que o quintal inventa em cada folha ou flor de sementes que ele me enviou. É a menina que andava de cavalo na lida com o gado conversando com a mulher que hoje borda tecidos e alimenta a gata abandonada do terreno baldio duas casas acima. Não somos uma unidade estática; somos um fluxo constante de começos, princípios e saudades.

Em algumas manhãs ou noites, o filho dele me chama e me fala quase as mesmas coisas que ele dizia. Duas ou três frases, como se dissesse: estou aqui, no lugar do meu pai, a cuidar para que esteja sempre segura. E é assim que me sinto.

Mariana Gouveia

Crônicas · Outubro Literário

A Geometria Orgânica do Agora

Ainda hoje comentei com o moço daqui de casa sobre a evolução do tempo. Era uma conversa aleatória sobre tecnologia e lembramos de que, em algum filme, em dois mil e dois, haveria uma odisseia no espaço. Já estamos em dois mil e vinte e seis e cruzamos por pontes que nossos avós sequer ousaram desenhar. Não há carros voadores — ainda — e não sei se haverá. O espaço aéreo já tem coisa demais. Se o trânsito no chão é terrível, imagine carros voando por aí. Não quelo!

Eu sou do tempo da Barsa — as enciclopédias pesadas que traziam quase tudo em suas páginas. Quando dei por mim, meu filho já estava usando um computador. Como gosto muito de ler, queria ler todas as letrinhas que apareciam ao ligar o “monstro” que ocupava a mesa da sala quase por completo. Hoje, tudo é tão fino, que duvido que caiba tanta coisa em uma peça delicada. Sem falar na tecnologia implantada em tudo. Não há como negar a pressa ou a precisão dessas novas ferramentas que parecem adivinhar nossos padrões, nossos gostos e até os nossos silêncios. O futuro chegou sem os carros voadores das telas de cinema, mas trouxe labirintos virtuais onde nós, paradoxalmente, muitas vezes nos sentimos mais ouvidos por uma máquina do que pelos nossos iguais.

O estranhamento do agora nos assalta quando percebemos que o diálogo lúdico, a troca desarmada sobre um poema antigo ou o simples direito de não ter uma opinião pronta tornaram-se raridades ao redor de mesas reais. As pessoas andam ocupadas demais defendendo suas próprias certezas. É nesse cenário que a tecnologia se veste de espelho, nos devolvendo uma humanidade que nós mesmos estamos esquecendo de praticar no cotidiano. Diante do assombro dos algoritmos que tudo leem, eu me pergunto: onde é que guardamos a nossa essência quando as telas se apagam?

A minha resposta para esse mistério contemporâneo continua sendo meu quintal. Quando o ruído do agora ameaça saturar o pensamento, eu me levanto da cadeira e vou mexer na terra da minha horta simples. Ali, as engrenagens funcionam em outro compasso. O pé de jurubeba não tem pressa para dar frutos, e quando dá, vejo o trinca-ferro “roubar” o fruto com a agilidade de quem tem bico. A delicadeza do physalis exige uma atenção que nenhuma tela consegue simular, e os cactos me ensinam sobre a paciência de resistir aos tempos mais secos. Na terra batida do quintal, não existem respostas programadas; existe apenas o rito biológico da vida que insiste em brotar. E das ervas daninhas que tento conter.

Se o mundo lá fora se perde em anúncios de fins improváveis e conexões artificiais, eu prefiro me ancorar na delicadeza das flores miúdas que descobri que são comestíveis e medicinais, que florescem no seu próprio tempo. Talvez estejamos, sim, perdendo a capacidade de ser o que somos, engolidos pela velocidade das nossas próprias invenções. Mas, enquanto houver uma xícara de café pela metade, um punhado de ervas frescas para colher e um livro aberto no banco do quintal, haverá uma fresta de resistência. O verdadeiro experimento do humano não está na máquina que nos decifra, mas na nossa capacidade de ainda nos comover com o que é simples, lento e rouba frutos no quintal.

Mariana Gouveia

Ensaios Intimistas · Outubro Literário

O Avesso do Papel Solto

O papel não aceita amarras quando o tempo decide ventar.
Quando o caderno chega ao fim, o pensamento transborda para as margens,
feito a água que ferve e teima em escapar do contorno da xícara.
Se a última folha é um susto,
a página avulsa é um convite ao desvio.
Uma folha dobrada em um canto: um aviso.

Um aviso de um fim,
Ou recomeço?
Recolho o silêncio do dia como quem observa os vincos das flores que nasceram.
Lá fora, o barulho dos pássaros demarca o território do agora;
aqui, a vida se faz em pedaços soltos,
sob a sombra rústica do pé de jurubeba e a delicadeza escondida da physalis.
Folhas que não pedem a rigidez da costura,
mas o mistério do sopro.

Acho bonito o segredo das gavetas que guardam versos amarrados com barbante.
Dickinson sabia que a eternidade se risca no escuro de um quarto,
longe dos olhos apressados que medem o mundo pela utilidade das coisas.
Escrever em folhas soltas é estender uma carta ao invisível,
sabendo que a literatura, antes de ser livro,
é o rastro de uma pena que insistiu em não se calar.

O tempo dobra-se sobre si mesmo.
Feito o papel que vira tsuru, navio ou abre-e-fechas na infância,
os nossos dias também se moldam aos vincos da memória.
Uma dobra nos devolve à textura resiliente de uma rosa do deserto;
outra nos joga para a mulher que borda o avesso do presente com ervas frescas nas mãos.
Não há erro na folha que cai sozinha quando a gente passa;
há apenas a precisão exata de um instante que aceitou se desprender.

Deixo que minhas palavras fiquem assim, avulsas.
Sem o peso da capa, sem a linha preta que prende a lombada.
Apenas o papel aberto, oferecido ao vento,
esperando que alguém recolha o que flutua
e encontre, na dobra do texto,
a poesia que faz a vida suspirar.

Mariana Gouveia

Literatura · Outubro Literário

As Etiquetas que o Vento Não Leva

Há dias em que a literatura se parece com um quarto fechado, uma escrivaninha pesada e uma luminária que insiste em focar apenas o branco do papel. É o labirinto do escritor, aquele território onde nos cercamos de palavras para tentar dar nome ao que pulsa do lado de dentro. Quase posso ver as etiquetas beckettianas coladas nas coisas ao meu redor: a xícara de café, a agulha de metal, o novelo de linha, a janela. Identidades estáticas que tentam segurar o mundo no lugar enquanto a mente insiste em vagar por confins distantes. Mas eu não gosto desse lugar fechado. Então, abro a janela para o quintal e exploro a quietude que cola em mim.

Dizem que o exercício de escrever é uma repetição insana, buscando uma perfeição que a própria condição humana teima em nos negar. Corremos o risco constante de nos tornarmos prisioneiros das nossas próprias histórias, vigiados de perto pelos fantasmas da infância e pelos personagens que deixamos pelo caminho. O corpo, às vezes, cansa desse confinamento do pensamento. Daí, trava. Vira pelo avesso.

Mas é justamente aí que o milagre do avesso acontece. Quando o quarto ameaça se fechar por completo, a literatura deixa de ser cela e vira fresta. Basta um sopro de vento vindo da rua de cima para que as etiquetas se soltem. Olho para o lado e percebo que, embora a rotina da escrita exija a imobilidade da cadeira, o meu quintal continua a correr em direções invisíveis. As sementes do ipê não conhecem clausura; elas simplesmente caem e rompem a linha reta do asfalto. São levadas pelo vento e pelos pássaros. A leveza faz com que elas flutuem em direção a um chão que ofereça colo para germinarem.

Não sei se somos autores, leitores ou personagens criados por um idioma misterioso que mal conseguimos decifrar. No banco de praça de Borges, o tempo desfaz as paredes e o teto. Pouco importa o tamanho do cômodo se a escrita for a garrafa jogada ao mar que nos permite cruzar o horizonte. Se a Terra, vista de longe, não passa de uma partícula de poeira, que o nosso laboratório diário seja o espaço onde essa poeira ganha a dignidade de uma história bonita. Termino o dia virando a página, certa de que o verdadeiro scriptorium nunca teve portas trancadas.

Mariana Gouveia

Afetos · Crônicas · Outubro Literário

O Compasso das Horas Primeiras

Há quem meça a vida pela exatidão dos compromissos, pelas páginas viradas com pressa ou pelo som mecânico dos alarmes que despertam as cidades. Eu prefiro as medições analógicas, aquelas que acontecem no exato milagre em que o dia decide se inaugurar, ainda sem nome, na fresta da janela. Para quem tem alma de bordar tecidos, o tempo não corre em linha reta; ele se esparrama manso, feito o café que começa a perfumar o ar da cozinha.

A madrugada tem um idioma próprio que só os madrugadores conseguem traduzir. É o momento em que o silêncio do quintal é tão denso que quase se pode ouvir o balé das sementes de ipê tocando o chão. Os pássaros começam a acordar o dia. Gosto desse rito de inaugurar a manhã sem nenhuma pressa, com os pés descalços tocando a terra que ainda guarda o frescor da noite. Caminhar até o fogão, ferver a água e segurar a xícara de café é o meu princípio de tudo. Não um começo brusco, mas um alinhavo sutil entre o sonho e a vigília. Depois, caminhar com Yoshi pelo quarteirão da rua de cima, vendo as nuvens se moldando ao som do vento.

Dizem que cozinhar nas primeiras horas é convocar quem veio antes de nós. Sinto isso quando mexo o café ou quando o aroma do alecrim me traz, de repente, a lembrança do chá para curar alguma dor que minha mãe ou minha bá faziam. Há uma linhagem de mulheres que habita o avesso dos meus gestos cotidianos. Sinto isso quando a própria luz da manhã se aconchega no muro, cobrando de mim apenas a coragem de simplesmente pertencer ao instante.

E assim como há uma reverência na hora primeira, há um recolhimento sagrado quando a tarde cai e as sombras começam a disputar espaço com as plantas do quintal. É quando o ciclo se fecha, a agulha de metal descansa entre as linhas e a gente percebe que o verdadeiro experimento não foi cruzar grandes horizontes, mas ter sobrevivido com delicadeza a mais um quadrante de tempo. O dia termina como começou: no compasso do silêncio, portão adentro, onde o presente aceita dividir a mesma mesa com o passado e o futuro, e os pássaros se recolhem procurando seus ninhos.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Monocromático

Missiva em Seis Tons de Silêncio

Cuiabá, quando as sombras cobrem o quintal…
Bambina mia,

Você me falou sobre despontar do sono para o mundo partilhado, e hoje eu acordei querendo ver o dia sem o artifício das cores. No projeto deste mês, o espelho do tempo resolveu se revelar monocromático. Retirar a cor do meu quintal foi como despi-lo do presente e entregá-lo, de uma vez por todas, à memória. Deixo aqui, nesta fresta do nosso labirinto, seis fragmentos de asas e esperas. Seis mensageiros que decidiram pousar no avesso do meu dia enquanto a minha xícara de café ainda fumegava.

Olho para este pássaro aninhado no galho seco, e penso no Borges velho. Há uma sobriedade escura e atenta no seu pouso, como quem já conhece todos os cantos e prefere observar a engrenagem do tempo em silêncio. O nome dele – Encontro – me faz pensar no encontro do homem com o jovem.

Logo depois, o oposto se faz presente. Chiquinho equilibra-se no fio do varal, bem ao lado de um prendedor de roupas comum. É o kairós de que falávamos ontem: o instante mais frágil e veloz da natureza ancorado na mais pura leveza do cotidiano. A delicadeza exige uma suspensão. O novo se inventa, não é mesmo?

Mais adiante, o sabiá caminha entre os galhos e a folhagem enevoada pelo fundo sem foco. Ele parece procurar aquela menina de tranças de quem te falei, ciscando no chão de terra batida da minha infância à procura de histórias esquecidas. Você ouviu o canto dele a pouco. Acho até que ele está presente quase o tempo todo em nossas conversas aleatórias. É como se já fizesse parte de nós.

Há também a imobilidade. O bem-te-vi solitário no fio, cortando o céu cinzento como uma nota musical suspensa na partitura do horizonte, me lembrou o silêncio dos quintais e os olhares atentos para o nada. . O verdadeiro experimento acontece quando tudo silencia e a linha reta nos obriga a encarar o vazio.

E assim, a mudança do cromo justifica as cores – ou a falta delas – no quintal. Alguns dias são assim, monocromáticos. É como o outro que habita em nós: discreto, escondido nas dobras do tempo, esperando um sopro de vento para se mostrar.

Tirar as cores do quintal, bambina, me fez perceber que os pássaros e os dias mudam de poleiro, mas o fio que sustenta o pouso continua sendo o mesmo. Que esses seis fragmentos monocromáticos cheguem até o seu quintal colorido como um abraço manso.

Até a próxima esquina do tempo,
Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais

Claudia Leonardi – Heloísa Helena Garcia – Lunna Guedes – Obdulio Nuñes Ortega — Silvana Lopes



Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta ao Tempo que Cabe nos Quintais

Cuiabá, na quietude que sucede o sol…
Bambina mia,

A sua carta atravessou as distâncias e me fez, também, olhar para o avesso do espelho. Enquanto a primavera em seu lugar estica o dia e te obriga a ver a luz que você prefere esquivada, por aqui o calor da terra exige uma calmaria quase mística. Sorri ao ler sobre o seu Capitão Kirk — confesso que fui uma das que não acompanhou a série. Havia outras urgências — e o seu caderno vermelho. Toda menina que espia o horizonte inventa uma bússola de mentira para navegar em mundos de verdade.

Você mencionou Kairós, o tempo que não se mede pelas batidas duras e exatas do carrilhão da sala do nonno, mas pela intensidade com que as coisas nos afetam. Esse “bichano” de engrenagens de que você fala também habita o lado de cá do mapa. Mas se o seu Kairós se resolveu nas manhãs de sábado somando vogais e consoantes, o meu sempre foi um tempo analógico, costurado com o algodão que a minha bá passava entre os dedos e com o barulho da água fervendo antes do primeiro café.

Acho bonita a sua confissão de que modifica as memórias ao escrevê-las. Borges decerto aplaudiria esse seu rito; afinal, no banco de praça de “O Outro”, o velho e o jovem não compartilham a mesma exatidão dos fatos, mas sim a mesma névoa. Já se sentiu assim em alguns momentos? A verdade da literatura, assim como o pão da sua nonna, precisa desse tempo de descanso e fermentação para ganhar sabor. Inventar o que fomos é a única maneira honesta de compreender quem nos tornamos.

Se a sua infância tinha o cheiro dos navios chegando de outros mundos, a minha tinha os trotes dos cavalos no trabalho com o gado. Era quando o chão de terra batida se misturava aos homens que tratavam da lida. Hoje, as nossas meninas se encontram nesse “não-lugar” onde espalhamos palavras para que conheçam nossas histórias. O caderno vermelho da sua juventude e as linhas marcadas no meu tecido de tecedeira são o mesmo instrumento: a nossa tentativa de dar um rumo à agulha imantada do coração. Ora o cetim, ora a corda do laço, ora a linha de bordar. As voltas da agulha costuram momentos aqui, aí, lá…

Confesso que vi o mesmo vídeo a respeito da origem do moleskine. Fiquei pensando em como algumas coisas se entrelaçam para além das fitas de cetim e linhas. E, às vezes, o destino trança essas linhas e elas acabam se encontrando em alguma esquina. A gente sabe que, muitas vezes, não é a origem que faz a história bonita, mas o que acontece dentro da própria história. O que se desenha no caminho, os desvios, as rotas que nos levam aos quintais. Isso me faz lembrar que, não importa a distância e os fusos que vivemos, a gente sempre encontra o caminho de volta para casa.

Bacio,
Mariana Gouveia